A mudança climática deixou de ser apenas uma questão ambiental. Seus efeitos atingem economias, sistemas energéticos, produção de alimentos e disponibilidade de água, enquanto recursos essenciais para novas tecnologias ganham importância estratégica.
Nesse cenário, até o derretimento do gelo no Ártico assume uma dimensão geopolítica. A redução da cobertura de gelo pode tornar determinadas áreas mais acessíveis à navegação e à exploração de recursos, enquanto países disputam cadeias de suprimento de minerais como lítio, cobalto e terras raras.
O Ártico está ganhando importância estratégica

Emmanuela Dousi, professora de Instituições Internacionais e titular da cátedra UNESCO de Diplomacia Climática, argumenta que a crise climática precisa ser analisada também como um problema econômico, social, político e geopolítico.
Um dos exemplos mais claros está no Ártico.
O aquecimento da região e o recuo do gelo podem modificar as condições de navegação e acesso a determinadas áreas. Ao mesmo tempo, aumentam o interesse por recursos naturais encontrados no extremo norte do planeta.
Essa transformação acontece enquanto minerais críticos assumem importância crescente para baterias, veículos elétricos, redes elétricas, turbinas eólicas e outras tecnologias.
A transição energética, portanto, pode reduzir algumas dependências enquanto cria outras.
Abandonar petróleo e gás também muda relações de poder
Uma redução global no uso de combustíveis fósseis afetaria os países de maneiras diferentes.
Na avaliação de Dousi, economias fortemente dependentes da produção e exportação de petróleo, gás ou carvão teriam de encontrar novas fontes de receita e crescimento.
Por outro lado, países com grande potencial de geração solar, eólica ou geotérmica podem ganhar importância. O mesmo vale para aqueles que possuem reservas ou controlam etapas importantes do processamento de minerais essenciais.
Essa preocupação já aparece nas políticas energéticas. A Agência Internacional de Energia considera que minerais críticos passaram a ocupar um lugar central nas discussões sobre segurança energética e econômica.
Lítio, níquel, cobalto, grafite e terras raras são alguns exemplos. A produção e, principalmente, o processamento de vários desses materiais estão concentrados em poucos países, criando vulnerabilidades nas cadeias globais.
Água pode se tornar uma questão ainda mais estratégica

O problema não termina na energia.
O aumento das temperaturas, mudanças nos padrões de chuva e secas podem intensificar a pressão sobre recursos hídricos, principalmente em regiões onde rios atravessam diferentes países.
Dousi cita as tensões envolvendo Egito e Etiópia em torno do Nilo como exemplo de como o acesso à água pode adquirir importância diplomática e estratégica.
A agricultura também depende diretamente desse recurso. Problemas de disponibilidade de água podem afetar colheitas, preços e a segurança alimentar de diferentes populações.
Pesquisas recentes já apontam que choques relacionados à disponibilidade de água podem se espalhar pelos sistemas de produção de alimentos e de minerais críticos.
Mudança climática também pode afetar movimentos populacionais
Outro elemento desse cenário são os deslocamentos humanos.
Eventos extremos, escassez de água, perda de produtividade agrícola e deterioração das condições econômicas podem contribuir para movimentos populacionais, embora as causas das migrações normalmente envolvam diversos fatores sociais, políticos e econômicos.
Para Dousi, isso torna a adaptação tão importante quanto a redução das emissões.
Ela também ressalta que atribuir automaticamente todas as consequências de um desastre à mudança climática pode esconder problemas locais de infraestrutura, planejamento urbano e prevenção.
A diplomacia climática entra em uma nova fase

A cooperação internacional sobre o clima está estruturada principalmente em torno da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima e do Acordo de Paris.
Mas os países avançam em ritmos diferentes e possuem interesses econômicos distintos.
Nesse contexto, Dousi defende maior cooperação em áreas concretas, como pesquisa, desenvolvimento tecnológico e interconexões elétricas capazes de facilitar a expansão das energias renováveis.
O resultado é um mapa geopolítico mais complexo. Petróleo e gás continuam importantes, mas agora dividem espaço com lítio, cobre, cobalto, terras raras, água e até terras agrícolas.
A mudança climática não está apenas alterando temperaturas. Ela também influencia quais recursos se tornam estratégicos — e como países tentam garantir acesso à energia, aos alimentos e à água em um planeta mais quente.
[ Fonte: Euronews ]