O campo magnético da Terra funciona como um escudo natural contra grande parte da radiação e das partículas carregadas emitidas pelo Sol. Na maioria das vezes, essa proteção faz com que o clima espacial produza apenas fenômenos espetaculares, como as auroras, ou pequenas falhas em sistemas tecnológicos. No entanto, um novo estudo da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, indica que os riscos das tempestades solares mais intensas podem estar sendo subestimados.
Publicado na revista Nature, o trabalho sugere que a resposta da Terra às tempestades solares não possui um limite máximo, como os pesquisadores acreditavam há décadas. Se a hipótese estiver correta, eventos extremos poderão provocar danos significativamente maiores em satélites, comunicações, sistemas de GPS e até nas redes de distribuição de energia.
O que é o clima espacial?

O clima espacial é provocado pela interação entre o vento solar e o campo magnético terrestre.
O vento solar consiste em um fluxo contínuo de partículas altamente energéticas liberadas pelo Sol. Durante explosões solares e ejeções de massa coronal, esse fluxo pode aumentar drasticamente, gerando tempestades geomagnéticas.
Esses eventos alteram temporariamente o plasma e o campo magnético ao redor da Terra. Como consequência, podem ocorrer interrupções nas comunicações via satélite, falhas em sistemas de navegação, sobrecarga em redes elétricas e aumento da exposição à radiação para astronautas e tripulações de voos em grandes altitudes.
Até agora, a comunidade científica acreditava que as correntes elétricas geradas na alta atmosfera terrestre atingiam um ponto de saturação quando o vento solar alcançava determinada intensidade.
O limite pode não existir
Segundo os autores do estudo, esse suposto limite pode ser apenas uma ilusão causada pela forma como o vento solar é medido.
Grande parte das observações é realizada por sondas posicionadas no chamado ponto de Lagrange L1, localizado a cerca de 1,6 milhão de quilômetros da Terra, em direção ao Sol.
Nesse trajeto, a intensidade do vento solar tende a diminuir antes de atingir o planeta. Esse fenômeno, conhecido como regressão à média, faz com que as medições utilizadas nos modelos sejam inferiores às condições que realmente existiam próximo ao Sol.
Como resultado, análises baseadas em médias sugeriam que correntes extremamente intensas deixavam de crescer após determinado ponto. Porém, segundo a nova pesquisa, isso ocorre por causa das limitações das medições e não porque exista um limite físico.
Mais de um milhão de medições reforçam a hipótese
Para testar essa ideia, os pesquisadores analisaram mais de um milhão de medições do vento solar realizadas por espaçonaves da NASA em órbita próxima da Terra.
Os resultados revelaram uma relação praticamente direta entre a intensidade do vento solar e as correntes elétricas produzidas na alta atmosfera.
Isso indica que, à medida que as tempestades solares se tornam mais intensas, a resposta do campo magnético terrestre também continua aumentando, sem sinais claros de saturação.
Caso essa interpretação seja confirmada, os modelos atuais poderão estar subestimando os impactos dos eventos solares mais extremos.
O que isso significa para a tecnologia?
A pesquisadora Maria Walach, da Universidade de Lancaster e autora do estudo, destaca que o campo magnético da Terra continua oferecendo uma proteção extremamente eficiente.
Segundo ela, na maior parte do tempo os efeitos do clima espacial se limitam à ocorrência de belas auroras ou pequenas falhas tecnológicas.
No entanto, em eventos extremos, satélites podem perder altitude inesperadamente, sistemas de comunicação podem ficar indisponíveis e os sinais de GPS podem sofrer interrupções significativas.
Walach afirma que, se realmente não existir um limite para a resposta da Terra ao vento solar, os modelos usados para prever tempestades solares severas precisarão ser atualizados.
Apesar disso, ela ressalta que eventos dessa magnitude são extremamente raros e podem ocorrer apenas uma vez a cada mil anos. Justamente por isso, ainda existem poucos dados disponíveis para compreender completamente como o planeta reagiria diante de uma tempestade solar dessa intensidade.
[ Fonte: El Tiempo ]