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Ciência

A Terra pode se tornar inabitável muito antes de o Sol morrer e o primeiro sinal não será o que imaginamos

O fim da vida na Terra pode começar bilhões de anos antes da transformação do Sol em gigante vermelha, seguindo uma sequência lenta que começa justamente nas plantas.
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Tempo de leitura: 4 minutos

Quando pensamos no futuro distante da Terra, uma imagem costuma dominar: o Sol crescendo até se transformar em uma gigante vermelha e destruindo nosso planeta. Isso deve acontecer daqui a aproximadamente cinco bilhões de anos. Mas existe outro cenário capaz de tornar a Terra inabitável muito antes. E ele não começa com oceanos fervendo ou continentes queimando, mas com mudanças graduais na atmosfera que podem atingir primeiro a vegetação.

O Sol está ficando mais brilhante

A Terra pode se tornar inabitável muito antes de o Sol morrer e o primeiro sinal não será o que imaginamos
© Pexels

O Sol tem aproximadamente 4,6 bilhões de anos e está perto da metade de sua permanência na chamada sequência principal, período no qual produz energia principalmente pela fusão de hidrogênio em seu núcleo.

A cada segundo, enormes quantidades de hidrogênio são transformadas em hélio. Esse processo modifica lentamente as condições internas da estrela.

À medida que o hélio se acumula, o núcleo se contrai sob o efeito da gravidade. Com isso, temperatura e pressão aumentam e a fusão do hidrogênio restante se torna mais intensa.

O resultado parece contraditório: conforme envelhece, o Sol fica progressivamente mais luminoso.

Estima-se que atualmente ele seja aproximadamente 30% mais brilhante do que quando se formou. Durante essa etapa de sua evolução, sua luminosidade deve continuar aumentando em torno de 10% a cada bilhão de anos.

Para a Terra, essa mudança lenta pode ter consequências enormes.

Nosso planeta possui um mecanismo para compensar isso

A Terra pode se tornar inabitável muito antes de o Sol morrer e o primeiro sinal não será o que imaginamos
© Pexels

A Terra já enfrentou bilhões de anos de aumento da luminosidade solar sem perder seus oceanos.

Um dos motivos é o ciclo carbonato-silicato, um processo geológico de longo prazo que ajuda a regular a concentração de dióxido de carbono na atmosfera.

Ele funciona como uma espécie de termostato planetário.

Conforme o Sol fica mais luminoso, menos CO₂ é necessário para manter temperaturas adequadas. Processos envolvendo rochas, chuva, oceanos e atividade geológica retiram dióxido de carbono da atmosfera ao longo de escalas de tempo enormes.

Até certo ponto, isso ajuda a impedir um aquecimento excessivo.

Existe, porém, um limite para essa proteção.

Quanto mais brilhante o Sol se torna, menor precisa ser a concentração atmosférica de CO₂. E chega um momento em que essa solução cria outro problema: as plantas também precisam desse gás para sobreviver.

O primeiro colapso pode acontecer nas plantas

Grande parte das árvores e muitas das principais culturas agrícolas utiliza um mecanismo de fotossíntese conhecido como C3.

Quando a concentração de dióxido de carbono cair demais, essas plantas terão cada vez mais dificuldade para realizar fotossíntese.

Plantas C4, que incluem espécies como milho e cana-de-açúcar, utilizam o CO₂ de maneira mais eficiente e poderiam resistir por mais tempo. Mas elas também enfrentariam limites.

A consequência iria muito além de uma paisagem sem vegetação.

Menos fotossíntese significaria redução da biomassa vegetal e da produção de oxigênio, além do colapso progressivo das cadeias alimentares terrestres.

Animais complexos dependem direta ou indiretamente desses ecossistemas.

Assim, o início do fim da biosfera terrestre pode ser muito menos cinematográfico do que imaginar oceanos entrando em ebulição: as plantas começariam simplesmente a desaparecer.

Depois começa um ciclo difícil de interromper

O aumento contínuo da luminosidade solar também faria as temperaturas subirem.

Oceanos e outras reservas superficiais de água passariam a evaporar mais rapidamente. E existe um detalhe importante: o vapor de água é um poderoso gás de efeito estufa.

Quanto mais vapor houver na atmosfera, maior será a retenção de calor. Isso provoca mais aquecimento, que gera ainda mais evaporação.

Em determinado momento, a Terra poderia entrar em uma condição conhecida como efeito estufa úmido.

Hoje, as regiões superiores e frias da atmosfera dificultam a chegada de grandes quantidades de água às camadas mais altas. Com temperaturas suficientemente elevadas, essa barreira se torna menos eficiente.

A água poderia então alcançar altitudes onde a radiação ultravioleta solar quebraria suas moléculas em hidrogênio e oxigênio.

Por ser extremamente leve, parte do hidrogênio escaparia para o espaço.

E isso produziria uma mudança irreversível: sem aquele hidrogênio, a água perdida não poderia simplesmente voltar a formar os oceanos.

A Terra poderia acabar parecida com Vênus

Ao longo de enormes escalas de tempo, os oceanos diminuiriam até desaparecer.

A Terra azul que conhecemos seria substituída por um planeta seco e estéril, possivelmente mais parecido com Vênus do que com nosso mundo atual.

Quando isso acontecerá exatamente é muito mais difícil de determinar.

A estimativa de aproximadamente um bilhão de anos não representa uma contagem regressiva precisa. Modelos climáticos produzem resultados diferentes dependendo das condições atmosféricas, geológicas e biológicas utilizadas nos cálculos.

O ponto central é que a habitabilidade terrestre provavelmente terminará muito antes do capítulo final da evolução solar.

E cinco bilhões de anos depois chega o fim definitivo

Daqui a aproximadamente cinco bilhões de anos, o hidrogênio disponível no núcleo solar terá se esgotado.

O núcleo começará a se contrair enquanto as camadas externas se expandem enormemente, transformando o Sol em uma gigante vermelha.

Mercúrio e Vênus devem ser engolidos. O destino orbital exato da Terra é mais complexo e depende de fatores como a perda de massa do próprio Sol, mas existe a possibilidade de nosso planeta também ser engolfado. Mesmo que escape, sua superfície já não terá qualquer semelhança com a atual.

A essa altura, porém, isso provavelmente terá pouca importância para a vida terrestre.

Se os modelos estiverem aproximadamente corretos, nosso planeta terá se tornado estéril bilhões de anos antes.

A grande ironia é que o mesmo Sol que tornou possível praticamente toda a vida da superfície terrestre também determinará seu limite.

E o processo não precisará começar com uma explosão ou uma estrela gigantesca ocupando o céu. Pode começar silenciosamente, quando houver luz demais para que o próprio mecanismo climático que protege a Terra continue funcionando sem destruir as condições necessárias às plantas.

[Fonte: 1945]

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