Durante mais de uma década, a Amazon acreditou que poderia dominar o universo dos videogames. Com o poder da nuvem, o peso do Prime e o alcance da Twitch, Jeff Bezos parecia ter todas as peças do quebra-cabeça. Mas o que nasceu para desafiar a Valve e a Steam acabou virando um dos maiores desperdícios de dinheiro e talento da história da tecnologia.
Uma guerra perdida antes de começar
O ex-vice-presidente do Prime Gaming, Ethan Evans, revelou recentemente aquilo que muitos dentro da empresa já sabiam: a Amazon queria derrotar a Steam sem entender por que ela funciona.
Segundo Evans, a companhia gastou mais de 250 vezes o orçamento que a Valve usou para criar a Steam, acreditando que infraestrutura e capital bastariam para conquistar o público gamer. O erro foi não perceber que o sucesso da Valve nasceu da confiança e da comunidade, não do tamanho.
Enquanto a Steam se manteve fiel ao essencial — vender jogos e ouvir os jogadores —, a Amazon mergulhou em burocracia, fusões e projetos paralelos, perdendo o foco.
O fracasso de Prime Gaming e o sonho perdido
O Prime Gaming deveria ser o grande trunfo: uma assinatura que integraria benefícios de jogos com o Prime Video e a Twitch. Mas o projeto nunca encontrou sua identidade.
“Não sabíamos para quem estávamos trabalhando — para a Amazon, para os estúdios ou para os jogadores”, admitiu Evans. Mesmo com jogos gratuitos e parcerias exclusivas, o serviço nunca engajou o público.
Ao mesmo tempo, a plataforma de cloud gaming Luna tentava competir com o Xbox Cloud Gaming e o GeForce Now, mas ficou presa em um catálogo limitado e quase nenhum apelo popular.

‘New World’: a última esperança que desmoronou
O MMO New World foi lançado em 2021 como o projeto que salvaria a divisão. O início foi promissor, mas o entusiasmo durou pouco. Problemas técnicos, falta de conteúdo e decisões confusas levaram o jogo à queda.
A Amazon anunciou que encerrará seus servidores em 2026, após uma última atualização gratuita. O fechamento ocorre junto com uma reestruturação massiva, que inclui 14 mil demissões e o fim de outros projetos, como o MMO de O Senhor dos Anéis.
Quando o dinheiro não compra comunidade
O colapso da Amazon Games reflete uma crise mais ampla na empresa: cortes em todas as áreas, da AWS ao Audible. A aposta agora é redirecionar recursos para a inteligência artificial — abandonando o sonho de ser uma potência no entretenimento interativo.
Mas, como resume Evans, “o sucesso nos jogos não depende do tamanho do servidor, e sim da empatia”. A Valve nasceu dos jogadores; a Amazon tentou comprá-los.
O resultado? Um império que queria ser a Steam e acabou aprendendo, da forma mais cara possível, que os jogos não se impõem — se compartilham.