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Mundo

O presidente que transformou El Salvador em símbolo global do Bitcoin agora enfrenta acusações de congelar contas de um jornal crítico ao governo

O caso envolvendo o jornal El Faro reacendeu debates sobre liberdade de imprensa, autoritarismo e a contradição entre o discurso libertário do Bitcoin e o controle estatal sobre o sistema financeiro. A polêmica expõe as tensões entre tecnologia, poder político e vigilância em um dos países mais observados do universo cripto.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando Nayib Bukele transformou El Salvador no primeiro país do mundo a adotar o Bitcoin como moeda oficial, ele virou uma espécie de celebridade global entre entusiastas de criptomoedas.

A proposta parecia alinhada com uma das ideias centrais do universo cripto: reduzir a dependência de governos e bancos tradicionais.

Mas agora, uma nova controvérsia colocou essa narrativa em xeque.

O jornal salvadorenho El Faro denunciou que ativos ligados a dois de seus acionistas — incluindo contas bancárias e propriedades — teriam sido congelados por ordem do governo como forma de retaliação política.

Segundo o veículo, a medida teria ocorrido após uma série de investigações sobre supostos casos de corrupção envolvendo a administração Bukele.

O episódio rapidamente gerou críticas justamente por parecer contradizer a filosofia de liberdade financeira frequentemente associada ao Bitcoin.

O El Faro afirma que descobriu o bloqueio sem aviso oficial

De acordo com o próprio jornal, o congelamento foi descoberto através de bancos e registros de propriedade, sem comunicação prévia das autoridades.

O diretor do veículo, Carlos Dada, classificou a ação como política e acusou o governo de tentar silenciar o jornalismo crítico.

Nos últimos anos, o El Faro se tornou uma das principais vozes investigativas do país, publicando reportagens sobre supostos acordos entre o governo e gangues locais, além de investigações envolvendo corrupção estatal.

Pouco antes do congelamento das contas, o veículo também participou de um documentário da PBS Frontline sobre a situação política salvadorenha.

O governo de Bukele não comentou oficialmente o caso até o momento, embora o presidente já tenha chamado o trabalho do jornal de “fake news” em ocasiões anteriores.

A ironia do caso envolve justamente o Bitcoin

A polêmica ganhou repercussão internacional porque toca diretamente em um dos pilares ideológicos do Bitcoin.

Desde sua criação, o universo cripto costuma defender sistemas financeiros resistentes à censura estatal e ao controle centralizado.

Congelar contas bancárias, portanto, representa exatamente o tipo de mecanismo que muitos defensores do Bitcoin dizem querer evitar.

Por isso, parte da comunidade cripto apontou uma ironia evidente no episódio: se o El Faro operasse financeiramente apenas com carteiras descentralizadas de Bitcoin, medidas desse tipo seriam muito mais difíceis de executar.

Mas a realidade é mais complexa.

O próprio sistema de Bitcoin criado por Bukele foi alvo de críticas

Embora Bukele tenha se tornado símbolo internacional do Bitcoin, parte da comunidade cripto sempre demonstrou desconforto com a forma como o projeto foi implementado em El Salvador.

Em 2021, o governo aprovou rapidamente a chamada Lei Bitcoin, tornando a criptomoeda moeda oficial do país ao lado do dólar.

Pouco depois, foi lançado o aplicativo estatal Chivo Wallet.

O governo ofereceu o equivalente a US$ 30 em Bitcoin para cidadãos que baixassem o aplicativo, tentando incentivar a adoção em massa.

Mas críticos afirmaram que o sistema contrariava justamente os princípios de privacidade e descentralização do Bitcoin.

A carteira Chivo exigia controle estatal sobre usuários

Diferentemente de carteiras descentralizadas tradicionais, o Chivo Wallet operava como um sistema custodial controlado pelo governo.

Usuários precisavam enviar documentos, selfies e dados pessoais para cumprir exigências de identificação e combate à lavagem de dinheiro.

Isso permitia que autoridades tivessem visibilidade sobre transações feitas dentro do sistema.

Além disso, especialistas criticaram o fato de o aplicativo ser fechado e de código não auditável publicamente.

Pesquisas realizadas no país também mostraram resistência significativa da população.

Um levantamento de 2021 revelou que 68% dos salvadorenhos eram contrários à adoção do Bitcoin e que nove em cada dez afirmavam não entender como a tecnologia funcionava.

O experimento cripto de El Salvador continua dividindo opiniões

Mesmo com as críticas, Bukele segue sendo admirado por parte da comunidade internacional ligada ao Bitcoin.

Muitos enxergam em El Salvador o primeiro experimento real de adoção estatal da criptomoeda em larga escala.

O país também virou símbolo de iniciativas como pagamentos via Lightning Network e projetos futuristas como a chamada “Bitcoin City”, planejada para ser construída próxima a um vulcão.

Por outro lado, críticos afirmam que o entusiasmo tecnológico não pode ignorar preocupações crescentes sobre concentração de poder e erosão democrática.

Alex Gladstein, da Human Rights Foundation, resumiu essa tensão em uma frase que voltou a circular após o caso envolvendo o El Faro:

“É bastante claro que Bukele está desmontando a democracia rapidamente — e isso é antagônico ao Bitcoin.”

A frase ajuda a explicar por que o episódio atual ultrapassa uma simples disputa política local.

Ele toca diretamente em uma pergunta cada vez mais relevante para o futuro das criptomoedas: até que ponto uma tecnologia criada para reduzir o poder dos governos pode coexistir com projetos políticos altamente centralizados?

 

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