Durante três anos, a Starship acumulou testes extremos: decolagens, falhas espetaculares, retornos pela atmosfera e demonstrações de manobras cada vez mais complexas. Ainda faltava, porém, uma etapa que mudaria o significado de suas missões. No voo 14, a SpaceX finalmente tentou avançar para esse território. Um problema surgiu durante o caminho e obrigou os engenheiros a tomar uma decisão delicada enquanto a nave já estava no espaço.
O voo que precisava provar algo diferente
Até então, os voos integrados da Starship haviam sido planejados para trajetórias suborbitais. Isso significa que as naves conseguiam alcançar o espaço e percorrer grandes distâncias, mas não atingiam a velocidade lateral necessária para permanecer em órbita ao redor da Terra.
O voo 14, realizado em 28 de setembro a partir da Starbase, no Texas, tinha outro objetivo.
A SpaceX pretendia colocar a Starship em uma trajetória orbital e, depois, liberar uma carga que representava uma mudança importante para o programa: 26 satélites Starlink V3.
O plano previa inicialmente uma trajetória semelhante às anteriores, seguida de uma nova ignição de um dos motores Raptor. Esse segundo acionamento seria fundamental para aumentar a velocidade da nave e completar a inserção orbital.
Foi justamente nesse momento que surgiu o problema.
Um dos motores Raptor da nave superior desligou antes do previsto durante a subida. Por alguns minutos, a SpaceX indicou que a manobra orbital poderia ser abandonada. A missão parecia prestes a terminar de forma diferente do planejado.
Mas os engenheiros analisaram os dados de telemetria e chegaram a outra conclusão.
O restante do veículo aparentemente apresentava condições suficientes para continuar. A equipe autorizou uma nova ignição e, pouco depois, a Starship alcançou uma órbita de aproximadamente 269 quilômetros de altitude.
Depois de anos tentando chegar até esse ponto, a nave finalmente havia atravessado a fronteira que separava um grande teste de voo de uma missão orbital.
De experimento a veículo capaz de levar satélites
A conquista ganhou ainda mais importância por causa da carga transportada.
Já em órbita, a Starship abriu uma estrutura na parte frontal e começou a liberar os 26 satélites Starlink V3, aproximadamente um por minuto.
Não era apenas uma demonstração tecnológica. Pela primeira vez, a nave estava sendo utilizada para transportar satélites operacionais até a órbita terrestre.
A nova geração Starlink V3, segundo a SpaceX, foi projetada para oferecer capacidade de transmissão de dados muito superior à dos satélites V2 Mini. Colocar esses equipamentos em órbita com a Starship ajuda a demonstrar uma das funções para as quais o gigantesco veículo foi concebido desde o início: transportar cargas em grande escala.
Mas a missão ainda estava longe de terminar.
O plano original previa aproximadamente seis voltas ao redor da Terra e cerca de dez horas de voo. Depois disso, a nave deveria realizar uma manobra para sair de órbita e retornar ao oceano Pacífico, a oeste da América do Sul.
O problema com o motor alterou esse roteiro.
Após a liberação dos satélites, a SpaceX decidiu não prolongar desnecessariamente a missão. Cerca de três horas depois do lançamento, a Starship iniciou o retorno à atmosfera.

O pouso aconteceu, mas a missão ficou bem menor
Durante a reentrada, a nave utilizou suas enormes superfícies de controle para assumir uma posição horizontal. Já perto do oceano, voltou a acionar os motores para realizar a transição para uma descida vertical.
O veículo conseguiu completar a amerissagem de maneira controlada ao norte do Havaí.
Depois, a Starship tombou e os propelentes restantes provocaram uma explosão. O resultado não representava necessariamente uma surpresa: a SpaceX não planejava recuperar aquela nave.
O propulsor Super Heavy também realizou seu retorno separadamente, terminando a missão no Golfo do México.
Portanto, o voo 14 esteve longe de ser perfeito. Um motor apresentou uma falha durante a subida, a missão terminou aproximadamente sete horas antes do previsto e vários objetivos importantes ainda permanecem no caminho.
Mas existe uma diferença fundamental em relação aos 13 voos anteriores.
Desta vez, a Starship conseguiu realizar uma missão orbital e transportar satélites operacionais antes de retornar à Terra.
O verdadeiro desafio começa depois desse voo
Alcançar a órbita não encerra os desafios da Starship. Na realidade, abre uma etapa ainda mais exigente.
A NASA pretende utilizar uma versão modificada do veículo em futuras missões Artemis, o que significa que a SpaceX ainda precisa demonstrar operações muito mais complexas antes de transportar astronautas para a superfície lunar.
Entre elas estão o reabastecimento de propelente entre naves em órbita, voos frequentes, pousos lunares e uma confiabilidade muito maior do que a exigida de um protótipo experimental.
Também existe um dos objetivos centrais de todo o projeto: tornar tanto a Starship quanto o Super Heavy rapidamente reutilizáveis.
O voo 14, portanto, não foi uma missão perfeita. Foi algo talvez mais interessante: uma demonstração de que o sistema conseguiu avançar mesmo quando um problema apareceu no caminho.
Depois de anos de testes, a Starship finalmente cruzou a fronteira que faltava. E o fato de ter feito isso justamente quando um motor apresentou problemas torna o resultado ainda mais significativo para o futuro do gigantesco foguete da SpaceX.