Produzir alimentos frescos longe da Terra será um dos grandes desafios das futuras missões espaciais de longa duração. Para descobrir quais plantas poderiam enfrentar condições como microgravidade e radiação, pesquisadores brasileiros participam de um projeto internacional que estuda o cultivo de alimentos no espaço. Entre os destaques está uma variedade brasileira de batata-doce roxa.
Plantas brasileiras entram na corrida espacial
Os pesquisadores aguardam o retorno ao Brasil de amostras que participaram de uma missão espacial. O objetivo será comparar essas plantas com exemplares que permaneceram na Terra durante o mesmo período.
Essa comparação pode ajudar os cientistas a entender como condições encontradas fora do planeta interferem no desenvolvimento vegetal.
Segundo Alessandra Fávero, pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste e coordenadora da Rede Brasileira de Agricultura Espacial, plantas que demonstrarem tolerância ao crescimento em ambientes de microgravidade e radiação poderão se tornar candidatas interessantes para futuros cultivos espaciais.
A ideia vai muito além de simplesmente descobrir se uma planta consegue sobreviver fora da Terra. Para missões prolongadas até a Lua ou Marte, será necessário desenvolver sistemas capazes de produzir alimentos de maneira eficiente e relativamente autônoma.
Batata-doce e grão-de-bico estão entre os candidatos

Dois alimentos receberam atenção especial dos pesquisadores: batata-doce e grão-de-bico.
A escolha não aconteceu por acaso.
Essas culturas apresentam características interessantes para ambientes nos quais recursos serão extremamente limitados. Elas não exigem cuidados tão complexos e podem precisar de menos água e calor do que outras opções agrícolas.
O grão-de-bico também possui uma vantagem nutricional importante. É uma boa fonte de proteínas e pode ser utilizado de diferentes maneiras na alimentação.
Já a representante brasileira é a BRS Anembé, uma variedade de batata-doce de polpa roxa desenvolvida pela Embrapa.
Sua coloração está relacionada à presença de antocianinas, compostos com forte ação antioxidante. Estudos anteriores indicam que essas substâncias podem desempenhar um papel importante na proteção contra os efeitos da radiação.
Essa característica é especialmente interessante fora da Terra, onde astronautas e organismos vivos ficam mais expostos à radiação espacial.
Agricultura espacial precisará de plantas diferentes
Mesmo culturas resistentes utilizadas atualmente provavelmente precisarão passar por adaptações antes de fazerem parte da alimentação cotidiana de astronautas.
O futuro da agricultura espacial pode envolver o desenvolvimento de variedades específicas de batata-doce, grão-de-bico e outros vegetais.
Os pesquisadores procuram características que seriam extremamente valiosas em uma base lunar ou marciana.
Uma delas é um ciclo de crescimento mais curto. Quanto mais rapidamente uma planta puder ser cultivada e colhida, mais eficiente será o aproveitamento dos recursos disponíveis.
Também serão importantes variedades capazes de produzir maiores quantidades de alimento utilizando menos água, energia e espaço.
Outro objetivo será aumentar o valor nutricional das plantas. Em missões que podem durar meses ou anos, cada alimento precisará contribuir de maneira eficiente para a dieta dos astronautas.
Projeto terá testes na Terra, em órbita e no espaço profundo
O desenvolvimento da agricultura espacial acontecerá em diferentes etapas.
Na primeira fase, os cientistas realizam experimentos e simulações na própria Terra. Ambientes controlados permitem reproduzir algumas das condições que as plantas enfrentariam durante uma missão espacial.
A segunda etapa prevê testes em órbita terrestre. Nesse ambiente, será possível analisar diretamente os efeitos da microgravidade e de outros fatores impossíveis de reproduzir completamente em laboratórios terrestres.
A terceira fase será ainda mais ambiciosa: levar experimentos agrícolas para o espaço profundo, incluindo a Lua.
Esses testes poderão fornecer informações essenciais para futuras bases humanas permanentes fora da Terra.
Plantar alimentos pode ser essencial para chegar a Marte

Transportar toda a comida necessária para uma missão de longa duração seria caro e logisticamente complicado. Quanto mais distante estiver o destino, maior será a necessidade de produzir parte dos alimentos localmente.
Cultivar vegetais também poderia oferecer alimentos frescos aos astronautas e reduzir a dependência de produtos armazenados durante longos períodos.
Ainda existem enormes desafios antes de vermos uma plantação de batata-doce na Lua ou em Marte. Mas experimentos como o realizado com a BRS Anembé mostram que parte da tecnologia necessária para alimentar futuros exploradores espaciais pode começar justamente nos campos e laboratórios brasileiros.
[ Fonte: Meteored ]