Quando pensamos no futuro distante da Terra, uma imagem costuma dominar: o Sol crescendo até se transformar em uma gigante vermelha e destruindo nosso planeta. Isso deve acontecer daqui a aproximadamente cinco bilhões de anos. Mas existe outro cenário capaz de tornar a Terra inabitável muito antes. E ele não começa com oceanos fervendo ou continentes queimando, mas com mudanças graduais na atmosfera que podem atingir primeiro a vegetação.
O Sol está ficando mais brilhante

O Sol tem aproximadamente 4,6 bilhões de anos e está perto da metade de sua permanência na chamada sequência principal, período no qual produz energia principalmente pela fusão de hidrogênio em seu núcleo.
A cada segundo, enormes quantidades de hidrogênio são transformadas em hélio. Esse processo modifica lentamente as condições internas da estrela.
À medida que o hélio se acumula, o núcleo se contrai sob o efeito da gravidade. Com isso, temperatura e pressão aumentam e a fusão do hidrogênio restante se torna mais intensa.
O resultado parece contraditório: conforme envelhece, o Sol fica progressivamente mais luminoso.
Estima-se que atualmente ele seja aproximadamente 30% mais brilhante do que quando se formou. Durante essa etapa de sua evolução, sua luminosidade deve continuar aumentando em torno de 10% a cada bilhão de anos.
Para a Terra, essa mudança lenta pode ter consequências enormes.
Nosso planeta possui um mecanismo para compensar isso

A Terra já enfrentou bilhões de anos de aumento da luminosidade solar sem perder seus oceanos.
Um dos motivos é o ciclo carbonato-silicato, um processo geológico de longo prazo que ajuda a regular a concentração de dióxido de carbono na atmosfera.
Ele funciona como uma espécie de termostato planetário.
Conforme o Sol fica mais luminoso, menos CO₂ é necessário para manter temperaturas adequadas. Processos envolvendo rochas, chuva, oceanos e atividade geológica retiram dióxido de carbono da atmosfera ao longo de escalas de tempo enormes.
Até certo ponto, isso ajuda a impedir um aquecimento excessivo.
Existe, porém, um limite para essa proteção.
Quanto mais brilhante o Sol se torna, menor precisa ser a concentração atmosférica de CO₂. E chega um momento em que essa solução cria outro problema: as plantas também precisam desse gás para sobreviver.
O primeiro colapso pode acontecer nas plantas
Grande parte das árvores e muitas das principais culturas agrícolas utiliza um mecanismo de fotossíntese conhecido como C3.
Quando a concentração de dióxido de carbono cair demais, essas plantas terão cada vez mais dificuldade para realizar fotossíntese.
Plantas C4, que incluem espécies como milho e cana-de-açúcar, utilizam o CO₂ de maneira mais eficiente e poderiam resistir por mais tempo. Mas elas também enfrentariam limites.
A consequência iria muito além de uma paisagem sem vegetação.
Menos fotossíntese significaria redução da biomassa vegetal e da produção de oxigênio, além do colapso progressivo das cadeias alimentares terrestres.
Animais complexos dependem direta ou indiretamente desses ecossistemas.
Assim, o início do fim da biosfera terrestre pode ser muito menos cinematográfico do que imaginar oceanos entrando em ebulição: as plantas começariam simplesmente a desaparecer.
Depois começa um ciclo difícil de interromper
O aumento contínuo da luminosidade solar também faria as temperaturas subirem.
Oceanos e outras reservas superficiais de água passariam a evaporar mais rapidamente. E existe um detalhe importante: o vapor de água é um poderoso gás de efeito estufa.
Quanto mais vapor houver na atmosfera, maior será a retenção de calor. Isso provoca mais aquecimento, que gera ainda mais evaporação.
Em determinado momento, a Terra poderia entrar em uma condição conhecida como efeito estufa úmido.
Hoje, as regiões superiores e frias da atmosfera dificultam a chegada de grandes quantidades de água às camadas mais altas. Com temperaturas suficientemente elevadas, essa barreira se torna menos eficiente.
A água poderia então alcançar altitudes onde a radiação ultravioleta solar quebraria suas moléculas em hidrogênio e oxigênio.
Por ser extremamente leve, parte do hidrogênio escaparia para o espaço.
E isso produziria uma mudança irreversível: sem aquele hidrogênio, a água perdida não poderia simplesmente voltar a formar os oceanos.
A Terra poderia acabar parecida com Vênus
Ao longo de enormes escalas de tempo, os oceanos diminuiriam até desaparecer.
A Terra azul que conhecemos seria substituída por um planeta seco e estéril, possivelmente mais parecido com Vênus do que com nosso mundo atual.
Quando isso acontecerá exatamente é muito mais difícil de determinar.
A estimativa de aproximadamente um bilhão de anos não representa uma contagem regressiva precisa. Modelos climáticos produzem resultados diferentes dependendo das condições atmosféricas, geológicas e biológicas utilizadas nos cálculos.
O ponto central é que a habitabilidade terrestre provavelmente terminará muito antes do capítulo final da evolução solar.
E cinco bilhões de anos depois chega o fim definitivo
Daqui a aproximadamente cinco bilhões de anos, o hidrogênio disponível no núcleo solar terá se esgotado.
O núcleo começará a se contrair enquanto as camadas externas se expandem enormemente, transformando o Sol em uma gigante vermelha.
Mercúrio e Vênus devem ser engolidos. O destino orbital exato da Terra é mais complexo e depende de fatores como a perda de massa do próprio Sol, mas existe a possibilidade de nosso planeta também ser engolfado. Mesmo que escape, sua superfície já não terá qualquer semelhança com a atual.
A essa altura, porém, isso provavelmente terá pouca importância para a vida terrestre.
Se os modelos estiverem aproximadamente corretos, nosso planeta terá se tornado estéril bilhões de anos antes.
A grande ironia é que o mesmo Sol que tornou possível praticamente toda a vida da superfície terrestre também determinará seu limite.
E o processo não precisará começar com uma explosão ou uma estrela gigantesca ocupando o céu. Pode começar silenciosamente, quando houver luz demais para que o próprio mecanismo climático que protege a Terra continue funcionando sem destruir as condições necessárias às plantas.
[Fonte: 1945]