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Ciência

Plantar árvores pode prejudicar o planeta? A resposta é mais complicada do que parece

Plantar bilhões de árvores parecia uma das respostas mais simples contra o aquecimento global. Agora, o próprio pesquisador por trás dessa ideia explica por que é preciso cuidado.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Poucas soluções ambientais parecem tão intuitivas quanto plantar árvores. Elas capturam carbono, criam habitats e ajudam a recuperar áreas degradadas. Não surpreende que campanhas gigantescas de reflorestamento tenham conquistado governos, empresas e organizações internacionais. Mas o cientista Thomas Crowther, cujo trabalho ajudou a impulsionar esse movimento, passou a fazer um alerta desconcertante: plantar árvores no lugar errado, da maneira errada ou pelo motivo errado pode acabar prejudicando justamente aquilo que se pretende proteger.

Tudo começou com uma estimativa que correu o mundo

Plantar árvores pode prejudicar o planeta? A resposta é mais complicada do que parece
© Pexels

Em 2019, um estudo liderado por Thomas Crowther, então ligado à ETH Zurique, estimou que o planeta teria espaço para aproximadamente 1,2 trilhão de árvores adicionais.

Os cálculos sugeriam um enorme potencial de armazenamento de carbono caso áreas adequadas fossem recuperadas em escala global.

A ideia ganhou enorme repercussão porque oferecia algo aparentemente simples diante de um problema extremamente complexo: se o excesso de dióxido de carbono aquece o planeta e árvores retiram CO₂ da atmosfera durante seu crescimento, plantar mais árvores poderia representar uma poderosa ferramenta climática.

O estudo ajudou a alimentar o entusiasmo em torno de grandes iniciativas internacionais de restauração florestal.

Mas a mensagem original acabou frequentemente reduzida a uma fórmula sedutora demais: quanto mais árvores, melhor.

Com o passar dos anos, Crowther passou a enfatizar justamente as limitações dessa interpretação. Durante a COP28, o pesquisador alertou que projetos de plantio podem até ser prejudiciais quando utilizados para evitar uma questão muito mais importante.

O problema não está simplesmente nas árvores.

Está naquilo que fazemos para justificar sua plantação.

Plantar árvores não compensa continuar emitindo carbono indefinidamente

Plantar árvores pode prejudicar o planeta? A resposta é mais complicada do que parece
© Pexels

Uma das principais críticas envolve o uso de reflorestamento como compensação de emissões.

Empresas podem financiar projetos de plantio ou adquirir créditos relacionados à captura de carbono enquanto continuam liberando grandes quantidades de gases de efeito estufa.

Para Crowther, esse mecanismo se torna problemático quando funciona como desculpa para adiar reduções reais nas emissões.

Uma árvore também não captura instantaneamente todo o carbono prometido por um projeto. Ela precisa crescer e permanecer viva durante décadas. Incêndios, secas, desmatamento, doenças ou mudanças no uso da terra podem devolver parte desse carbono à atmosfera.

Existe ainda uma diferença essencial entre restaurar uma floresta degradada e simplesmente cobrir qualquer área disponível com árvores.

Nem todo espaço sem floresta precisa de uma.

Pradarias e savanas, por exemplo, possuem ecossistemas próprios e desempenham funções importantes para a biodiversidade e para o armazenamento de carbono.

Transformar essas áreas artificialmente em florestas pode destruir habitats em vez de recuperá-los.

Existe até um cenário em que mais árvores podem aumentar a temperatura local

Outro fator pouco conhecido envolve o chamado albedo, que representa quanto da radiação solar uma superfície consegue refletir.

Áreas claras, especialmente aquelas cobertas sazonalmente por neve, refletem uma parcela significativa da energia recebida.

Florestas são geralmente mais escuras.

Em determinadas regiões e latitudes, substituir superfícies mais claras por grandes áreas cobertas por árvores pode aumentar a quantidade de energia solar absorvida pelo terreno.

Isso significa que os benefícios climáticos da captura de carbono precisam ser avaliados juntamente com outros efeitos físicos.

Há ainda o consumo de água, a escolha das espécies e a relação com a agricultura.

Plantações extensas de árvores de crescimento rápido podem parecer eficientes quando o objetivo é produzir madeira ou acumular carbono rapidamente, mas espécies inadequadas podem pressionar recursos hídricos, empobrecer ecossistemas e competir com terras utilizadas para produção de alimentos.

Casos observados em diferentes países mostram justamente a importância de considerar as características locais antes de transformar o plantio em meta numérica.

Uma floresta não é simplesmente uma coleção gigantesca de árvores

Essa distinção está no centro da nova abordagem defendida por pesquisadores da área.

A cientista ambiental Karen Holl argumenta que, em diversas situações, permitir a regeneração natural dos ecossistemas pode ser mais interessante do que realizar grandes plantações artificiais.

Quando as condições permitem, sementes presentes no solo, animais dispersores e vegetação remanescente podem participar da recuperação da área.

Isso não significa abandonar projetos de reflorestamento.

Em regiões muito degradadas, a intervenção humana pode ser necessária para que a recuperação aconteça. A questão é evitar transformar “quantidade de árvores plantadas” no único indicador de sucesso.

Um projeto eficiente precisa considerar quais espécies pertencem naturalmente ao local, se existe diversidade suficiente, quanto tempo a vegetação permanecerá protegida e quais impactos surgirão para as comunidades que vivem naquela região.

A restauração também não deveria ocupar terras essenciais à agricultura ou retirar recursos de populações locais em nome de metas climáticas distantes.

A melhor árvore pode ser aquela que já existe

A mudança de perspectiva leva a uma conclusão importante: proteger ecossistemas existentes costuma ser tão ou mais importante do que plantar novas árvores.

Uma floresta madura representa décadas ou séculos de carbono armazenado e abriga relações ecológicas impossíveis de reconstruir rapidamente com uma plantação.

Por isso, especialistas defendem uma hierarquia mais cuidadosa: preservar florestas existentes, permitir que ecossistemas degradados se recuperem naturalmente quando possível e plantar espécies nativas onde a intervenção realmente for necessária.

Acima de tudo, reflorestamento não substitui a redução das emissões de combustíveis fósseis.

Energias mais limpas, eficiência energética e mudanças nos sistemas de transporte continuam sendo fundamentais para enfrentar a origem do problema climático.

A grande mudança, portanto, não é deixar de plantar árvores.

É abandonar a ideia confortável de que basta plantar bilhões delas para continuar fazendo todo o resto da mesma maneira.

[Fonte: OK Diario]

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