A paisagem montanhosa da América Latina esconde uma das maiores concentrações de atividade vulcânica do mundo. Embora avanços científicos tenham fortalecido o monitoramento nas últimas décadas, muitos vulcões continuam sendo acompanhados de forma limitada ou sequer possuem sistemas completos de vigilância. Um novo estudo mostra que o desafio já não é apenas compreender como essas montanhas se comportam, mas garantir que a informação chegue à população antes que uma nova emergência aconteça.
A região concentra centenas de vulcões, mas muitos ainda são pouco monitorados
Da região central do México até o extremo sul dos Andes, a América Latina abriga mais de 300 centros vulcânicos considerados ativos. Entre eles estão estratovulcões, caldeiras, complexos vulcânicos e extensos campos formados por pequenos cones. Em torno dessas áreas vivem milhões de pessoas, além de rodovias, aeroportos, usinas, cidades e importantes atividades econômicas.
Apesar dessa realidade, uma parcela significativa desses vulcões ainda não recebe monitoramento contínuo. Um estudo publicado no Journal of South American Earth Sciences aponta que, embora a região tenha avançado muito desde os anos 1980, ainda existem limitações relacionadas à infraestrutura, ao financiamento, à disponibilidade de equipamentos e à integração entre instituições.
Os pesquisadores destacam que grande parte das melhorias implementadas pelos governos surgiu apenas após grandes desastres naturais. Em vez de investir continuamente em prevenção, educação e sistemas permanentes de alerta, muitos países reforçaram suas estruturas somente depois de enfrentar tragédias de grandes proporções.
O exemplo mais marcante ocorreu em 13 de novembro de 1985, quando o vulcão Nevado del Ruiz entrou em erupção na Colômbia. Embora a explosão não tenha sido extremamente intensa, o calor derreteu parte da geleira localizada no topo da montanha, formando enormes correntes de lama, água e fragmentos vulcânicos conhecidas como lahares.
Esses fluxos percorreram rapidamente os vales até atingir a cidade de Armero cerca de duas horas depois da erupção. Aproximadamente 23 mil pessoas perderam a vida em uma das maiores tragédias vulcânicas da história moderna.
Na época, cientistas já haviam identificado sinais de atividade crescente e recomendado mapas de risco e planos de evacuação. No entanto, faltaram equipamentos de monitoramento, coordenação entre órgãos públicos e uma comunicação eficiente com a população.
A tragédia mudou profundamente a forma como diversos países latino-americanos passaram a encarar o monitoramento vulcânico, impulsionando a criação de novos observatórios e sistemas de vigilância.

Tecnologia ajuda, mas prevenção depende também da população
Nas últimas décadas, a evolução foi significativa. Um levantamento publicado em 2021 mostrou que 17 instituições distribuídas por dez países monitoravam oficialmente 135 vulcões ativos. Juntas, elas representavam aproximadamente um quarto dos observatórios vulcânicos existentes em todo o planeta.
Apesar do avanço, os números também revelam uma limitação importante: menos da metade dos cerca de 302 vulcões ativos identificados no estudo recebe acompanhamento permanente.
Hoje, satélites conseguem detectar deformações no solo, alterações de temperatura e emissões de gases. Essas informações são extremamente valiosas para identificar mudanças na atividade vulcânica. Ainda assim, elas não substituem completamente os equipamentos instalados diretamente nas montanhas.
Instrumentos como sismógrafos, sensores de gases, receptores GPS e câmeras especializadas permitem registrar pequenas alterações que podem indicar o início de uma crise. Porém, manter toda essa estrutura exige investimentos contínuos, profissionais qualificados e manutenção constante.
Os especialistas ressaltam que tecnologia, sozinha, não basta para reduzir os riscos.
Mesmo um sistema moderno de monitoramento pode falhar na prática se os moradores não souberem interpretar os alertas ou desconhecerem as rotas de evacuação. Perigos como queda de cinzas, fluxos piroclásticos e lahares exigem respostas rápidas, e qualquer atraso pode aumentar significativamente os danos.
Por isso, o estudo recomenda ampliar a cooperação entre países vizinhos, criar protocolos conjuntos para vulcões localizados em áreas de fronteira e fortalecer programas de educação voltados às comunidades próximas dessas regiões.
Treinamentos periódicos, simulados de evacuação, participação das escolas e o uso de aplicativos de alerta também fazem parte das estratégias sugeridas pelos pesquisadores.
Segundo os autores, a América Latina já possui conhecimento científico suficiente para reduzir consideravelmente os impactos de futuras erupções. O maior desafio agora é garantir investimentos permanentes, mesmo durante longos períodos de tranquilidade. Afinal, uma erupção não pode ser evitada, mas seus efeitos podem ser drasticamente reduzidos quando a preparação começa muito antes dos primeiros sinais de perigo.