O mais recente desastre aéreo na Índia, que deixou quase todas as vítimas fatais, coloca a Boeing no centro de uma nova onda de controvérsias. A aeronave envolvida no acidente era justamente o modelo que um ex-gerente de qualidade da empresa, falecido em 2024, havia denunciado por problemas estruturais e práticas inseguras de produção. A coincidência reaviva críticas antigas sobre o 787 Dreamliner e levanta questões sérias sobre segurança e responsabilidade corporativa.
O alerta ignorado: John Barnett e o Dreamliner
John Barnett trabalhou durante anos na Boeing antes de se tornar um de seus mais contundentes críticos. Segundo ele, o modelo 787 Dreamliner era fabricado com peças de baixa qualidade e inspeções falhas. Barnett alegava que a busca da empresa por eficiência colocava vidas em risco — e se recusava a voar nesse tipo de aeronave.
Sua morte, aparentemente por suicídio enquanto enfrentava a Boeing em uma disputa legal, gerou teorias conspiratórias. O avião que se acidentou na cidade indiana de Ahmedabad, matando quase todos a bordo, era exatamente o modelo alvo das denúncias de Barnett.
Problemas desde o início
Lançado em 2011, o 787 Dreamliner prometia ser um marco na aviação, com custos menores de fabricação e maior eficiência. Mas desde o início foi alvo de críticas pela complexidade de seu processo de montagem. A Boeing terceirizou muitos componentes para diferentes fornecedores, o que dificultava o encaixe perfeito das partes.
Incidentes não tardaram a surgir: em 2013, incêndios nas baterias fizeram a FAA suspender todos os voos do modelo. Em 2015, um vírus foi detectado no sistema de controle dos geradores, com potencial de causar perda de controle durante o voo. Vazamentos de combustível e outros problemas estruturais também foram relatados ao longo dos anos.
A fábrica sob suspeita
Grande parte da produção do Dreamliner ocorre na planta de Charleston, Carolina do Sul, que já foi apontada por veículos como o New York Times como um local com falhas recorrentes. Inspeções mal feitas e relatos de negligência aumentaram a desconfiança em relação à segurança dos aviões montados ali.
Barnett, em uma entrevista na época, disse que “nunca assinaria um avião que saísse de Charleston como seguro para voar”. O ex-funcionário foi uma das fontes da reportagem que revelava os problemas sistêmicos da fábrica.
Mais vozes, mais mortes
Após a morte de Barnett, outros denunciantes surgiram. O engenheiro Sam Salehpour prestou depoimento ao Congresso dos EUA afirmando que os 787 estavam sendo montados de forma tão deficiente que poderiam “se desintegrar” em pleno voo. Salehpour também expressou medo de sofrer retaliações ou algo pior.
Durante esse mesmo período, outro denunciante da Boeing também faleceu. Ao mesmo tempo, a empresa admitiu à FAA que pode ter falsificado documentos e omitido inspeções cruciais em áreas onde as asas se unem à fuselagem — uma parte vital da integridade estrutural do avião.
A crise continua
O acidente na Índia, somado ao histórico conturbado do 787 Dreamliner e à morte de críticos internos, aprofunda a crise de reputação da Boeing. Apesar de as causas oficiais do desastre ainda estarem sob investigação, qualquer descoberta relacionada à estrutura do avião pode intensificar as críticas.
Até o momento, a Boeing não comentou o caso. A ausência de respostas diante de incidentes graves e repetidos mina ainda mais a confiança em uma empresa que, no passado, foi sinônimo de excelência na aviação. E agora, com vidas em jogo, a pressão por mudanças reais nunca foi tão urgente.