A corrida das big techs para alimentar a inteligência artificial está levantando uma questão urgente: o custo ambiental dos data centers. Segundo o Bank of America, o investimento em novas instalações nos EUA atingiu US$ 40 bilhões, o maior da história. Mas, junto com essa expansão, cresce a preocupação com o uso de substâncias tóxicas persistentes, conhecidas como PFAS, que podem estar se acumulando silenciosamente no solo, na água e até no corpo humano.
Os “químicos eternos” por trás da IA
Os PFAS (substâncias per e polifluoroalquiladas) são compostos químicos sintéticos usados desde os anos 1940 em revestimentos industriais, cabos e sistemas de resfriamento — exatamente os tipos de materiais usados em centros de dados. Eles são resistentes ao calor, à água e à degradação, o que os torna praticamente indestrutíveis no ambiente.
O problema: esses compostos não se decompõem naturalmente e já foram encontrados em rios, solos, alimentos, ar e até no sangue humano, segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). Estudos associam a exposição prolongada a PFAS a câncer, infertilidade, baixo peso em recém-nascidos e colesterol elevado.
“Sabemos que há PFAS nesses centros, e tudo isso precisa ir para algum lugar”, alertou Jonathan Kalmuss-Katz, advogado da organização Earthjustice, ao The Guardian. “Essa questão tem sido perigosamente negligenciada.”
O elo entre data centers e poluição invisível
Os data centers são o coração da revolução da IA — mas também consomem volumes colossais de energia e água para manter seus servidores refrigerados. É justamente nos sistemas de resfriamento que os PFAS entram em cena.
Essas substâncias são usadas em refrigerantes, isolantes e revestimentos de cabos, e embora se saiba que estão presentes em grandes quantidades, quase não há testes oficiais para medir sua liberação no ar ou na água. A EPA tampouco exige que as empresas relatem o uso ou o descarte desses produtos químicos.
Na prática, isso significa que toneladas de PFAS podem estar sendo descartadas sem controle ambiental, acumulando-se nos ecossistemas próximos a fábricas e centros de processamento de dados.
A polêmica decisão da EPA
A preocupação aumentou em setembro, quando a EPA anunciou que aceleraria a análise de novos compostos usados em projetos de data centers — uma medida que muitos viram como um sinal verde à indústria.
“O governo quer sair do caminho e acelerar o progresso”, afirmou o chefe da agência, Lee Zeldin, ao Inside Climate News. A declaração gerou reação imediata entre ambientalistas, que consideraram o discurso “amplamente permissivo”.
Para Maria Doa, diretora de políticas químicas do Environmental Defense Fund, a fala é “chocante”: “A EPA não disse que fará uma análise criteriosa e rápida; disse apenas que vai ‘sair do caminho’. Isso é preocupante.”
A própria EPA defendeu-se, afirmando que a priorização de revisões não significa afrouxar a fiscalização, mas sim acelerar a triagem de produtos considerados estratégicos para a infraestrutura digital.
Comunidades em risco
Organizações ambientais alertam que as consequências podem recair sobre moradores de áreas próximas aos centros de dados ou fábricas que produzem seus componentes. “Estamos adicionando novas fontes de contaminação antes mesmo de entender o impacto total dos PFAS que já existem”, disse Tim Minotas, do Sierra Club Michigan.
Com a proliferação de data centers em estados como Virgínia, Texas e Ohio, cresce o temor de que os lençóis freáticos e reservatórios locais se tornem depósitos invisíveis desses “químicos eternos”.
O preço oculto da era da IA
Enquanto a inteligência artificial promete revolucionar a economia e a produtividade, o impacto ecológico de sua infraestrutura continua pouco estudado. Cada modelo treinado requer gigawatts de energia, milhões de litros de água e toneladas de materiais de alta tecnologia, muitos deles tóxicos.
“Estamos construindo o futuro digital com base em substâncias que não conseguimos eliminar”, resume Kalmuss-Katz.
A promessa de uma IA “limpa” e sustentável dependerá, portanto, de um passo essencial: enfrentar o legado químico que está se acumulando nos bastidores da revolução algorítmica.