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Tecnologia

Ativistas dizem ter copiado quase todo o Spotify em um arquivo de 300 terabytes — e reacendem o debate sobre preservação cultural e pirataria

Um projeto controverso afirma ter feito o maior backup musical já conhecido da internet, com milhões de faixas extraídas do Spotify. A iniciativa, apresentada como um esforço de preservação, levanta questões legais, técnicas e éticas sobre quem deve guardar a memória musical da era do streaming.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Uma parcela significativa do catálogo do Spotify pode em breve circular pela internet para download gratuito — desde que o interessado tenha espaço de sobra no disco rígido. O Anna’s Archive, um projeto sem fins lucrativos e altamente controverso, anunciou que conseguiu copiar grandes volumes da plataforma em um arquivo que beira os 300 terabytes.

Conhecido por preservar livros, revistas e artigos acadêmicos a partir de bibliotecas-sombra, acervos oficiais e outras fontes, o Anna’s Archive agora volta sua atenção para a música. O alvo inicial não foi escolhido ao acaso: o Spotify, maior serviço de streaming musical do mundo, concentra uma fatia enorme do consumo global.

“Essa coleta do Spotify é nossa tentativa humilde de iniciar um ‘arquivo de preservação’ para a música”, escreveu o grupo em um post no blog. “O Spotify não contém toda a música do mundo, claro, mas é um excelente ponto de partida.”

O tamanho do arquivo — e o que ele contém

Segundo o projeto, foram preservados metadados de 256 milhões de faixas e arquivos de áudio de cerca de 86 milhões delas. A maior parte do material foi copiada antes de julho de 2025, o que significa que lançamentos mais recentes podem não estar incluídos.

Embora represente apenas uma fração do total de arquivos armazenados pelo Spotify, o grupo afirma que o acervo cobre 99,6% da música efetivamente ouvida na plataforma. O argumento é simples: a distribuição de audições é extremamente desigual.

Para ilustrar, o Anna’s Archive aponta que as três músicas mais ouvidas do Spotify acumulam mais streams do que os 20 a 100 milhões de faixas menos escutadas somadas. Entre esses megahits estariam “Die With a Smile”, de Lady Gaga e Bruno Mars, “Birds of a Feather”, de Billie Eilish, e “DtMF”, de Bad Bunny.

Preservação versus limites práticos

O grupo reconhece que a música já vem sendo preservada de diversas formas, mas critica iniciativas existentes por três motivos principais: foco excessivo em artistas populares, obsessão por áudio de altíssima qualidade (o que inviabiliza arquivos completos por causa do tamanho) e a ausência de um índice torrent abrangente que represente toda a música gravada.

A proposta do Anna’s Archive é mais pragmática: priorizar abrangência e relevância cultural, mesmo que isso signifique abrir mão da máxima qualidade sonora. A liberação do acervo será feita em fases, começando pelos metadados, seguida pelos arquivos de áudio — organizados por popularidade — e, por fim, as capas dos álbuns.

“Com a sua ajuda, o patrimônio musical da humanidade será protegido para sempre contra desastres naturais, guerras, cortes de orçamento e outras catástrofes”, afirma o texto do projeto.

A reação do Spotify

Como era de se esperar, o Spotify não recebeu bem a iniciativa. Em nota enviada à imprensa, a empresa afirmou ter identificado e desativado contas envolvidas em “raspagem ilegal” de dados e disse ter implementado novas salvaguardas contra ataques de violação de direitos autorais.

“Desde o primeiro dia, estamos ao lado da comunidade de artistas contra a pirataria e trabalhamos ativamente com parceiros da indústria para proteger criadores e defender seus direitos”, declarou um porta-voz da companhia.

Um debate que vai além da música

O episódio expõe uma tensão crescente na era do streaming: plataformas privadas concentram boa parte da produção cultural global, mas não têm como missão principal a preservação de longo prazo. Ao mesmo tempo, projetos que se propõem a “salvar tudo” frequentemente esbarram em leis de copyright e interesses econômicos.

Para críticos, a iniciativa do Anna’s Archive é apenas pirataria em escala industrial, disfarçada de altruísmo. Para defensores, trata-se de uma resposta radical a um problema real: o risco de que obras inteiras desapareçam se serviços fecharem, mudarem políticas ou perderem licenças.

Independentemente do julgamento, o anúncio deixa claro que a música digital — assim como livros e artigos científicos — entrou de vez no debate sobre quem controla, preserva e define o acesso à cultura. E, nesse embate, arquivos de centenas de terabytes podem ser apenas o começo.

 

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