Durante décadas, a disputa pelas Malvinas/Falklands permaneceu como uma ferida diplomática entre Argentina e Reino Unido, mas sem sinais concretos de outro confronto. Agora, 44 anos depois da guerra de 1982, uma combinação inesperada voltou a elevar a temperatura: Donald Trump questionou uma posição histórica dos Estados Unidos, Javier Milei endureceu seu discurso e petróleo, Antártida e interesses estratégicos entraram novamente na equação.
Trump mexeu em uma posição que Washington preservava há décadas

O elemento que surpreendeu Buenos Aires e Londres veio de Washington.
Questionado pela BBC sobre a tradicional posição americana em relação à soberania das Malvinas/Falklands, Donald Trump respondeu que sempre revisa todas as posições.
A declaração parecia vaga, mas ganhou importância depois.
Em entrevista ao canal britânico GB News, Trump sugeriu que poderia não apoiar o Reino Unido caso surgisse um novo conflito com a Argentina, relacionando sua posição às divergências que mantém com Londres sobre a guerra no Irã.
Para Javier Milei, aliado próximo do presidente americano, essas declarações abriram uma oportunidade.
O presidente argentino afirmou que existem “ventos de mudança favoráveis” ao histórico pedido de soberania de seu país e elevou o tom contra empresas envolvidas na exploração de recursos naturais no arquipélago.
Do outro lado, o primeiro-ministro britânico Andy Burnham reiterou que Londres continuará defendendo o direito dos habitantes das ilhas de permanecerem britânicos.
Assim, uma disputa que parecia relativamente congelada voltou rapidamente ao cenário internacional.
Há bilhões de motivos escondidos debaixo do oceano

A questão não envolve apenas bandeiras e mapas.
Um dos pontos centrais da nova ofensiva argentina é o projeto petrolífero Sea Lion, localizado aproximadamente 220 quilômetros ao norte das ilhas.
O governo Milei se opõe à exploração e advertiu grandes companhias petrolíferas internacionais de que poderão ter de escolher entre desenvolver negócios na Argentina ou participar de projetos nas Malvinas/Falklands.
A principal empresa envolvida no Sea Lion é a israelense Navitas, contra a qual Buenos Aires anunciou medidas judiciais.
Curiosamente, isso ocorre enquanto Milei mantém uma relação política muito próxima com Israel.
A situação ganhou outra camada quando o ministro israelense da Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, defendeu publicamente o reconhecimento das Malvinas como território argentino ocupado.
A manifestação ocorreu justamente enquanto Londres preparava sanções econômicas relacionadas aos assentamentos israelenses na Cisjordânia.
É um exemplo de como uma disputa localizada no Atlântico Sul pode acabar conectada a conflitos diplomáticos muito distantes.
O mapa estratégico do Atlântico Sul também está mudando
O petróleo explica apenas parte da história.
Henry Ziemer, pesquisador do programa das Américas do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), observa que a importância estratégica do Atlântico Sul está crescendo.
Um dos motivos é a Antártida.
China e outras potências ampliaram sua presença científica no continente, enquanto discussões sobre infraestrutura, influência geopolítica e eventuais recursos naturais despertam cada vez mais interesse.
Existe ainda uma questão comercial.
Problemas recorrentes relacionados ao nível da água no Canal do Panamá poderiam, em determinadas circunstâncias, aumentar a relevância de outras rotas marítimas. Nesse cenário, o Atlântico Sul ganharia peso estratégico adicional.
A Argentina também planeja construir uma base naval integrada na Terra do Fogo.
Assim, as ilhas deixam de ser apenas objeto de uma disputa histórica e passam a ocupar uma posição potencialmente relevante em um tabuleiro muito maior.
A situação lembra 1982 em alguns aspectos, mas existe uma diferença fundamental
Quando a Argentina desembarcou tropas nas ilhas em 1982, o país era governado por uma ditadura militar que enfrentava uma grave crise interna.
Recuperar as Malvinas era visto pelo regime como uma maneira de mobilizar apoio popular em torno de uma causa capaz de unir grande parte da sociedade argentina.
O governo britânico de Margaret Thatcher também enfrentava dificuldades econômicas e políticas.
Londres respondeu enviando uma força militar para recuperar o arquipélago.
A guerra durou 74 dias e deixou 649 militares argentinos, 255 militares britânicos e três habitantes das ilhas mortos.
O Reino Unido retomou o controle do território, que administra desde 1833.
Naquela ocasião, os Estados Unidos acabaram fornecendo apoio de inteligência e logística ao Reino Unido, seu aliado na OTAN.
Depois da guerra, Washington evitou assumir formalmente uma posição sobre a soberania, embora reconheça a administração britânica de fato.
É justamente essa posição que Trump agora colocou em dúvida.
Milei endureceu o discurso, mas descarta outra guerra
Apesar das comparações inevitáveis com 1982, existe uma diferença decisiva.
Milei afirma que não pretende utilizar força militar para recuperar as ilhas.
Sua estratégia envolve pressão diplomática e econômica.
Carolina Pedroso, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), avalia que Trump consegue pressionar Londres sem abandonar completamente a tradicional posição americana e, ao mesmo tempo, fortalecer Buenos Aires.
Isso também se encaixa na estratégia dos Estados Unidos de reafirmar sua influência no Hemisfério Ocidental, onde Milei se tornou um de seus aliados mais próximos.
Mas existe uma grande incógnita.
Ninguém sabe se Trump realmente pretende alterar formalmente a posição dos Estados Unidos ou simplesmente está utilizando a questão como instrumento de negociação com o governo britânico.
Por enquanto, portanto, não há sinais de uma repetição de 1982.
O que existe é algo diferente: petróleo, Antártida, alianças internacionais e rivalidades geopolíticas começaram a se misturar em torno de um conflito que nunca foi completamente resolvido.
E depois de 44 anos, as pequenas ilhas do Atlântico Sul voltaram inesperadamente ao centro de um jogo entre potências muito maiores.
[Fonte: BBC]