Pular para o conteúdo
Ciência

Até 60% das pessoas em luto podem viver uma experiência que intriga a neurociência

Ouvir uma voz conhecida ou sentir alguém por perto após uma perda pode ser uma experiência surpreendentemente frequente. Pesquisadores investigam o que acontece no cérebro durante o luto.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

Você está sozinho em casa quando um barulho familiar parece anunciar a chegada de alguém que já morreu. Em outro momento, um perfume desperta a sensação quase irresistível de que aquela pessoa está ao seu lado. Experiências assim podem causar conforto, saudade ou até medo. Embora frequentemente associadas ao sobrenatural, elas também despertam o interesse da neurociência, que busca compreender como o cérebro continua percebendo vínculos depois de uma perda.

Até 60% das pessoas enlutadas podem experimentar essas sensações

Sentir a presença de alguém que morreu não é tão raro quanto muitas pessoas imaginam.

Uma revisão científica publicada em 2026 na revista Mortality aponta que estudos anteriores encontraram experiências desse tipo em aproximadamente 50% a 60% das pessoas em luto.

Os relatos apresentam características variadas.

Algumas pessoas dizem reconhecer a voz de um familiar falecido. Outras descrevem uma sensação de toque, um cheiro familiar ou a impressão de que alguém está sentado ao seu lado.

Há também experiências que não envolvem sons, imagens ou contatos físicos específicos, mas apenas uma percepção intensa de companhia.

Essas situações podem surgir pouco depois da perda ou muito tempo mais tarde.

Para algumas pessoas, representam uma fonte de tranquilidade. Para outras, provocam confusão e insegurança.

Entretanto, pesquisadores ressaltam que essas experiências não indicam necessariamente a presença de um transtorno mental.

Elas podem ocorrer em pessoas sem histórico de doenças psiquiátricas e fazer parte das diferentes maneiras de vivenciar o luto.

O cérebro pode continuar esperando alguém mesmo depois de sua morte

Uma possível explicação envolve a maneira como construímos representações mentais das pessoas importantes em nossa vida.

Em um estudo publicado em novembro de 2025 na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience, a pesquisadora Alicja Nowacka, da Universidade de Auckland, e seus colaboradores apresentaram um modelo para investigar esse fenômeno.

Segundo a proposta, o cérebro desenvolve representações complexas de pessoas próximas a partir de lembranças, emoções e experiências compartilhadas.

Essas informações permitem reconhecer vozes, antecipar comportamentos e identificar hábitos familiares.

Quando alguém morre, essas representações não desaparecem imediatamente.

O cérebro continua utilizando informações construídas durante anos, mesmo quando sabemos conscientemente que aquela pessoa não está mais presente.

Nesse processo, pode atuar o chamado processamento preditivo, mecanismo pelo qual o cérebro interpreta informações sensoriais com base em experiências anteriores.

Assim, um ruído no corredor pode lembrar os passos de alguém falecido e despertar uma forte sensação de presença.

É importante destacar que esse modelo ainda representa uma hipótese científica, não uma explicação definitivamente comprovada.

Luto1
© Karola G – Pexels

Sentir alguém que morreu não significa necessariamente ter um problema psicológico

Durante muito tempo, experiências sensoriais relacionadas a pessoas falecidas foram frequentemente interpretadas como possíveis manifestações psiquiátricas.

Entretanto, estudos históricos já demonstravam que elas também ocorrem em indivíduos sem transtornos mentais.

Em 1971, uma investigação com 293 pessoas viúvas no País de Gales identificou experiências relacionadas à percepção do parceiro falecido em 46,7% dos participantes.

Atualmente, alguns pesquisadores preferem utilizar expressões como experiências sensoriais ou quase sensoriais dos falecidos.

Essa terminologia busca descrever o fenômeno sem classificá-lo automaticamente como patológico.

O contexto emocional é fundamental.

Uma experiência breve, reconfortante e que não prejudica a rotina é diferente de percepções persistentes que provocam sofrimento intenso.

Quando essas sensações causam medo significativo, comprometem o cotidiano ou aparecem acompanhadas de outros sintomas preocupantes, procurar orientação profissional é recomendável.

Por que os vínculos emocionais continuam mesmo depois da perda?

A psicologia também oferece uma perspectiva importante por meio da teoria dos vínculos contínuos.

Segundo essa abordagem, a morte não elimina automaticamente a relação emocional construída com alguém.

Lembranças, hábitos, conversas imaginadas e recordações compartilhadas podem manter essa conexão internamente.

Sentir a presença de uma pessoa falecida poderia, em alguns casos, estar relacionado à permanência desses vínculos afetivos.

Isso não significa que todas as experiências tenham a mesma origem ou que os mecanismos envolvidos já sejam totalmente conhecidos.

A ciência também não demonstrou que essas sensações representem contatos reais com pessoas mortas.

O que as pesquisas sugerem é que a memória, a percepção e as emoções podem continuar profundamente conectadas a alguém mesmo depois de sua ausência física.

Talvez seja justamente por isso que determinadas vozes, cheiros e pequenos acontecimentos cotidianos consigam despertar sensações tão intensas.

A pessoa já não está presente, mas a representação construída pelo cérebro e a história afetiva compartilhada podem continuar fazendo parte da experiência de quem ficou.

Partilhe este artigo

Artigos relacionados