Pular para o conteúdo
Notícias

Uma disputa entre Washington e Haia está colocando à prova a independência de um tribunal global

Uma nova rodada de sanções americanas atingiu integrantes de uma importante instituição judicial internacional. A reação foi imediata e colocou em discussão a independência da Justiça global.
Por

Tempo de leitura: 4 minutos

A tensão entre Washington e uma das principais instituições responsáveis por investigar crimes internacionais acaba de subir mais um degrau. Novas sanções anunciadas pelos Estados Unidos atingem diretamente integrantes de alto escalão do tribunal e provocaram uma dura reação internacional. Para seus representantes e para as Nações Unidas, o episódio ultrapassa uma disputa diplomática: pode colocar em risco a independência de quem investiga algumas das acusações mais graves do mundo.

Um novo confronto coloca a independência do tribunal no centro da disputa

Uma disputa entre Washington e Haia está colocando à prova a independência de um tribunal global
© Patrick Jaksic – Pexels

O Tribunal Penal Internacional (TPI) condenou uma nova rodada de sanções impostas pelos Estados Unidos contra integrantes de sua liderança. Em comunicado, a instituição classificou as medidas como um ataque direto contra a independência de um órgão judicial que atua de acordo com o mandato concedido pelos países que integram seu tratado fundador.

Criado em 2002 pelo Estatuto de Roma, o TPI é uma instituição independente e não faz parte das Nações Unidas. Ainda assim, existe uma ligação importante entre ambos: o Conselho de Segurança da ONU pode encaminhar determinadas situações ao tribunal.

Com sede em Haia, nos Países Baixos, o TPI pode processar indivíduos acusados de genocídio, crimes de guerra, crimes contra a humanidade e crime de agressão dentro dos limites de sua jurisdição.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, manifestou séria preocupação com as novas medidas americanas e com as sanções que já atingem outros integrantes da instituição.

O porta-voz da ONU, Stéphane Dujarric, reforçou que, embora as duas organizações sejam independentes e possuam mandatos diferentes, as Nações Unidas consideram o tribunal um dos pilares fundamentais da justiça penal internacional.

Os Estados Unidos ampliam a pressão sobre integrantes da Corte

Os Estados Unidos não fazem parte do Estatuto de Roma e mantêm há anos uma relação conflituosa com o TPI.

Uma das preocupações de Washington é a possibilidade de cidadãos americanos serem investigados por supostos crimes cometidos em territórios de países que reconhecem a jurisdição do tribunal, mesmo que os próprios Estados Unidos não façam parte dele.

A nova escalada ocorreu após o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciar sanções contra a presidente do TPI, Tomoko Akane, e contra o procurador sênior Abdoulaye Seye.

Washington já havia adotado medidas contra o ex-procurador-chefe Karim Khan, posteriormente afastado de suas funções.

Segundo informações mencionadas pela ONU, Seye participou de investigações relacionadas ao financiamento israelense de assentamentos considerados ilegais na Cisjordânia e à suposta distribuição de armas a colonos.

O conflito entre Washington e o tribunal também ganhou força depois de uma decisão que colocou a guerra em Gaza no centro das atenções da Justiça internacional.

Em novembro de 2024, durante a gestão de Khan, o TPI emitiu mandados de prisão contra o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o então ministro da Defesa Yoav Gallant, relacionados a acusações de crimes de guerra no contexto do conflito contra o Hamas em Gaza.

As sanções já atingem uma parcela importante do tribunal

As novas medidas não representam um episódio isolado.

Os Estados Unidos já haviam aplicado sanções contra o TPI durante os dois mandatos do presidente Donald Trump. Em julho, Rubio também declarou que Washington pretendia enfrentar aquilo que classificou como uma ameaça à soberania americana representada pela instituição.

Uma disputa entre Washington e Haia está colocando à prova a independência de um tribunal global
© YouTube

O alcance dessas ações começa a ganhar dimensões significativas.

Atualmente, nove dos 18 juízes do TPI, além de dois procuradores adjuntos, um ex-procurador e um funcionário, estão impedidos de realizar transações com cidadãos americanos e enfrentam importantes restrições dentro do sistema financeiro internacional.

Para o tribunal, medidas desse tipo não afetam somente seus integrantes.

O TPI argumenta que pressionar ou ameaçar juízes pelo exercício de suas funções pode comprometer o próprio sistema jurídico internacional. Também sustenta que as consequências chegam às vítimas que recorrem à instituição depois de esgotarem outras possibilidades para buscar responsabilização por crimes graves.

A preocupação é que restrições financeiras e outras formas de pressão dificultem investigações, operações e o funcionamento cotidiano de uma instituição que depende da cooperação internacional.

A ONU faz um alerta sobre o que pode estar em jogo

A reação dentro do sistema das Nações Unidas foi contundente.

O Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos classificou as novas sanções como inaceitáveis e defendeu sua retirada.

O alto comissário Volker Türk também voltou a pedir que os Estados defendam as instituições criadas para proteger os direitos humanos e o Estado de direito, além dos funcionários que se tornam alvo de represálias pelo exercício de suas atividades.

A posição coloca a discussão em uma dimensão maior do que o confronto entre Washington e Haia.

Para os defensores do tribunal, o que está em jogo é a possibilidade de instituições internacionais investigarem e julgarem acusações envolvendo atores politicamente poderosos sem sofrer pressões externas.

O TPI afirmou que continuará apoiando seus funcionários e as vítimas de atrocidades internacionais e garantiu que pretende cumprir seu mandato de maneira independente e imparcial.

A instituição também destacou as manifestações de solidariedade recebidas de Estados que integram o Estatuto de Roma, organizações da sociedade civil e defensores da Justiça internacional.

Por enquanto, nenhum dos lados demonstra intenção de recuar.

Washington continua tratando a atuação do tribunal como uma questão de soberania. O TPI, por sua vez, afirma que ceder diante das sanções significaria comprometer justamente o princípio que sustenta sua existência: a ideia de que determinadas acusações devem poder ser investigadas independentemente do poder político dos envolvidos.

[Fonte: UN]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados