Em 2024, mais de 34 mil pessoas foram atacadas por abelhas no Brasil, com 117 mortes registradas — um aumento de 82% nos casos em apenas quatro anos. Enquanto isso, não existe antídoto disponível contra o veneno, mas cientistas da Unesp, do Butantan e do Vital Brazil avançam no desenvolvimento de um soro inédito.
As abelhas africanizadas, conhecidas por sua importância na polinização e na produção de mel, também se tornaram protagonistas de um problema de saúde pública. Em grupo, podem transformar ferroadas em ataques fatais. Os dados mais recentes do Ministério da Saúde revelam um salto preocupante: em 2024 foram 34.260 registros de acidentes, 117 deles fatais.
Do mel ao veneno

Segundo o médico-veterinário Rui Seabra Ferreira Júnior, da Unesp, a expansão da apicultura e as mudanças climáticas favoreceram a presença de abelhas em áreas antes pouco povoadas. Isso, combinado ao comportamento defensivo da espécie, explica o crescimento dos ataques.
Hoje, as abelhas ocupam o terceiro lugar no ranking de envenenamentos por animais, atrás apenas de escorpiões e aranhas. Desde 2023, superaram até os acidentes com serpentes.
O desafio da ausência de antídoto
Enquanto picadas de cobras, aranhas e escorpiões contam com soros específicos, o veneno das abelhas ainda não tem tratamento dedicado. O atendimento hospitalar é apenas de suporte: anti-histamínicos, corticoides e, em casos graves, adrenalina.
Tentativas anteriores de desenvolver um antídoto fracassaram porque o veneno causa dor intensa nos animais usados para a produção de anticorpos, como cavalos. A resposta imunológica ficava comprometida.
Avanço da ciência brasileira
Esse cenário começou a mudar recentemente. Ferreira Júnior e sua equipe, em parceria com o Instituto Butantan e o Vital Brazil, conseguiram separar os componentes tóxicos do veneno dos elementos que causam dor. Sem sofrimento, os cavalos produziram anticorpos em quantidade suficiente para gerar um antiveneno experimental, chamado antiveneno apílico.
Um ensaio clínico de fase 2, publicado em 2021, mostrou resultados promissores: entre 20 pacientes atacados por enxames, todos apresentaram melhora clínica significativa em até 30 dias, inclusive os atingidos por mais de 500 picadas. Apenas dois tiveram efeitos colaterais leves.
Agora, o projeto aguarda aprovação para a fase 3 de testes, etapa essencial para registro na Anvisa e futura distribuição pelo SUS. Se der certo, o Brasil será pioneiro mundial em um soro contra veneno de abelhas.
Quando procurar ajuda médica
O risco maior ocorre em dois cenários: pessoas alérgicas e vítimas de múltiplas picadas (geralmente mais de 50). Nos casos leves, a reação costuma se limitar a vermelhidão e dor local. Já quadros graves podem causar anafilaxia, falta de ar, inchaço em mucosas e queda de pressão arterial — situações que exigem atendimento imediato.
O médico Gustavo Fernandes Moreira, do Hospital de Urgências de Goiás, alerta: “É fundamental acionar o SAMU pelo 192 em casos de múltiplas picadas ou sinais de reação alérgica. O tempo é determinante para salvar vidas.”
Como se proteger
Enquanto o soro não chega, a prevenção é a melhor defesa:
- Evite áreas com colmeias.
- Se surpreendido por um enxame, corra em zigue-zague e procure abrigo fechado.
- Não use inseticidas ou faça barulho perto de colmeias.
- Caso aviste abelhas formando ninho em área urbana, chame bombeiros ou equipes de zoonoses.
Retirar os ferrões rapidamente também ajuda a reduzir a inoculação de veneno. Segundo Moreira, raspá-los com um cartão rígido no primeiro minuto após as picadas pode diminuir complicações.
O futuro do combate aos ataques
Se aprovado, o antiveneno apílico poderá salvar centenas de vidas no Brasil e até ser exportado. Enquanto isso, especialistas reforçam que a conscientização da população e o preparo dos serviços de saúde são fundamentais.
O desafio é claro: transformar o caramelo símbolo do Brasil em um aliado e não em uma ameaça. Até lá, cada ferrão é um lembrete de que ciência e saúde pública precisam correr juntas.
[ Fonte: CNN Brasil ]