Pular para o conteúdo
Tecnologia

Amazon corta 14 mil empregos — e reacende o debate sobre o impacto da IA

A Amazon anunciou uma nova rodada de demissões que pode eliminar cerca de 14 mil cargos. A empresa diz que quer “enxugar” sua operação para aproveitar o avanço da inteligência artificial, mas especialistas alertam: a IA não é o único fator por trás dessa onda de cortes.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

As demissões em massa voltaram a assombrar o Vale do Silício. Depois de Google, Meta e Salesforce, foi a vez da Amazon anunciar um corte gigantesco de 14 mil empregos — e colocar a inteligência artificial (IA) no centro do debate. Mas será que os robôs estão mesmo “roubando” nossos empregos?

A nova onda de demissões e o papel da IA

Na última terça-feira (28), a Amazon confirmou a redução de aproximadamente 14 mil cargos em sua força de trabalho global. Segundo a empresa, o movimento faz parte de um esforço para se tornar mais “enxuta e eficiente” diante das novas oportunidades criadas pela inteligência artificial.

A companhia não está sozinha. Gigantes como Salesforce, Chegg e UPS também citaram a IA como um dos motivos para demissões recentes. A Salesforce, por exemplo, substituiu parte de seus atendentes humanos por agentes automatizados; já a Chegg, plataforma de educação online, reduziu quase metade de sua equipe alegando “novas realidades tecnológicas”.

No entanto, economistas pedem cautela. Para Martha Gimbel, diretora do Budget Lab da Universidade de Yale, “é um erro supor que toda demissão ligada a empresas de tecnologia é causada pela IA”. Em muitos casos, segundo ela, o que ocorre é apenas um ajuste cíclico após anos de contratações em ritmo acelerado.

Contratar demais também cobra seu preço

Entre 2020 e 2022, em plena pandemia, o setor de tecnologia viveu um boom de contratações. Com juros baixos e o aumento do consumo online, empresas como Amazon e Meta dobraram suas equipes. Agora, com a desaceleração econômica e o aumento das taxas de juros pelo Federal Reserve (Fed), veio a fase de ajuste.

A própria Gimbel explica:

“Nada do que vimos até agora foge dos padrões normais de contratação e demissão em um ciclo econômico. A diferença é que agora a expressão ‘inteligência artificial’ aparece no meio disso tudo.”

A leitura faz sentido. A inteligência artificial generativa, popularizada por ferramentas como o ChatGPT, surgiu no fim de 2022 — justamente quando o Fed começou a subir os juros e as empresas passaram a conter gastos. Ou seja, a IA pode ter acelerado mudanças, mas não é necessariamente a causa principal dos cortes.

Estudos apontam impactos limitados (por enquanto)

Pesquisas recentes também mostram que a IA ainda não provocou um colapso generalizado no mercado de trabalho. Um estudo do Federal Reserve de Saint Louis encontrou correlação entre profissões com alto uso de IA e aumento do desemprego desde 2022, mas sem dados suficientes para comprovar uma relação direta.

Já o pesquisador Morgan Frank, da Universidade de Pittsburgh, analisou o efeito do lançamento do ChatGPT e descobriu impacto significativo apenas em funções administrativas e de escritório, que registraram aumento nos pedidos de seguro-desemprego no início de 2023.

Para áreas de tecnologia e matemática, ele afirma, “não há nenhuma mudança perceptível”. Segundo Frank, “o mercado de trabalho está mais apertado, mas seria precipitado culpar exclusivamente a IA”.

Amazon na linha de frente da automação

A Amazon tem motivos para ser mais agressiva nesse processo. Além de ser uma das maiores empregadoras do mundo, é também uma das empresas que mais investem em inteligência artificial — tanto como produtora quanto como usuária da tecnologia.

O professor Enrico Moretti, da Universidade da Califórnia em Berkeley, afirma que isso explica a posição da empresa:

“A Amazon está na linha de frente porque é, ao mesmo tempo, desenvolvedora e consumidora de IA. É natural que automatize funções mais rapidamente.”

Os resultados financeiros mostram que o negócio segue forte: as vendas cresceram 13% no último trimestre, atingindo US$ 167,7 bilhões (R$ 902,8 bilhões). Ainda assim, a empresa diz querer “reorganizar estruturas” para manter a competitividade em longo prazo.

Lawrence Schmidt, do MIT, concorda:

“Não é absurdo pensar que a Amazon elimine cargos ou simplesmente deixe de contratar para funções que podem ser automatizadas. Isso é parte de um processo de realocação, não necessariamente de destruição de empregos.”

Um futuro de ajustes, não de colapso

Apesar do tom alarmista de alguns anúncios, economistas reforçam que estamos vendo ajustes estruturais, e não uma substituição em massa de humanos por IA. Parte das funções deve, sim, mudar de perfil — exigindo mais habilidades técnicas, pensamento crítico e capacidade de adaptação.

Para Gimbel, a grande questão não é quantos empregos serão perdidos, mas como serão criados os novos:

“O que precisamos observar é o que acontece quando a economia retomar o crescimento. Se as empresas recontratarem com foco em funções ligadas à IA, aí sim poderemos medir o impacto real.”

As demissões da Amazon mostram que o avanço da inteligência artificial está moldando o mercado de trabalho, mas o futuro ainda não é distópico. O que estamos vendo é uma transição — uma tentativa das empresas de entender onde o humano ainda é insubstituível. A resposta, ao que tudo indica, ainda está sendo escrita.

[Fonte: Correio Braziliense]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados