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América Latina surpreende com o avanço dos investimentos estrangeiros — mas só dois países concentram os ganhos

A região registrou crescimento de 16,6% no investimento estrangeiro direto, mas o fenômeno está longe de ser uniforme. Enquanto Costa Rica e Guatemala atraem cifras recordes, outros países enfrentam desconfiança, estratégias opacas e riscos elevados. O mapa revela vencedores claros e mercados ainda marcados pela incerteza.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A América Latina vive um cenário contraditório no campo dos investimentos estrangeiros. Apesar do crescimento registrado nos últimos dois anos, a maior parte dos recursos não vem de novos atores, mas sim da reinversão de lucros de empresas já instaladas na região. Isso mostra que, embora exista confiança relativa em alguns mercados, a entrada de capital fresco ainda é limitada.

Um crescimento que esconde outra realidade

O aumento de 16,6% na IED entre 2024 e o primeiro semestre de 2025 não reflete um boom de novas aplicações. Relatórios do Banco Mundial e da CEPAL apontam que a expansão ocorreu principalmente pela decisão de multinacionais de reinvestir parte de seus lucros. Novos aportes seguem escassos, indicando cautela diante das incertezas políticas e jurídicas de vários países.

Na prática, há mais dinheiro circulando, mas sem grande diversificação.

O enigma das “inversões de trânsito” na Nicarágua

A Nicarágua aparece como o terceiro país da região em volume de IED, mas os números se apoiam em um mecanismo peculiar: as chamadas “inversões de trânsito”. Esses fluxos são registrados segundo a residência legal dos acionistas, não a sua nacionalidade.

Assim, capitais que passam formalmente por Panamá ou Barbados podem ter origem em países diferentes, distorcendo estatísticas e criando uma imagem de crescimento que muitas vezes não corresponde à realidade.

Costa Rica e Guatemala: os grandes ganhadores

A Costa Rica liderou a região em 2024 com US$ 4,3 bilhões, puxada pela indústria manufatureira (67,4% do total) e pelo regime de Zonas Francas, responsável por quase dois terços da IED. O país também conseguiu expandir essas zonas para fora da capital, descentralizando benefícios.

A Guatemala, por sua vez, cresceu 5,1%, chegando a US$ 1,69 bilhão, com destaque para serviços financeiros, seguros e manufatura. Em ambos os casos, a estabilidade institucional aparece como principal atrativo para os investidores.

Honduras: otimismo oficial, desconfiança internacional

As estatísticas de Honduras são contraditórias. A CEPAL registrou US$ 1,3 bilhão em 2024, enquanto o Banco Central contabilizou apenas US$ 993 milhões, uma queda de 7,7% em relação a 2023.

Apesar do discurso oficial de abertura, relatórios dos Estados Unidos citam insegurança jurídica e desconfiança em relação às ZEDEs (zonas especiais de desenvolvimento). Ainda assim, o país atraiu investimentos europeus no setor cafeeiro em 2025, indicando algum fôlego.

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© Unsplash – Bernd Dittrich

El Salvador: aposta na segurança

O El Salvador busca atrair capital com base na melhora da segurança pública sob o governo Bukele. Em 2024, a IED caiu 10,9%, para US$ 639 milhões, mas a segunda metade do ano registrou recuperação.

Mesmo assim, investidores ainda questionam a sustentabilidade dos avanços, diante do enfraquecimento do Estado de direito.

EUA seguem à frente, Europa perde espaço

Os Estados Unidos continuam liderando como principal investidor na América Central, com 38% do total em 2024. Já a União Europeia reduziu sua participação para 15%, o menor nível em mais de uma década. Em contrapartida, os fluxos intrarregionais cresceram, alcançando 12%.

No caso da Nicarágua, embora o governo afirme que a China é seu grande parceiro, a realidade mostra desequilíbrios: as importações de produtos chineses dispararam, mas as exportações permanecem mínimas, e os megaprojetos prometidos ainda não saíram do papel.

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