Houve um momento em que Star Wars esteve prestes a se transformar por completo. Não foi com a chegada da Disney, nem com o sucesso de The Mandalorian, tampouco com o tom político de Andor. Isso aconteceu bem antes, quando George Lucas ainda mandava em tudo e imaginou uma série que hoje parece impossível: violenta, adulta, cheia de crime, corrupção e intrigas. Ela quase mudou a história da franquia — e desapareceu em silêncio.
Um Star Wars sem jedis e com cheiro de submundo
O projeto se chamava Star Wars: Underworld e tinha uma proposta que, para a época, soava quase herética. Em vez de cavaleiros jedi, batalhas épicas e aventuras para toda a família, a série mergulharia no lado mais sujo e perigoso da galáxia. A história se passaria entre A Vingança dos Sith e Uma Nova Esperança, focando nos níveis mais baixos de Coruscant enquanto o Império consolidava seu poder.
Ali, o centro da narrativa não seriam heróis clássicos, mas criminosos, políticos corruptos, contrabandistas, cafetões, espiões e figuras moralmente ambíguas. As referências criativas eram claras: O Poderoso Chefão, Deadwood e até a estética urbana e decadente de Blade Runner. Era Star Wars como um drama de máfia, com prostituição, drogas, lutas de poder e traições — tudo dentro do universo criado por Lucas.
Rick McCallum, produtor histórico da Lucasfilm, descreveu a ideia sem rodeios: “Deadwood no espaço”. Não era uma série infantil. Não era uma aventura leve. Era um Star Wars que queria crescer, envelhecer junto com seu público e explorar zonas que os filmes nunca ousaram tocar.
E o mais impressionante: isso não era só uma ideia vaga em uma gaveta.
Cem roteiros prontos e um plano gigantesco demais para existir
Diferente de tantos projetos abortados em Hollywood, Star Wars: Underworld estava assustadoramente avançada. Ao longo de vários anos, a equipe de Lucas chegou a escrever cerca de 100 roteiros completos. Não eram esboços: eram episódios inteiros, prontos para produção.
O plano original falava em algo ainda mais ambicioso: até 400 episódios de cerca de 42 minutos cada. Uma saga televisiva monumental, pensada para durar anos e redefinir completamente o que Star Wars poderia ser fora do cinema.
Segundo McCallum, alguns episódios eram “maiores do que qualquer filme de Star Wars” em termos de escala narrativa. Visualmente, a comparação mais citada era Avatar. O problema, claro, era transformar tudo isso em realidade com tecnologia e orçamento de TV no fim dos anos 2000.
Cada capítulo exigiria quantidades enormes de efeitos visuais, cenários digitais e personagens em CGI. Era uma época anterior ao StageCraft de The Mandalorian, quando produzir mundos virtuais em tempo real ainda não era viável. O custo estimado girava em torno de 5 milhões de dólares por episódio — completamente fora do mercado televisivo daquele momento.
Lucas e sua equipe até tentaram desenvolver tecnologias próprias para baratear a produção, mas não chegaram a tempo. Em 2010, o projeto foi cancelado discretamente. Não por falta de roteiros, nem por falta de ideias. Apenas porque era grande demais para existir.
Um legado invisível que ainda assombra a galáxia
Mesmo sem nunca ter sido filmada, Underworld não morreu por completo. Anos depois, Kathleen Kennedy afirmou que aquele material era “ouro puro” e que muitas ideias estavam sendo reaproveitadas em projetos futuros.
É difícil não enxergar seu DNA em Andor, hoje considerada a série mais adulta e política de toda a franquia. Intrigas imperiais, personagens cinzentos, opressão estrutural, corrupção sistêmica e um tom mais próximo de um thriller político do que de uma fantasia espacial clássica — tudo isso ecoa diretamente o espírito de Underworld.
Hoje, com plataformas dispostas a investir cifras astronômicas em séries e um público acostumado a narrativas complexas, Star Wars: Underworld talvez tivesse uma chance real de existir. Mas chegou cedo demais.
Foi o Star Wars que tentou amadurecer antes da indústria estar pronta. O projeto que mostrou que George Lucas enxergava além do próprio mito — e que, ironicamente, morreu por ser ambicioso demais.
Talvez nunca vejamos essa série. Mas sua sombra continua ali, lembrando que a galáxia muito, muito distante poderia ter sido muito mais sombria, adulta e perigosa do que jamais imaginamos.