Uma adolescente descobre que consegue mover objetos com a mente enquanto enfrenta a violência da própria família e a crueldade dos colegas. A história parece familiar, mas a nova série de Carrie, disponível no Prime Video, acrescenta elementos que aproximam a ficção de debates científicos e sociais. Entre médiuns investigadas por pesquisadores, hipóteses genéticas e redes sociais, a produção recupera perguntas que atravessam mais de um século.
O retorno de Carrie traz um terror diferente
A nova adaptação de Carrie transforma o clássico de Stephen King em uma série de oito episódios.
A produção é comandada por Mike Flanagan, responsável por A maldição da residência Hill e Missa da meia-noite, e apresenta Summer H. Howell como Carrie White, uma adolescente criada sob o controle religioso de sua mãe, Margaret, interpretada por Samantha Sloyan.
O romance original, publicado em 1974, ganhou sua adaptação cinematográfica mais conhecida em 1976, dirigida por Brian De Palma. Cinquenta anos depois, a nova versão amplia a história para explorar aspectos que ficaram em segundo plano no cinema.
Um deles é a possibilidade de que os poderes de Carrie tenham origem genética.
Outro envolve mulheres que, ao longo da história, afirmaram possuir capacidades semelhantes e chegaram a ser investigadas por cientistas.
Mas a mudança mais evidente está no ambiente escolar. Agora, a humilhação não termina quando a vítima deixa a sala de aula. Ela pode continuar circulando pelas redes sociais, alcançando milhares de desconhecidos.
Mulheres que diziam mover objetos realmente foram investigadas

A ideia de movimentar objetos sem contato físico não surgiu com Stephen King.
Durante o século XIX, quando o espiritismo ganhou popularidade na Europa e nas Américas, sessões mediúnicas atraíam a atenção de pesquisadores interessados em fenômenos aparentemente inexplicáveis.
Uma das figuras mais conhecidas foi Eusapia Palladino, médium italiana que afirmava conseguir levantar mesas e deslocar objetos durante sessões espirituais.
Suas demonstrações foram acompanhadas por investigadores de diferentes países, incluindo cientistas interessados em descobrir se existiam forças físicas ainda desconhecidas.
Entretanto, as observações produziram resultados contraditórios e acusações de fraude. As condições de muitas sessões, frequentemente realizadas em ambientes pouco iluminados, dificultavam a verificação independente.
A historiadora Andrea Graus, pesquisadora do Conselho Superior de Investigações Científicas da Espanha, explica que esses fenômenos chegaram a despertar expectativas de constituir um novo campo de investigação científica.
Com o tempo, porém, a ausência de resultados confiáveis e reproduzíveis enfraqueceu essas expectativas.
A própria série recupera a figura de Palladino, conectando o universo sobrenatural de Carrie a episódios documentados da história da ciência.
A ciência já tentou descobrir se a mente consegue alterar a matéria
O fenômeno conhecido como psicocinese descreve a suposta capacidade de influenciar sistemas físicos utilizando apenas a mente.
Os pesquisadores distinguem duas categorias: a macropsicocinese, que envolveria movimentos visíveis de objetos, e a micropsicocinese, associada a alterações extremamente pequenas, detectáveis apenas por instrumentos.
Na segunda metade do século XX, experimentos passaram a utilizar geradores de números aleatórios para investigar se a intenção humana poderia modificar resultados produzidos por máquinas.
Uma análise de 380 estudos, publicada em 2006 na revista Psychological Bulletin, encontrou efeitos estatísticos muito pequenos, mas também identificou problemas metodológicos e possíveis vieses de publicação.
Em 2018, outro experimento, envolvendo 12.571 participantes, não encontrou evidências de que estados emocionais influenciassem resultados de um gerador quântico de números aleatórios.
O estudo publicado na revista Frontiers in Psychology reforçou as dificuldades de demonstrar esse fenômeno em condições controladas.
Até hoje, não existem evidências científicas robustas e reproduzíveis de que seres humanos consigam mover objetos diretamente com a mente.
Isso torna os poderes apresentados em Carrie um recurso de ficção, e não uma capacidade humana reconhecida pela ciência.
O misterioso gene que explicaria os poderes de Carrie

No universo criado por Stephen King, os poderes sobrenaturais podem ser transmitidos geneticamente.
O escritor introduziu no romance original a ideia de um gene chamado TK, responsável pela suposta capacidade de movimentar objetos com a mente.
A nova série desenvolve essa possibilidade, relacionando Carrie a outras mulheres que teriam apresentado habilidades semelhantes.
Na genética real, existem genes chamados TK1 e TK2, envolvidos em processos celulares relacionados ao DNA. Entretanto, nenhum deles possui qualquer associação conhecida com poderes paranormais.
Essa explicação fictícia também permite abordar questões ligadas ao corpo feminino. Os poderes de Carrie surgem durante a adolescência, período marcado por transformações físicas e emocionais.
A primeira menstruação da protagonista, acompanhada pela humilhação imposta pelas colegas, permanece um dos momentos centrais da história.
O sobrenatural funciona, assim, como uma representação extrema da violência, da repressão e da tentativa de controlar o corpo feminino.
O verdadeiro terror de Carrie agora está nas redes sociais

Se a versão de 1976 retratava principalmente a crueldade dentro da escola, a adaptação de 2026 amplia esse problema para o ambiente digital.
Na nova história, Carrie enfrenta um episódio de bullying que se torna viral, expondo sua intimidade a pessoas que sequer a conhecem.
A mudança reflete uma transformação importante nas relações sociais: humilhações antes limitadas a determinados espaços podem ser gravadas, compartilhadas e reproduzidas indefinidamente.
Flanagan também explora como a violência coletiva pode crescer quando espectadores deixam de ser apenas testemunhas e passam a participar da exposição pública.
A série transforma o medo sobrenatural em uma reflexão sobre vigilância, privacidade e pertencimento.
Carrie terá uma segunda temporada?
Sim. A Amazon confirmou em outubro de 2026 que a produção foi renovada para uma segunda temporada.
Segundo o comunicado oficial do Prime Video, Flanagan e King pretendem expandir a história para além dos acontecimentos tradicionalmente associados ao baile de formatura.
A decisão abre espaço para aprofundar o universo sobrenatural e desenvolver personagens que receberam menos atenção nas adaptações anteriores.
Mais de cinco décadas depois da publicação do romance, a força de Carrie continua ligada a uma contradição: seus poderes são impossíveis segundo o conhecimento científico atual, mas os medos que alimentam a história permanecem reconhecíveis.
A repressão familiar, a vergonha do próprio corpo, a perseguição coletiva e a exposição pública continuam fazendo parte da experiência de muitos adolescentes. A diferença é que, agora, tudo pode acontecer diante de uma câmera.