As eleições presidenciais de outubro no Brasil prometem ter consequências para toda a região. Em meio a uma sequência de vitórias da direita na América Latina, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva busca a reeleição em uma disputa apertada contra Flávio Bolsonaro, principal nome da oposição.
As pesquisas indicam a possibilidade de segundo turno e mostram uma disputa equilibrada. Flávio entrou na corrida depois que seu pai, Jair Bolsonaro, foi declarado inelegível e posteriormente condenado por tentativa de golpe de Estado.
Mais do que decidir quem comandará o maior país da América Latina, a eleição poderá determinar o papel que o Brasil exercerá em um continente politicamente diferente daquele encontrado por Lula quando voltou ao Palácio do Planalto, em 2023.
Lula ainda ocupa um espaço difícil de substituir

Para especialistas ouvidos pela CNN, Lula continua sendo um dos poucos líderes latino-americanos com projeção internacional consolidada.
O acadêmico e ex-diplomata venezuelano Alfredo Toro Hardy considera o brasileiro uma figura com capacidade de interlocução fora da região. Uma eventual derrota, segundo ele, deixaria um espaço difícil de preencher na representação latino-americana no cenário mundial.
Essa projeção voltou a aparecer durante a Assembleia Geral da ONU. Em seu discurso mais recente, Lula enviou uma mensagem direta a Washington ao afirmar que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
A frase resume uma característica importante de sua política externa: manter canais com diferentes potências e, ao mesmo tempo, defender maior autonomia brasileira.
Lula voltou ao poder em 2023, após 12 anos fora da Presidência. Durante seus primeiros governos, manteve uma agenda internacional intensa, principalmente na América Latina e na África.
Uma América Latina muito diferente
O cenário regional, porém, mudou.
Juan Pablo Scarfi, professor de Relações Internacionais da Universidade de San Andrés e pesquisador do Conicet, observa que Lula já não exerce a mesma influência de 10 ou 15 anos atrás. Parte dessa mudança está relacionada ao novo contexto internacional e ao enfraquecimento da chamada “maré rosa”, período marcado pela chegada de diversos governos de esquerda ao poder.
Quando Jair Bolsonaro venceu as eleições brasileiras de 2018, o mapa político latino-americano era mais heterogêneo. Sebastián Piñera governava o Chile, Iván Duque estava na Colômbia e Mauricio Macri ocupava a Presidência argentina. Ao mesmo tempo, Evo Morales governava a Bolívia, Nicolás Maduro permanecia na Venezuela e Andrés Manuel López Obrador acabava de ser eleito no México.
Agora, o Brasil chega às urnas depois de uma sequência de vitórias eleitorais da direita na região.
Nesse cenário, Lula funciona como contraponto a governos alinhados mais diretamente aos Estados Unidos. Entre eles está o do presidente argentino Javier Milei, um dos aliados mais próximos de Donald Trump na América Latina.
Por que Washington acompanha a eleição
🇧🇷🇺🇸 Trump afirma novamente que está acompanhando de perto as eleições no Brasil, citando a grande importância geopolítica do país. A fala do presidente ocorre em paralelo à divulgação do relatório da ABIN sobre indícios de interferência dos EUA nas eleições brasileiras. pic.twitter.com/XZkPsfyfut
— Análise Geopolítica (@AnaliseGeopol) October 1, 2026
Os Estados Unidos também têm interesses importantes no resultado brasileiro.
Washington vem buscando ampliar sua presença política e econômica na América Latina por meio de governos aliados. Um eventual governo de Flávio Bolsonaro poderia aproximar ainda mais Brasília da Casa Branca.
Para Toro Hardy, isso teria impacto especialmente relevante devido ao peso econômico e estratégico brasileiro. O país possui grandes reservas de minerais críticos e terras raras, recursos cada vez mais importantes na disputa tecnológica entre Estados Unidos e China.
Pequim consolidou nas últimas décadas uma presença econômica significativa na América Latina, enquanto Washington tenta recuperar influência na região.
Uma mudança na política externa brasileira poderia, portanto, afetar esse equilíbrio.
Scarfi considera que o avanço de alianças mais próximas dos Estados Unidos está modificando a dinâmica regional. Ao mesmo tempo, instituições multilaterais tradicionais perderam parte de sua capacidade de articulação.
A direita regional também enfrenta dificuldades

O avanço eleitoral da direita, porém, não significa necessariamente a formação de um bloco político estável.
Eduardo Gamarra, professor da Universidade Internacional da Flórida, observa que vários governos enfrentam problemas internos de governabilidade. Para ele, a coalizão regional alinhada a Trump ainda é frágil.
Gamarra também considera Lula um dos últimos representantes de uma geração política vinculada ao projeto de integração latino-americana fortalecido a partir dos anos 1990.
Por isso, uma vitória do brasileiro manteria um contraponto aos governos de direita atualmente predominantes na região.
Uma derrota, por outro lado, poderia acelerar a reorganização das alianças políticas e econômicas latino-americanas.
Quem poderia ocupar o espaço deixado por Lula?
A resposta não é simples.
A presidente mexicana Claudia Sheinbaum poderia assumir maior protagonismo, mas a política externa do México é fortemente condicionada pela relação econômica e geográfica com os Estados Unidos.
Javier Milei também tenta ampliar sua projeção internacional. O presidente argentino construiu uma relação próxima com Trump e busca apresentar seu governo como uma referência para movimentos de direita fora da Argentina.
Para Scarfi, uma eventual saída de Lula poderia ampliar o espaço internacional de Milei, possivelmente até mais do que o de um futuro governo de Flávio Bolsonaro.
Isso, porém, não significa que surgiria automaticamente uma nova liderança regional.
Mesmo com maior proximidade ideológica entre vários governos sul-americanos, ainda existem poucas iniciativas concretas de integração política.
O Mercosul também pode sentir o impacto
Outro ponto de atenção é o futuro do Mercosul.
Para Scarfi, o bloco atravessa um momento decisivo. Historicamente, o Mercosul funcionou não apenas como uma área de integração comercial, mas também como uma tentativa de aumentar a autonomia econômica regional diante das grandes potências.
Uma mudança profunda na política externa brasileira poderia alterar esse equilíbrio.
O Brasil possui uma margem de autonomia internacional maior do que muitos de seus vizinhos graças ao tamanho de sua economia, população e território. Nos últimos anos, Brasília conseguiu manter relações simultâneas com Estados Unidos, China, Europa e países do Sul Global.
Caso um novo governo opte por uma aproximação muito mais intensa com Washington, outros países da região também poderiam enfrentar dificuldades para manter suas próprias estratégias de equilíbrio entre as grandes potências.
Por isso, a eleição brasileira de outubro ultrapassa a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro. O resultado poderá influenciar o futuro do Mercosul, as relações com Estados Unidos e China e até a capacidade da América Latina de construir posições comuns no cenário internacional.
[ Fonte: CNN ]