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Lula e Trump passam três horas na Casa Branca, falam de tarifas, Pix, ONU e tentam reaproximar Brasil e Estados Unidos

O encontro entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump marcou um raro momento de aproximação entre dois líderes de perfis políticos opostos. Em uma reunião longa e carregada de simbolismo, os presidentes discutiram comércio, tensões internacionais e até a reforma da ONU, em meio a negociações delicadas que podem redefinir a relação entre Brasília e Washington nos próximos meses.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, realizada nesta quinta-feira na Casa Branca, colocou frente a frente dois líderes historicamente associados a campos políticos opostos. Ainda assim, o tom adotado por ambos foi de cordialidade, pragmatismo e disposição para ampliar o diálogo bilateral.

Durante cerca de três horas, Lula e Trump discutiram comércio, tarifas, política internacional e o futuro das relações entre Brasil e Estados Unidos. O encontro ocorreu em formato de visita de trabalho, considerado mais direto e focado em negociações específicas do que uma visita de Estado tradicional.

Tarifas comerciais e o impasse envolvendo o Pix

Um dos temas mais sensíveis da conversa foi a relação comercial entre os dois países. Lula buscou convencer Trump de que as tarifas e investigações abertas pelos Estados Unidos contra o Brasil precisam ser revistas.

A principal tensão envolve a chamada Seção 301, mecanismo usado pelo governo americano para investigar práticas consideradas prejudiciais ao comércio dos EUA. O Pix, sistema de pagamentos instantâneos criado pelo Banco Central brasileiro, entrou no radar dos americanos em meio a discussões sobre competitividade e mercado financeiro.

Segundo Lula, ele propôs a criação de um grupo de trabalho bilateral para que representantes dos dois governos discutam divergências comerciais ao longo dos próximos 30 dias. O presidente brasileiro argumentou ainda que os Estados Unidos acumulam superávit comercial em relação ao Brasil há anos, além de destacar que a tarifa média brasileira sobre produtos americanos gira em torno de 2,7%.

Após o encontro, Trump afirmou que comércio e tarifas estiveram no centro das negociações e indicou que novas conversas devem acontecer nos próximos meses.

Lula pressiona por mudanças na ONU

Outro eixo importante da reunião foi a política internacional. Lula voltou a defender uma ampla reforma na Organização das Nações Unidas, especialmente no Conselho de Segurança.

O presidente brasileiro argumentou que a estrutura atual da ONU já não representa o equilíbrio geopolítico contemporâneo. Para ele, o modelo criado após a Segunda Guerra Mundial perdeu capacidade de refletir o peso político e econômico de países emergentes.

Lula citou diretamente líderes como Trump, Xi Jinping, Vladimir Putin, Emmanuel Macron e Keir Starmer como figuras com responsabilidade histórica para liderar uma reformulação do organismo internacional.

O Brasil defende há décadas uma ampliação do Conselho de Segurança e busca ocupar um assento permanente. Durante a conversa, Lula reforçou essa posição ao afirmar que “a geopolítica de 2026 não é a geopolítica de 1945”.

Irã, Cuba e Venezuela entraram na conversa

As tensões internacionais também tiveram espaço relevante na reunião. Lula afirmou ter defendido uma solução diplomática para o conflito envolvendo o Irã, deixando claro que acredita mais em negociação do que em escaladas militares.

Segundo o presidente brasileiro, Trump demonstrou uma visão mais otimista sobre o cenário no Oriente Médio, enquanto Lula alertou para os riscos de novos confrontos.

Cuba também apareceu nas discussões. Lula disse ter colocado o Brasil à disposição para ajudar em eventuais negociações futuras envolvendo a ilha caribenha. De acordo com o petista, Trump afirmou que não possui intenção de invadir Cuba.

Já sobre a Venezuela, Lula comentou a recente captura de Nicolás Maduro por forças americanas e afirmou esperar que o país consiga encontrar estabilidade política e econômica para melhorar a vida da população venezuelana.

Uma relação improvável, mas amistosa

Apesar das diferenças ideológicas evidentes, Lula descreveu o encontro como positivo e afirmou que houve “química” entre os dois presidentes.

Durante coletiva de imprensa, o brasileiro chegou a brincar ao comparar o encontro a uma espécie de “amor à primeira vista”. Também comentou que pediu para Trump sorrir mais durante a reunião, dizendo que o americano “fica melhor sorrindo do que de cara feia”.

Os dois líderes já haviam se encontrado anteriormente em eventos internacionais, incluindo a Assembleia Geral da ONU em Nova York e uma reunião na Malásia em 2025. Ainda assim, este foi o encontro mais longo e politicamente relevante entre ambos até agora.

Trump elogia Lula e fala em ampliar comércio

Horas depois da reunião, Trump voltou a comentar o encontro durante uma visita ao Lincoln Memorial, em Washington. O republicano classificou Lula como “um homem bom” e “um cara inteligente”.

O presidente americano também afirmou que pretende ampliar o volume de negócios entre Brasil e Estados Unidos e destacou que as equipes dos dois países continuarão trabalhando em negociações bilaterais.

O tom adotado pelos dois governos sugere uma tentativa de reduzir atritos e abrir um novo ciclo de cooperação. Ainda existem divergências importantes, especialmente em temas comerciais e geopolíticos, mas a reunião deixou claro que Brasília e Washington querem manter canais de diálogo abertos em um cenário internacional cada vez mais instável.

 

[ Fonte: CNN Brasil ]

 

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