O debate global sobre a inteligência artificial se intensificou em 2025, com decisões políticas e econômicas que moldam o futuro da tecnologia. Nesse contexto, a América Latina parece estar diante de um impasse: adaptar-se aos modelos impostos pelas grandes potências ou tentar construir sua própria visão de desenvolvimento. Apesar dos desafios, cresce o interesse por regulações, estratégias sustentáveis e uma atuação mais autônoma na era da IA.
Um mundo polarizado pela tecnologia

O início de 2025 foi marcado por eventos que aprofundaram a divisão geopolítica em torno da IA. Nos Estados Unidos, Donald Trump assumiu um novo mandato revogando regulações anteriores e nomeando Elon Musk para liderar um departamento de “eficiência governamental” que promete reduzir burocracias — ainda que críticos apontem riscos à democracia. Em Paris, a cúpula promovida por Emmanuel Macron decepcionou os países do Sul Global ao priorizar investimentos europeus em IA, sem incluir vozes periféricas no debate.
A visão latino-americana
Apesar da marginalização internacional, dados revelam que a América Latina tem consciência dos riscos e potenciais da inteligência artificial. Uma pesquisa da Luminate e Ipsos, realizada em 2024 na Argentina, Brasil, Colômbia e México, mostra que 55% da população apoia regulações específicas para a IA. Entre os que conhecem melhor a tecnologia, esse número chega a 65%. A maioria também rejeita seu uso em decisões judiciais, elaboração de leis ou concessão de benefícios sociais.
O caso do Brasil e os desafios da regulação
O Brasil deu um passo relevante ao aprovar no Senado um projeto de lei inspirado na legislação europeia, que classifica os riscos da IA e propõe proibições a usos que ameacem direitos humanos. A tramitação, iniciada em 2022, envolveu forte presença do setor privado — 31% das audiências públicas foram ocupadas por empresas, que muitas vezes se apresentaram como representantes de outros setores. A influência corporativa levanta preocupações sobre a autonomia regulatória frente aos interesses econômicos.
Avanços e desigualdades
Segundo o Índice Latino-Americano de Inteligência Artificial (ILIA), produzido pela Cepal, Chile, Brasil e Uruguai lideram na adoção e desenvolvimento de IA, seguidos por Argentina, Colômbia e México. Ainda assim, persistem desafios como a baixa participação feminina em pesquisa tecnológica e a fuga de talentos para países do Norte. Também há carência de infraestrutura e investimentos em inovação local, o que limita a capacidade de formular modelos próprios.
Sustentabilidade e soberania energética
O relatório do ILIA de 2024 inclui pela primeira vez o impacto ambiental da IA, especialmente o alto consumo energético. A recomendação é aproveitar o potencial latino-americano em energias limpas para desenvolver uma indústria regional de armazenamento e computação. No entanto, falta um debate profundo sobre como equilibrar o uso de recursos naturais com as necessidades sociais e econômicas dos países, sem repetir lógicas extrativistas.
Entre identidade e dependência
Para especialistas, a América Latina corre o risco de se tornar mera fornecedora de recursos e mão de obra para o mercado global de IA. A pesquisadora Paz Peña alerta que, sem infraestrutura própria e com economias ainda marcadas por lógicas coloniais, pensar em um modelo autônomo de desenvolvimento tecnológico é quase inviável. A alternativa mais viável seria o fornecimento de serviços intermediários, como montagem de chips, mas isso não garante soberania.
Uso estatal e riscos sociais
Segundo a organização Derechos Digitales, os governos da região têm adotado a IA em áreas sensíveis como saúde, justiça, educação e segurança pública, muitas vezes sem garantias de proteção de dados, igualdade ou transparência. A diretora Paloma Lara Castro destaca que essa implementação acelerada, baseada em promessas de eficiência, precisa ser acompanhada de regulação, supervisão independente e participação cidadã para evitar novos instrumentos de controle social.
Democracia, transparência e futuro
A inteligência artificial representa uma disputa global que ultrapassa o campo da tecnologia. Para Paz Peña, trata-se de um embate sobre modelos de democracia, justiça social e soberania frente às grandes corporações. Sem maior transparência sobre os mecanismos de lobby e mais força institucional para proteger direitos, a América Latina pode transformar uma promessa de desenvolvimento em mais uma ferramenta de exploração e desigualdade.
Se a América Latina quiser um futuro tecnológico alinhado aos seus valores e prioridades, será preciso mais do que adaptação: será necessário ousar construir caminhos próprios, mesmo diante de estruturas globais que operam para manter o status quo.
[ Fonte: El País ]