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Ciência

As mensagens enterradas com os mortos que revelam um lado oculto do Império Romano

Escavações sob um antigo hospital revelaram objetos inquietantes escondidos há dois milênios. As inscrições falam de vingança, deuses e uma língua quase perdida — e levantam mais perguntas do que respostas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Escavar um cemitério antigo é sempre lidar com silêncio, rituais e pistas fragmentadas do passado. Mas, em alguns casos, o que surge do solo não é apenas memória — é intenção. Em uma necrópole romana descoberta no subsolo de uma cidade francesa, arqueólogos encontraram objetos que revelam como pessoas comuns tentavam interferir no destino alheio. O conteúdo dessas mensagens atravessou séculos enterrado junto aos mortos.

Uma necrópole incomum sob a cidade moderna

As mensagens enterradas com os mortos que revelam um lado oculto do Império Romano
© https://x.com/HistoireOdyssee/

A descoberta aconteceu durante escavações realizadas abaixo de um hospital do século 18, na cidade de Orléans, a cerca de 120 quilômetros de Paris. Sob as fundações do edifício, arqueólogos identificaram uma necrópole romana ativa entre os séculos 1 e 3 da nossa era. Ao todo, mais de 60 túmulos foram encontrados, muitos deles em condições surpreendentemente preservadas.

O local chamou atenção não apenas pela quantidade de sepultamentos, mas por uma série de características incomuns. Todos os enterrados eram homens, não havia sinais de cremação — prática comum no período — e alguns caixões de madeira apresentavam vestígios de tinta. A disposição dos túmulos também foge do padrão conhecido.

Esses detalhes levaram os pesquisadores a levantar hipóteses intrigantes. Uma delas sugere que os indivíduos enterrados ali pertenciam a um mesmo grupo social ou profissional, embora ainda não exista evidência conclusiva sobre quem eram ou o que os unia em vida.

O que são as tábuas de maldição — e por que elas importam

As mensagens enterradas com os mortos que revelam um lado oculto do Império Romano
© https://x.com/HistoireOdyssee/

Entre ossos, caixões e objetos funerários, os arqueólogos encontraram algo ainda mais surpreendente: 21 tábuas de maldição. Pequenas placas metálicas, geralmente de chumbo, eram usadas no mundo romano como uma forma de comunicação direta com os deuses.

Nelas, pessoas escreviam pedidos, reclamações ou acusações, muitas vezes pedindo punições a quem consideravam responsáveis por injustiças. Depois de escritas, as tábuas eram dobradas ou enroladas e enterradas em locais simbólicos, como túmulos, poços ou áreas sagradas, para que as divindades “recebessem” a mensagem.

A presença dessas tábuas indica que a necrópole não era apenas um local de sepultamento, mas também um espaço ritual, onde vivos buscavam influenciar o sobrenatural por meio dos mortos.

Inscrições em latim — e um raro exemplo de língua esquecida

A maioria das tábuas encontradas traz inscrições em latim, o idioma oficial do Império Romano. No entanto, uma delas se destacou imediatamente. Localizada próxima às pernas de um homem enterrado no túmulo identificado como F2199, a placa foi encontrada ao lado de um vaso quebrado e moedas.

Essa tábua continha texto não apenas em latim, mas também em gaulês — uma língua celta extinta, falada na região antes e mesmo depois da conquista romana. Escritos em gaulês são raríssimos, o que torna o achado excepcional do ponto de vista linguístico.

Após a retirada do solo, o artefato passou por um tratamento químico para conter a corrosão. Em seguida, os pesquisadores utilizaram uma técnica avançada de imagem chamada RTI, que permite visualizar detalhes invisíveis a olho nu. O método revelou com clareza a escrita cursiva e confirmou a presença da língua celta.

Uma maldição dedicada ao deus da guerra

A análise linguística mostrou que a tábua do túmulo F2199 era dedicada a Marte, o deus romano da guerra. O autor listou nomes de pessoas — escritos tanto em latim quanto em gaulês — que deveriam ser punidas por atos considerados injustos.

O conteúdo não especifica quais teriam sido esses atos, mas o tom deixa claro o desejo de retaliação. O uso do gaulês chama ainda mais atenção porque, mesmo séculos após a romanização da região, essa língua raramente aparecia em registros escritos. O artefato se torna, assim, uma janela rara para práticas culturais híbridas, onde tradições locais e religião romana se misturam.

Outra tábua encontrada no local passou por tomografia de raio-X. O objetivo foi analisar seu interior sem precisar desenrolá-la fisicamente, o que poderia danificá-la. O escaneamento foi realizado, mas a leitura completa do texto ainda depende de análises adicionais.

O que essas tábuas revelam sobre o mundo romano

As tábuas de maldição mostram um lado menos oficial do Império Romano. Longe de leis, tribunais e discursos públicos, elas revelam frustrações pessoais, conflitos cotidianos e a crença de que os deuses poderiam intervir diretamente na vida humana.

Também evidenciam como línguas, crenças e práticas locais continuaram vivas mesmo sob domínio romano. A escolha de escrever em gaulês não parece acidental: pode indicar identidade cultural, tradição familiar ou até a crença de que os deuses responderiam melhor naquela língua.

Embora as escavações em Orléans estejam programadas para terminar no fim de janeiro, o trabalho está longe de acabar. As tábuas, ossos e objetos encontrados seguirão sendo analisados em laboratório, e novas interpretações podem surgir a partir desses fragmentos silenciosos — mas carregados de intenção.

[Fonte: Revista Galileu]

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