Inteligência artificial, semicondutores, saúde, energia e defesa estão deixando de ser apenas setores econômicos para se transformar em peças de soberania nacional. Em um mundo marcado por disputas tecnológicas e cadeias produtivas vulneráveis, o Brasil decidiu elevar sua aposta. Uma nova estratégia estabelece metas para a próxima década e prevê uma mudança significativa na quantidade de recursos destinados à ciência, tecnologia e inovação.
Brasil quer elevar o investimento em ciência para 2% do PIB

O governo federal aprovou uma nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, concebida como um roteiro para orientar as políticas brasileiras no setor até 2034.
Um dos objetivos mais ambiciosos está no financiamento.
A meta estabelecida é fazer com que os investimentos em pesquisa, desenvolvimento e inovação avancem do equivalente a aproximadamente 1,2% do Produto Interno Bruto para 2% do PIB nos próximos oito anos.
A mudança representa mais do que simplesmente ampliar recursos destinados a universidades e centros de pesquisa. O plano procura integrar ciência, indústria e desenvolvimento econômico em uma estratégia de longo prazo.
Durante um encontro com representantes da comunidade científica, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o desenvolvimento brasileiro passa necessariamente pelo conhecimento e pela valorização dos pesquisadores.
A estratégia está organizada em quatro grandes eixos: expansão e integração do sistema nacional de ciência e tecnologia, reindustrialização, soberania e desenvolvimento social.
Por trás desses conceitos existe uma preocupação bastante concreta.
O governo quer diminuir a dependência do Brasil de tecnologias desenvolvidas e produzidas no exterior, principalmente em áreas consideradas essenciais para o funcionamento da economia e do Estado.
E uma experiência recente ajudou a tornar essa vulnerabilidade muito mais evidente.
A pandemia mostrou o preço da dependência tecnológica
A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, destacou durante encontro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) que acontecimentos recentes mostraram como países dependentes de tecnologias estrangeiras podem ficar vulneráveis.
A pandemia de covid-19 foi um dos exemplos.
A disputa internacional por vacinas, equipamentos médicos, componentes eletrônicos e diferentes insumos expôs a dependência das cadeias globais de produção.
A nova estratégia pretende responder justamente a esse problema aumentando a capacidade nacional de desenvolver tecnologias consideradas críticas.
Entre as áreas prioritárias aparecem inteligência artificial, computação avançada, tecnologias digitais e semicondutores.
Saúde, defesa e transição energética também ocupam posições centrais.
A escolha não acontece por acaso. Chips são indispensáveis para praticamente toda a economia digital, enquanto inteligência artificial e computação avançada se tornaram elementos estratégicos na disputa econômica global. Energia, saúde e defesa possuem implicações igualmente importantes para a autonomia de um país.
O objetivo brasileiro é utilizar investimentos nessas áreas para desenvolver tecnologia própria, ampliar a capacidade industrial e criar empregos qualificados.
Mas existe um obstáculo histórico que o plano também pretende enfrentar: transformar pesquisa acadêmica em inovação que chegue efetivamente ao mercado.
Universidades e empresas deverão trabalhar mais próximas
O documento prevê ampliar a integração entre universidades, institutos públicos de pesquisa e empresas privadas.
A intenção é reduzir a distância entre aquilo que é desenvolvido nos laboratórios e aquilo que posteriormente chega às fábricas, empresas e consumidores.
Essa aproximação também responde a reivindicações feitas pela SBPC aos candidatos nas eleições presidenciais.
O governo pretende ainda transformar parte dessa estratégia em uma política capaz de sobreviver às mudanças de administração.
Em um ano marcado pelas eleições presidenciais previstas para outubro, Lula busca avançar no Congresso com uma legislação que dê maior previsibilidade à estratégia e ao financiamento da comunidade científica.
O presidente também destacou os cerca de 55 bilhões de reais destinados nos últimos três anos ao Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
Entre os resultados recentes apresentados como exemplos da capacidade científica e industrial brasileira estão avanços relacionados à vacina nacional contra a dengue, ao desenvolvimento de ônibus elétricos e a tecnologias voltadas para a detecção e previsão de riscos relacionados ao câncer de mama.
A meta para 2034, entretanto, coloca o país diante de um desafio considerável: transformar ambição financeira em resultados científicos, industriais e sociais duradouros.
A corrida pela ciência também expõe diferenças na América Latina
O movimento brasileiro ganha outra dimensão quando comparado ao cenário de países vizinhos.
A Argentina continua possuindo uma comunidade científica reconhecida regional e internacionalmente, mas enfrenta forte redução dos recursos públicos destinados ao setor.
Uma lei de financiamento científico promulgada em 2021 havia estabelecido uma trajetória para aproximar o investimento público em ciência e tecnologia de 1% do PIB até 2032.
Para 2026, o percentual previsto legalmente deveria alcançar aproximadamente 0,52% do PIB. Segundo os dados apresentados no artigo original, entretanto, os recursos efetivamente destinados pelo governo argentino equivalem a cerca de 0,14%, o menor nível desde o retorno da democracia.
A comparação ajuda a mostrar como ciência e tecnologia passaram a ocupar posições diferentes nas estratégias nacionais da região.
Para o Brasil, alcançar 2% do PIB não será apenas uma questão de aumentar orçamentos. Será necessário manter investimentos durante vários governos, formar pesquisadores, desenvolver infraestrutura, estimular empresas e transformar descobertas em produtos e serviços.
A nova estratégia parte de uma premissa cada vez mais presente nas grandes economias: depender completamente de outros países para tecnologias essenciais pode se transformar em uma vulnerabilidade econômica e geopolítica.
Ao colocar 2034 como horizonte, o Brasil está fazendo uma aposta de longo prazo.
Se conseguir mantê-la, a próxima década poderá determinar não apenas quanto o país produz de ciência, mas também quanto da tecnologia utilizada pelos brasileiros será criada dentro de suas próprias fronteiras.
[Fonte: UNQ]