Como um senador brasileiro conseguiu deixar o país depois de receber uma ordem judicial para entregar seus passaportes? Essa é a pergunta que continua cercando a saída de Flávio Bolsonaro do Brasil. Em sua primeira entrevista após chegar aos Estados Unidos, o ex-candidato à Presidência afirmou que organizou tudo sozinho, mas se recusou a explicar os detalhes. A declaração reacendeu dúvidas sobre o trajeto, possíveis apoios internacionais e as consequências jurídicas do episódio.
Flávio Bolsonaro afirma que levará segredo sobre viagem para o túmulo
Em entrevista concedida ao jornal americano The New York Times, em 4 de novembro de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) afirmou que não recebeu ajuda de governos, autoridades ou aliados para deixar o Brasil.
O parlamentar, derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno das eleições presidenciais de outubro, chegou aos Estados Unidos em 28 de outubro, depois de uma viagem que passou pela Argentina e pelo Equador.
Questionado sobre como conseguiu realizar o percurso, respondeu que levaria essa informação para o túmulo.
Segundo Flávio, a decisão de sair do país foi tomada espontaneamente com sua esposa, após uma visita ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena por envolvimento na tentativa de golpe de Estado após as eleições de 2022.
O senador reconheceu que possui amigos no exterior, mas sustentou que recebeu apenas apoio moral.
A declaração contrasta com informações publicadas pela imprensa internacional. Segundo o New York Times, autoridades americanas relataram que um funcionário da Casa Branca participou da organização da aeronave utilizada na viagem.
Flávio nega essa assistência.
Como o senador conseguiu chegar aos Estados Unidos?

A viagem começou em meio a uma disputa judicial.
Após a derrota eleitoral, Flávio recebeu uma determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para entregar seus passaportes. A medida estava relacionada a uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro.
Em 26 de outubro, o senador divulgou um vídeo afirmando que cumpriria a ordem e que não pretendia abandonar o país.
Entretanto, no dia seguinte, deixou o território brasileiro.
De acordo com informações reunidas pela agência Reuters, Flávio atravessou a fronteira terrestre com a Argentina pela região de Foz do Iguaçu, no Paraná.
A família entrou na província argentina de Misiones em 27 de outubro e posteriormente embarcou em um avião particular da empresa Baires Fly, no aeroporto de Puerto Iguazú.
A aeronave, um Gulfstream G400, seguiu para Guayaquil, no Equador, antes de continuar até Miami, na Flórida.
O desembarque ocorreu na manhã de 28 de outubro, aproximadamente 42 horas depois das primeiras declarações públicas do senador sobre a entrega dos documentos.
A cronologia publicada pela Reuters reúne registros migratórios, dados de rastreamento aéreo e declarações oficiais que permitem reconstruir parte do deslocamento.
Apesar disso, permanecem dúvidas sobre quem organizou a logística da viagem e como foram feitos os preparativos.
A participação de autoridades estrangeiras entrou no centro da controvérsia

Informações publicadas por veículos internacionais apontam para possíveis conexões políticas envolvendo os governos de Donald Trump, nos Estados Unidos, e Javier Milei, na Argentina.
Segundo o New York Times, autoridades americanas afirmaram que a entrada de Flávio nos Estados Unidos recebeu autorização direta de Trump.
A reportagem também relatou que um assessor próximo ao presidente argentino teria se encontrado com o senador durante sua passagem pelo país.
Essas informações não demonstram, por si só, que os governos estrangeiros participaram de todas as etapas da saída do Brasil.
O senador insiste que não houve auxílio governamental.
Sua família recebeu autorização para permanecer nos Estados Unidos por pelo menos um ano, por meio de uma condição migratória normalmente concedida por razões humanitárias.
O episódio também provocou repercussões diplomáticas, considerando as divergências entre o governo brasileiro e os presidentes americano e argentino.
Quais investigações Flávio Bolsonaro enfrenta no Brasil?
Flávio Bolsonaro é investigado em procedimentos relacionados a suspeitas de lavagem de dinheiro e corrupção.
O senador nega irregularidades e afirma ser alvo de perseguição política por parte do Judiciário brasileiro.
Na entrevista, declarou acreditar que poderia acabar preso caso permanecesse no Brasil.
Entretanto, é importante distinguir investigações de condenações. Segundo as informações divulgadas pelo New York Times, até 5 de novembro o senador não havia sido formalmente acusado criminalmente nesses procedimentos.
Sua situação poderá sofrer mudanças após o encerramento do mandato parlamentar, previsto para o início de 2027, quando deixará de contar com determinadas prerrogativas associadas ao cargo.
A saída do país também levanta questões sobre o cumprimento das determinações judiciais e eventuais consequências jurídicas do deslocamento.
Flávio Bolsonaro continua contestando a vitória de Lula
Mesmo depois de chegar aos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro manteve sua posição de não reconhecer a derrota eleitoral.
O senador voltou a questionar a confiabilidade do resultado, mas não apresentou provas que demonstrassem fraude nas urnas eletrônicas.
O Partido Liberal, legenda pela qual disputou a Presidência, reconheceu oficialmente o resultado do segundo turno.
Flávio afirmou que pretende continuar atuando politicamente do exterior e não descartou retornar ao Brasil caso sejam realizadas novas eleições.
Segundo a reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, o senador também reconheceu as dificuldades de conseguir alterar judicialmente o resultado da votação.
Enquanto isso, a trajetória entre Brasil, Argentina, Equador e Estados Unidos continua sob escrutínio público.
Os registros disponíveis ajudam a reconstruir o caminho percorrido, mas não esclarecem completamente quem participou de sua organização.
Por enquanto, Flávio Bolsonaro mantém a decisão de não revelar esses detalhes, deixando uma das principais perguntas sobre sua saída do Brasil sem resposta definitiva.