Quase todo o tráfego de dados do planeta passa por cabos submarinos. Agora, Google, Meta, Microsoft e Amazon dominam essa infraestrutura crítica, antes nas mãos das telecomunicações. O avanço das Big Techs promete eficiência, mas expõe riscos geopolíticos, especialmente para a Europa, que depende cada vez mais de empresas estrangeiras para manter sua conectividade.
De operadoras tradicionais às Big Techs
Por mais de um século, os cabos submarinos foram administrados por consórcios de telecomunicações. O custo elevado forçava parcerias entre operadoras, que dividiam investimentos e capacidade de transmissão. Mas a última década trouxe uma virada: empresas como Google, Meta, Microsoft e Amazon passaram a financiar diretamente novas rotas, assumindo controle estratégico sobre a espinha dorsal da internet.
O Google já é dono integral de sistemas como Curie, Dunant e Grace Hopper, que conectam continentes sem intermediários. A Meta lidera o megaprojeto Waterworth, com 40 mil km de extensão, ligando os Estados Unidos a mercados do hemisfério sul. Em apenas quatro anos, as Big Techs financiaram cerca de 25% dos novos cabos instalados no mundo, consolidando sua presença em um setor antes restrito às empresas de telecomunicações.
Europa: a região mais vulnerável
A Europa é o continente mais exposto a essa nova realidade. Cerca de 66% da sua conectividade externa depende de cabos submarinos, e grande parte do tráfego europeu é processado em centros de dados localizados nos Estados Unidos. Isso torna a região altamente dependente de multinacionais estrangeiras para manter seu fluxo digital.
Governos como o da França e da Itália tentam fortalecer empresas locais, como a Alcatel Submarine Networks e a Sparkle, mas a falta de infraestrutura própria — como navios rompe-gelo e embarcações especializadas em reparos — limita sua autonomia. Além disso, o marco regulatório europeu permanece fragmentado, já que muitos países ainda não ratificaram sequer a antiga Convenção de Cabos de 1884.

Segurança em xeque
Os cabos submarinos também viraram alvo de disputas geopolíticas. A Rússia intensificou patrulhas em áreas estratégicas, enquanto a China desenvolveu navios capazes de cortar cabos a profundidades superiores a 4.000 metros. Com apenas 80 embarcações no mundo dedicadas à instalação e manutenção, a capacidade de resposta a incidentes é mínima.
Esse cenário levanta preocupações sérias: um único ataque ou falha em pontos-chave poderia comprometer serviços financeiros, comunicações militares e até operações de inteligência artificial que dependem de tráfego em tempo real.
O futuro da internet está no fundo do mar
O avanço das Big Techs nos cabos submarinos não é apenas uma questão de expansão, mas de poder. Controlar a camada física da internet permite reduzir custos e ganhar autonomia em crises globais. No entanto, para a Europa, isso significa o risco de perder soberania digital e enfrentar a possibilidade de um “splinternet” — uma rede fragmentada por blocos políticos.
Com o tráfego intercontinental dobrando a cada dois anos, impulsionado pelo 5G, pela nuvem distribuída e pela inteligência artificial, novas rotas, inclusive polares, já estão em estudo. A grande dúvida é se a Europa conseguirá reduzir sua dependência antes que a internet se torne ainda mais vulnerável a pressões externas.