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Ciência

Algumas pessoas ficam bêbadas sem beber nada — e a ciência finalmente descobriu como o próprio intestino pode produzir álcool

Um estudo publicado na Nature Microbiology identificou as bactérias e os caminhos biológicos responsáveis pela chamada síndrome da autofermentação, uma condição rara em que microrganismos do intestino transformam carboidratos em etanol dentro do corpo humano.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Pode soar como ficção científica — ou até como uma “vantagem biológica” improvável —, mas algumas pessoas realmente podem ficar bêbadas sem ingerir uma gota de álcool. Na prática, porém, isso está longe de ser algo positivo. Trata-se da síndrome da autofermentação, ou auto-brewery syndrome (ABS), uma condição médica rara, pouco compreendida e frequentemente subdiagnosticada. Agora, cientistas finalmente deram um passo decisivo para entender o que acontece no organismo dessas pessoas.

Em um estudo publicado nesta semana na revista Nature Microbiology, pesquisadores identificaram quais bactérias intestinais e quais processos metabólicos estão por trás da produção anormal de álcool no corpo. A descoberta pode abrir caminho para diagnósticos mais simples, tratamentos mais eficazes e uma melhora real na qualidade de vida de quem convive com a síndrome.

Quando o intestino vira uma cervejaria

A ABS ocorre quando certos microrganismos do intestino transformam carboidratos — como pães, massas e açúcares — em etanol, o mesmo álcool presente em bebidas alcoólicas. Esse etanol entra na corrente sanguínea e pode provocar sintomas típicos de embriaguez, como tontura, confusão mental, fala arrastada e dificuldade de coordenação.

É verdade que qualquer pessoa pode produzir quantidades mínimas de álcool durante a digestão. A diferença é que, na ABS, esse processo ocorre em níveis muito mais altos, suficientes para deixar o indivíduo visivelmente intoxicado.

Apesar do impacto, a síndrome ainda é pouco conhecida. O diagnóstico costuma ser complexo, pois envolve testes rigorosos de álcool no sangue sob supervisão médica — algo nem sempre disponível. Como resultado, muitos pacientes passam anos sem diagnóstico, enfrentando estigma social, problemas profissionais e até complicações legais, como acusações de dirigir embriagado sem ter bebido.

O que os cientistas descobriram

A equipe liderada por pesquisadores do Mass General Brigham, nos Estados Unidos, analisou amostras intestinais de 22 pessoas com ABS, comparando-as com as de 21 parceiros que moravam na mesma casa e 22 indivíduos saudáveis. O foco foi entender o que acontece no microbioma durante os episódios de piora dos sintomas.

O resultado foi claro: durante as crises, as amostras de fezes dos pacientes com ABS produziam quantidades significativamente maiores de etanol do que as dos outros grupos. Isso indica que o intestino dessas pessoas abriga microrganismos capazes de fermentar carboidratos de forma muito mais intensa.

“Identificar as bactérias específicas e os caminhos metabólicos envolvidos pode levar a diagnósticos mais simples e tratamentos melhores”, afirmou Elizabeth Hohmann, infectologista e coautora sênior do estudo.

As bactérias “culpadas”

A análise revelou que bactérias comuns, como Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae, desempenham um papel central na síndrome. Em pacientes com ABS, essas bactérias estavam associadas a níveis elevados de enzimas ligadas à fermentação alcoólica.

Quando os sintomas se intensificavam, os pesquisadores observavam um aumento expressivo da atividade metabólica dessas vias de fermentação — algo que não aparecia nos grupos de controle. Ainda assim, os cientistas destacam que identificar exatamente quais microrganismos causam a síndrome em cada pessoa continua sendo um processo complexo e individualizado.

Um tratamento promissor: transplante fecal

Um dos achados mais intrigantes do estudo veio da observação de um paciente tratado com transplante de microbiota fecal — procedimento que transfere fezes processadas de um doador saudável para o intestino do paciente. Após o tratamento, os sintomas diminuíram de forma significativa.

Quando o paciente apresentou recaída, mudanças específicas nas bactérias intestinais e na atividade metabólica acompanharam o retorno dos sintomas. Um segundo transplante, com uma estratégia diferente de antibióticos antes do procedimento, levou a uma remissão prolongada: mais de 16 meses sem episódios de embriaguez.

Para os pesquisadores, isso reforça a base biológica da síndrome e sugere que o transplante fecal pode se tornar uma opção terapêutica viável no futuro.

Um passo importante para sair do estigma

A síndrome da autofermentação ainda é cercada de desconfiança. Muitos pacientes relatam não serem levados a sério por médicos, familiares ou autoridades. Demonstrar que a condição tem causas biológicas bem definidas é essencial para mudar esse cenário.

“É uma condição mal compreendida, com poucos testes e poucas opções de tratamento”, explicou Hohmann, que participa de novos estudos sobre o uso de transplante fecal em pacientes com ABS.

O que muda a partir de agora

Além de abrir portas para novos tratamentos, o estudo sugere algo ainda mais prático: a possibilidade de testes diagnósticos baseados em amostras de fezes, muito mais simples do que os atuais exames de álcool no sangue.

No fim das contas, a pesquisa deixa uma mensagem clara: ficar bêbado sem beber não é mito nem exagero — é um fenômeno real, mediado por microrganismos do intestino. E, finalmente, a ciência começa a entender quem são os responsáveis por essa estranha e debilitante “cervejaria interna”.

 

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