Documentos internos vazados ao The New York Times revelam o plano mais ambicioso da história da Amazon: transformar seus centros logísticos em fábricas quase autônomas. Com milhões de robôs substituindo trabalhadores, a empresa espera economizar 30 centavos por item vendido e redefinir o que significa “trabalhar para a Amazon”.
O império dos robôs

A Amazon colocou a automação total no centro de sua estratégia para a próxima década. Segundo relatórios confidenciais obtidos pelo The New York Times, a empresa pretende automatizar até 75% de suas operações globais até 2030, reduzindo drasticamente a dependência de mão de obra humana em seus armazéns e centros de distribuição.
O plano prevê eliminar 160 mil empregos diretos nos Estados Unidos até 2027 e evitar a contratação de mais de 600 mil funcionários adicionais que, segundo estimativas da própria empresa, seriam necessários até 2033 para atender ao crescimento esperado.
Os cálculos internos mostram que, com os novos robôs autônomos, cada item vendido na loja da Amazon custará 30 centavos de dólar a menos para processar. O impacto econômico é colossal: um benefício de 12,6 bilhões de dólares em economia operacional projetada até 2027 — superando as previsões iniciais de 10 bilhões.
Armazéns 2.0: quando humanos viram exceção
Os chamados “centros logísticos 2.0” são o coração da nova fase. Hoje, a Amazon emprega 1,2 milhão de pessoas, a maioria dedicada a tarefas repetitivas como embalagem e transporte interno. A meta é substituir essas funções por robôs capazes de mover, classificar e embalar produtos com mínima intervenção humana.
Com essa mudança, a empresa estima manter o mesmo volume de vendas com 40% menos funcionários. O economista Daron Acemoglu, vencedor do Prêmio Nobel de 2024, resumiu ao NYT:
“Ninguém tem mais incentivo que a Amazon para descobrir como automatizar. Assim que ela provar que é lucrativo, o modelo se espalhará pelo resto da economia.”
O laboratório de Shreveport: o futuro em teste
A história da robotização da Amazon começou há mais de uma década. Em 2012, a empresa comprou a Kiva Systems por 775 milhões de dólares — um marco que iniciou a automação dos armazéns entre 2018 e 2019. Os robôs da Kiva eliminavam o deslocamento humano dentro dos centros, levando as prateleiras até os pontos de embalagem.
Mas o salto mais ousado veio em 2023, com a inauguração do centro logístico de Shreveport, na Louisiana. Esse armazém funciona como um laboratório de automação total: mil robôs trabalham lado a lado com apenas um quarto do pessoal de um centro tradicional. Ali, quando um produto entra em um pedido, os humanos quase não o tocam até o envio.
Os novos relatórios indicam que, com o aumento da frota de robôs, o número de funcionários em Shreveport pode cair pela metade. A Amazon planeja replicar esse modelo em 40 centros logísticos até 2027 — reduzindo drasticamente a necessidade de mão de obra em larga escala.
O novo perfil do trabalhador da Amazon
Hoje, a empresa afirma ter mais de 1 milhão de robôs ativos em suas operações globais. E isso levanta uma questão inevitável: se os robôs farão o trabalho, quem vai trabalhar na Amazon?
A resposta, segundo o CEO Andy Jassy, está na requalificação: os empregos do futuro serão de engenheiros, programadores e técnicos de manutenção robótica. Em Shreveport, por exemplo, 160 pessoas já cuidam exclusivamente da operação e manutenção dos robôs — com salários a partir de US$ 24,45 por hora, bem acima dos US$ 19,50 pagos aos embaladores tradicionais.
A empresa quer, assim, transformar-se de um gigante da logística manual em um ecossistema de tecnologia aplicada à automação industrial.
Amazon rebate: “Os documentos são incompletos”

Após a divulgação das informações pelo New York Times, a porta-voz da Amazon, Kelly Nantel, declarou ao The Verge que os relatórios “não representam fielmente os planos da empresa”.
“Documentos vazados costumam oferecer uma visão incompleta e, nesse caso, enganosa. Nossa cultura interna gera milhares de documentos com diferentes graus de precisão e atualidade.”
Nantel também reforçou que a Amazon segue contratando ativamente e que planeja abrir 250 mil vagas temporárias para a temporada de final de ano, em todo o território americano.
O futuro do trabalho sob o olhar de um robô
Se a automação promete eficiência e economia, também acende alertas sobre o futuro do emprego. Especialistas apontam que o modelo da Amazon pode se tornar o “canário na mina” da automação global — um prenúncio de como a inteligência artificial e a robótica poderão redefinir o trabalho humano.
Por enquanto, o experimento avança: robôs ganham espaço, trabalhadores são realocados e a Amazon se aproxima de seu ideal de operação perfeita — silenciosa, precisa e quase inteiramente sem pessoas.
[ Fonte: Xataka ]