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Ciência

Astrônomos detectam explosão de raios gama a 8,5 bilhões de anos-luz e descobrem que colisões de galáxias podem estar por trás da criação de ouro e outros elementos pesados

Um poderoso clarão cósmico detectado a bilhões de anos-luz revelou pistas sobre a origem de elementos como ouro e platina no universo. A explosão, causada pela fusão de duas estrelas de nêutrons, sugere que colisões entre galáxias podem desencadear processos capazes de enriquecer o cosmos com novos elementos químicos.
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Tempo de leitura: 4 minutos

O universo é um cenário de eventos extremamente violentos — e, paradoxalmente, criadores. Uma dessas manifestações foi observada recentemente por astrônomos: uma explosão de raios gama tão intensa que, por alguns instantes, superou o brilho de galáxias inteiras. O fenômeno, detectado a cerca de 8,5 bilhões de anos-luz da Terra, não apenas chamou a atenção pela energia liberada, mas também revelou novas pistas sobre como elementos pesados surgem e se espalham pelo cosmos.

Um clarão cósmico detectado a bilhões de anos-luz

Galaxia Osa Mayor
© X -@alex_riveiro

O evento foi classificado como GRB 230906A e detectado inicialmente em setembro de 2023 pelo satélite Fermi, da NASA. Ele pertence à categoria das chamadas explosões curtas de raios gama — eventos extremamente energéticos que geralmente duram menos de dois segundos, mas liberam quantidades gigantescas de energia.

Para localizar com precisão a origem da explosão, os cientistas recorreram a observações do Observatório de Raios X Chandra e do Telescópio Espacial Hubble. Os dados indicaram que o fenômeno ocorreu na periferia de uma galáxia fraca que faz parte de um grupo galáctico atualmente em processo de fusão.

Curiosamente, o evento aconteceu em uma espécie de “lixeira cósmica”: um longo filamento de gás e estrelas conhecido como cauda de maré. Essas estruturas surgem quando a gravidade de duas galáxias em interação arranca matéria e a lança para o espaço durante o processo de colisão.

Quando estrelas de nêutrons colidem

O estudo foi liderado por pesquisadores da Universidade Estadual da Pensilvânia e publicado na revista científica The Astrophysical Journal Letters.

Segundo o astrônomo Simone Dichiara, autor principal da pesquisa, o evento provavelmente foi causado pela fusão de duas estrelas de nêutrons — objetos extremamente densos que restam após a explosão de estrelas massivas.

Essas estrelas podem nascer durante períodos intensos de formação estelar, frequentemente desencadeados por interações entre galáxias. Com o passar do tempo, dois desses remanescentes podem acabar presos em uma órbita comum. Gradualmente, eles se aproximam em uma espiral até colidir.

Quando isso acontece, o resultado é uma explosão colossal que emite raios gama e produz um fenômeno conhecido como kilonova — um halo luminoso associado à criação de elementos pesados.

A origem de elementos como ouro e platina

Um dos aspectos mais fascinantes dessas colisões é que elas funcionam como verdadeiras fábricas de elementos químicos.

Durante a fusão das estrelas de nêutrons, condições extremas de densidade e energia permitem a formação de elementos pesados através de processos nucleares complexos. Entre os materiais gerados estão ouro, platina e outros elementos raros.

Segundo os pesquisadores, eventos como o GRB 230906A podem ajudar a explicar por que regiões externas de galáxias em interação apresentam uma maior abundância desses elementos.

Cada explosão desse tipo espalha grandes quantidades de matéria enriquecida no espaço interestelar, contribuindo para a diversidade química do universo.

A conexão com a história da Terra

Embora o fenômeno observado esteja a bilhões de anos-luz de distância, ele tem implicações diretas para compreender a própria história do nosso planeta.

Jane Charlton, professora de astronomia da Universidade Estadual da Pensilvânia e coautora do estudo, destaca que muitos dos elementos presentes na Terra tiveram origem em eventos cósmicos semelhantes.

Segundo ela, o ouro encontrado em nosso planeta provavelmente foi produzido em explosões desse tipo, muito antes da formação do Sistema Solar.

O mesmo vale para o ferro presente em nossos corpos. Esse elemento foi criado no interior de estrelas massivas que explodiram bilhões de anos atrás. Ao longo de eras cósmicas, esse material foi reciclado no espaço até integrar a composição da Terra e, eventualmente, da vida.

O que essas descobertas revelam sobre o futuro do cosmos

Galaxia Estrelas
© NASA, ESA; Acknowledgements: Ming Sun (UAH), and Serge Meunier.

Os pesquisadores ressaltam que ainda há incertezas sobre a distância exata do evento observado. Embora estimativas atuais indiquem cerca de 8,5 bilhões de anos-luz, ele pode estar ainda mais distante, o que o tornaria um dos estalos de raios gama mais longínquos já registrados.

Novas observações com telescópios de próxima geração deverão ajudar a esclarecer melhor sua origem.

Além disso, o estudo reforça a importância das colisões entre galáxias na evolução do universo. Embora essas fusões sejam relativamente raras, elas provocam mudanças profundas na estrutura e na composição química das galáxias envolvidas.

Curiosamente, algo semelhante está previsto para ocorrer em nosso próprio bairro cósmico: a Via Láctea e a galáxia de Andrômeda devem colidir dentro de cerca de 4 a 5 bilhões de anos.

Quando isso acontecer, enormes caudas de maré poderão lançar matéria rica em elementos pesados pelo espaço — repetindo, em escala gigantesca, processos semelhantes aos que agora observamos em galáxias distantes.

No fim das contas, eventos violentos como o GRB 230906A mostram que a destruição no cosmos muitas vezes é também um processo de criação — responsável por produzir os elementos que, bilhões de anos depois, acabam formando planetas, paisagens e até a própria vida.

 

[ Fonte: Infobae ]

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