A cada duas horas, um brasileiro chega a um pronto-socorro do SUS por intoxicação. A maioria sobrevive, mas centenas morrem todos os anos. Os dados, obtidos pela Abramede (Associação Brasileira de Medicina de Emergência), expõem um problema silencioso que ganhou força na última década e reacende o debate sobre fiscalização, políticas de prevenção e suporte psicológico.
Um problema que cresce em silêncio
Entre 2009 e 2024, o Sistema Único de Saúde registrou 45.511 atendimentos de emergência por envenenamentos que resultaram em internação — e, em muitos casos, em morte. Isso significa, em média, 4.551 registros por ano, ou 12,6 por dia. Nos últimos dois anos, os números bateram recorde: 5.523 casos em 2023 e 5.560 em 2024.
Segundo o estudo, 3.461 internações foram provocadas por intoxicações intencionais cometidas por terceiros, um dado que preocupa especialistas. Para a presidente da Abramede, Camila Lunardi, o problema vai além dos acidentes:
“Muitos episódios têm motivações emocionais, familiares ou até criminais. Não estamos falando apenas de descuidos domésticos.”
Casos chocantes que chamaram atenção
Nos últimos anos, o Brasil registrou episódios de grande repercussão envolvendo envenenamentos. Em dezembro de 2024, quatro pessoas morreram após comer um bolo contaminado com arsênio em Torres (RS). Poucas semanas depois, uma ceia de Réveillon em Parnaíba (PI) deixou cinco mortos.
Outros casos assustaram o país: um ovo de Páscoa envenenado no Maranhão, um açaí contaminado no Rio Grande do Norte — que resultou na morte de uma bebê de oito meses — e diversas ocorrências semelhantes que evidenciam a gravidade do problema.
O que mais intoxica os brasileiros
Embora os casos intencionais chamem atenção, a maioria das internações envolve acidentes domésticos. Entre as substâncias mais associadas a envenenamentos, destacam-se:
- Medicamentos analgésicos e anti-inflamatórios — 2.225 casos
- Pesticidas — 1.830 casos
- Álcool — 1.954 casos
- Anticonvulsivantes, sedativos e hipnóticos — 1.941 casos
Especialistas defendem maior regulamentação do comércio de substâncias e alertam para o risco do uso indiscriminado de medicamentos. “A prioridade é salvar vidas, não identificar a substância”, explica a emergencista Juliana Sartorelo. “Só depois de estabilizar o paciente é que investigamos o que causou a intoxicação.”
Onde os casos mais acontecem
O levantamento também mostra fortes desigualdades regionais. O Sudeste concentra quase metade dos atendimentos, com destaque para:
- São Paulo: 10.161 casos
- Minas Gerais: 6.154 casos
O Sul aparece em seguida, puxado por Paraná (3.764) e Rio Grande do Sul (3.278). Já o Nordeste registrou 7.080 casos, liderado por Bahia (2.274) e Pernambuco (949). O Centro-Oeste teve 5.161 registros, principalmente no Distrito Federal (2.206) e em Goiás (1.876). No Norte, o Pará lidera com 2.047 casos.
Quem mais sofre com as intoxicações
O perfil das vítimas mostra que homens representam a maioria dos casos (23.796 registros). A faixa etária mais atingida é a de adultos jovens entre 20 e 29 anos (7.313 casos), seguida de perto por crianças de 1 a 4 anos (7.204).
Nos extremos da vida, os números são menores: bebês de até um ano e idosos acima de 80 anos somaram 968 casos cada.
Desafios e caminhos para reduzir os riscos
Para os especialistas, os números reforçam a necessidade de políticas públicas mais eficazes, como:
- Fiscalização rígida da venda de medicamentos e pesticidas
- Combate ao comércio clandestino de produtos tóxicos
- Apoio psicológico para populações vulneráveis
- Campanhas educativas sobre o armazenamento seguro de produtos
“Não basta tratar os casos; é preciso prevenir. Isso passa por informação, regulação e suporte social”, conclui Camila Lunardi.
[ Fonte: CNN Brasil ]