Colisões planetárias fazem parte da história do Universo. Cientistas acreditam que impactos gigantescos moldaram inúmeros sistemas solares, incluindo o nosso. A própria formação da Lua está associada à hipótese de um enorme choque entre a Terra primitiva e um corpo do tamanho de Marte bilhões de anos atrás.
Mas existe uma enorme diferença entre reconstruir um impacto antigo e possivelmente observar um acontecendo em outro sistema estelar. É exatamente isso que astrônomos acreditam ter encontrado ao estudar a estrela ASASSN-21qj, um sistema jovem semelhante ao Sol localizado fora do Sistema Solar.
Segundo um estudo publicado na revista científica Nature, os pesquisadores identificaram sinais compatíveis com a colisão entre dois exoplanetas gigantes gelados, com massas variando de algumas até dezenas de vezes a massa da Terra.
Tudo começou com um brilho estranho

O caso chamou atenção após a estrela apresentar um comportamento extremamente incomum. Primeiro, ela ficou muito mais brilhante na faixa do infravermelho. Depois de um tempo, começou a escurecer gradualmente na luz visível durante centenas de dias.
Essa combinação intrigou os astrônomos porque não se encaixava nos fenômenos normalmente observados em estrelas jovens. Uma simples mancha estelar ou uma nuvem comum de poeira não seriam suficientes para explicar as mudanças registradas.
Os pesquisadores descobriram que o brilho infravermelho persistiu por cerca de mil dias. A radiação observada era compatível com material aquecido a aproximadamente 1.000 kelvin — algo em torno de 727 graus Celsius.
A hipótese mais forte sugere que o calor foi gerado por uma colisão gigantesca entre dois planetas.
O possível choque entre mundos gigantes
Segundo os modelos desenvolvidos pelos cientistas, o impacto teria liberado enormes quantidades de energia, formando uma gigantesca nuvem de gás, poeira e fragmentos rochosos.
Com o passar do tempo, esses destroços teriam se espalhado ao longo da órbita da estrela. Em determinado momento, a nuvem passou diante da ASASSN-21qj a partir da nossa linha de visão, provocando o escurecimento observado pelos telescópios.
A interpretação impressionou até os próprios pesquisadores. O sistema foi acompanhado tanto por astrônomos profissionais quanto por observadores amadores.
Matthew Kenworthy, pesquisador do Observatório de Leiden, na Holanda, afirmou que o fenômeno pegou a equipe de surpresa depois que outro astrônomo percebeu que a estrela havia aumentado seu brilho no infravermelho antes de começar a escurecer na luz visível.
Os cientistas ainda mantêm cautela
Apesar da empolgação, os pesquisadores deixam claro que ninguém viu dois planetas se chocando diretamente como em uma animação de ficção científica.
O que os telescópios registraram foram evidências indiretas: excesso de emissão infravermelha, mudanças incomuns de brilho e uma nuvem de poeira compatível com o cenário de um impacto planetário.
Mesmo assim, o conjunto de sinais torna essa hipótese extremamente relevante. Se confirmada, seria uma das primeiras vezes que cientistas observariam as consequências imediatas de uma colisão entre exoplanetas em outro sistema solar.
Uma chance rara de estudar o interior de planetas distantes

O possível impacto também pode abrir uma oportunidade científica valiosa.
Normalmente, os interiores de planetas gigantes ficam escondidos sob densas camadas externas de gás e gelo. Uma colisão dessa magnitude pode lançar material profundo para o espaço, permitindo que astrônomos estudem elementos que normalmente seriam invisíveis.
Além disso, eventos desse tipo ajudam pesquisadores a compreender melhor como sistemas planetários evoluem ao longo do tempo. Muitos modelos indicam que colisões violentas são comuns nas fases iniciais de formação de planetas.
Observar um processo semelhante acontecendo em outra estrela oferece uma rara oportunidade de comparar teoria e observação real.
Um fenômeno raro que ainda guarda mistérios
O caso de ASASSN-21qj ainda está longe de ser encerrado. Novas observações serão necessárias para confirmar se a interpretação está correta ou se outro fenômeno desconhecido pode explicar os dados.
Mesmo assim, o episódio já chama atenção por abrir uma possibilidade extraordinária: a de testemunhar, praticamente em tempo real, as consequências de um choque colossal entre mundos distantes.
E se os cientistas estiverem certos, talvez tenhamos acabado de observar um dos eventos mais violentos e raros já detectados em outro sistema planetário.
[ Fonte: Clarín ]