Entre setembro e outubro de 2025, o país brilhou em 12 feiras internacionais de prestígio — entre elas Who’s Next e Première Classe (Paris), MICAM Milano (Itália) e Coterie (Nova York) — reunindo 163 marcas brasileiras. A presença maciça é fruto de projetos setoriais que a ApexBrasil tem impulsionado com entidades como Abest, Abit, Abicalçados e CICB.
Em 2024, o setor exportou US$ 2,6 bilhões, alcançando 217 mercados. É o reflexo de um trabalho que combina estratégia, parcerias e uma visão ousada de internacionalização. “Temos priorizado empresas com liderança feminina e baseadas nas regiões Norte e Nordeste”, explica Maria Paula Velloso, gerente da ApexBrasil.
Tradição artesanal que conquista o mundo

A marca paulistana Serpui é um exemplo clássico dessa força criativa. Há mais de 40 anos, suas bolsas artesanais encantam o mercado internacional. A fundadora, Serpui Marie, lembra que tudo começou em 1999, quando levou suas criações à feira Coterie, em Nova York. “Foi um sucesso imediato. Logo depois, fomos para Paris e conquistamos compradores do mundo todo”, conta.
O segredo, segundo ela, está no equilíbrio entre paciência, arte e brasilidade. “As pessoas respeitam a moda feita no Brasil. Não é mais vista como exótica, mas como algo sofisticado. Nosso diferencial está nas histórias que as peças contam — alças em formato de banana, tucano, pedras brasileiras. Ser brasileiro é o que gera o desejo.”
Com design autoral e acabamento impecável, a marca tornou-se sinônimo de elegância tropical, mostrando que o feito à mão pode dialogar com o luxo global.
Sy&Vie: persistência e identidade
A franco-brasileira Sylvie Quartara, criadora da marca Sy&Vie, começou sua internacionalização em plena pandemia, em 2019. A jornada foi lenta, mas constante. “Exportar é um trabalho de formiguinha. O comprador te observa, volta e só depois confia”, explica.
Sylvie começou com calçados há quase três décadas e, em 2020, expandiu para bolsas. Hoje, percebe uma mudança clara na percepção global: “Há 25 anos, o made in Brazil era quase um estigma. Agora é um selo de valor. As pessoas querem saber quem faz, de onde vem. Isso me enche de orgulho.”
Com apoio da ApexBrasil e participação em feiras internacionais, a Sy&Vie aprendeu a adaptar produtos para diferentes mercados. “Os europeus amam madeira natural nas bolsas, os americanos buscam leveza. O segredo é manter autenticidade, mesmo com ajustes.”
Panier: o orgulho que nasce em Brasília
No centro do país, a Panier Brasil, fundada em Brasília por Anna Chaves e Maria Laura, mostra como propósito e sustentabilidade podem caminhar juntos. Criada em 2015, a marca produz bolsas artesanais com fibras naturais como palha, sisal e vime — sempre com um toque contemporâneo.
“A Parnier nasceu de um desejo de conciliar maternidade e trabalho. Começamos no meu apartamento, e logo conquistamos o público de Brasília e depois o Brasil”, conta Anna.
A internacionalização veio há cerca de um ano, guiada por práticas ESG e uma política de produção sob demanda. A empresa reutiliza sobras, compensa carbono e emprega majoritariamente mulheres — especialmente mães. “Queremos que elas possam trabalhar sem abrir mão de estar com seus filhos. Esse é o propósito que nos move.”
O apoio da ApexBrasil, Sebrae, CNI e Fibra foi crucial. “Participar de feiras internacionais aumentou nossa visibilidade e fez o público brasileiro valorizar ainda mais o que é feito aqui. O brasileiro precisa se orgulhar do que tem a nossa cara.”
Sobre os desafios culturais, Anna observa: “Os brasileiros amam cores, mas em países como Japão e Chile é preciso adaptar a paleta. Exportar não é só vender, é criar uma relação de confiança e constância.”
Design, cultura e propósito
Mais do que produtos, essas marcas exportam narrativas. Cada bolsa, tecido ou acessório carrega uma identidade que une tradição artesanal e inovação sustentável. Para Clarissa Furtado, gerente de competitividade da ApexBrasil, “a força da moda brasileira está na criatividade e no design autoral. Não competimos em preço, competimos em originalidade.”
A pesquisadora de moda Tetê Laudares reforça que o país vive um momento de reposicionamento. “O olhar estrangeiro se encanta pela alma criativa e pela simbologia do trabalho manual brasileiro. A arte popular e os materiais naturais ganham enorme valor no exterior.”
Desafios e próximos passos
Apesar dos avanços, ainda há barreiras a superar. Segundo Laudares, é preciso fortalecer a cadeia produtiva e diversificar apoios. “O Brasil precisa ampliar sua capacidade de entrega e elevar o padrão sem perder autenticidade. Há espaço para mais vozes, mais estilos, mais pluralidade nas vitrines do mundo.”
Ela destaca também a importância da cooperação internacional — inclusive com países como a Itália — para desenvolver o setor. “Esse diálogo precisa se expandir para que o design brasileiro continue evoluindo e ganhe espaço em novos mercados.”
Um futuro que fala português
Serpui, Sy&Vie e Parnier representam um novo capítulo da moda brasileira: maduro, sustentável e global. Elas mostram que a combinação de criatividade, propósito e persistência pode transformar pequenas oficinas em marcas de desejo internacional.
Mais do que nunca, o mundo está pronto para a estética brasileira — e o Brasil, preparado para ocupar seu lugar nas passarelas globais.
[Fonte: Correio Braziliense]