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Cada vez mais motoristas de aplicativo deixam o transporte de passageiros para atuar no setor de entregas

Com mais previsibilidade, ganhos maiores e rotinas menos desgastantes, essa virada está alterando o cenário da mobilidade urbana e revelando novos caminhos dentro da economia digital brasileira.
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Tempo de leitura: 5 minutos

O que antes era considerado o “emprego dos sonhos” para quem buscava flexibilidade e autonomia, hoje se torna um desafio diário. Motoristas de aplicativo têm migrado, de forma crescente, para o setor de entregas. A mudança, que começou discretamente, agora se espalha por grupos, ruas e aplicativos — e revela um novo perfil de profissional em busca de rendimento, organização e qualidade de vida.

De corridas imprevisíveis a rotas planejadas

Cada vez mais motoristas de aplicativo deixam o transporte de passageiros para atuar no setor de entregas
© Pexels

Na quinta-feira, por volta das 14h30, Deives Lael, de 35 anos, estacionava seu Fiat Mobi vazio em um centro de distribuição no 4º Distrito. Quinze minutos depois, o carro saía lotado com 54 pacotes. Era mais uma jornada como entregador para a Shopee — função que ele assumiu após sete anos como motorista de aplicativo.

Segundo Lael, o novo trabalho trouxe mais controle, previsibilidade e retorno financeiro. Em vez de rodar entre 300 e 500 quilômetros por dia para obter uma renda razoável com passageiros, agora percorre cerca de 100 quilômetros e chega a faturar R$ 3,4 mil por semana. O segredo, segundo ele, está na constância das entregas e no planejamento das rotas.

Os relatos como o de Lael se multiplicam em grupos de WhatsApp e conversas entre motoristas. De acordo com Carina Trindade, presidente do Simtrapli-RS (Sindicato dos Motoristas em Transportes Privados por Aplicativos do RS), a migração para o setor de entregas se intensificou nos últimos seis meses. O motivo? Menos desgaste, menos conflito com passageiros e mais estabilidade nos ganhos.

Rendimento mais alto e menos desgaste

Cada vez mais motoristas de aplicativo deixam o transporte de passageiros para atuar no setor de entregas
© Pexels

Ao prestar serviços como microempreendedor individual para plataformas como Shopee, Mercado Livre e Amazon, motoristas como Lael operam com metas claras e rotas definidas. Ele trabalha em média 12 horas por dia, divididas em dois turnos, mas afirma que o esforço compensa, principalmente quando comparado ao antigo modelo de transporte de passageiros, onde chegava a trabalhar até 18 horas por dia.

O motorista destaca que, nas entregas, os valores pagos são previamente definidos, o que elimina surpresas desagradáveis. Já no transporte de passageiros, o retorno podia variar por fatores como clima, eventos e até o humor dos clientes.

Para exemplificar, Lael relata que, em um dia puxado, entregou 118 pacotes pela manhã e outros 54 à tarde — tudo isso com rotas bem mapeadas e dentro de uma lógica que permite organização e previsibilidade. Atualmente com um carro alugado, ele já pensa em investir em um veículo de carga leve para aumentar sua capacidade e, consequentemente, sua renda.

Um reflexo direto da nova lógica de consumo

A ascensão do setor de entregas não ocorre por acaso. Desde a pandemia, o hábito de consumir por meio de plataformas digitais ganhou força e alterou o perfil da logística urbana. Empresas como Shopee, Amazon e Mercado Livre investiram pesadamente em centros de distribuição e logística própria, criando uma rede de entregadores que conecta seus produtos aos clientes em tempo recorde.

Segundo a colunista Giane Guerra, da GZH, a Shopee conta com três centros logísticos no Rio Grande do Sul, somando mais de 37 mil metros quadrados. O Mercado Livre opera com um centro de 7,1 mil metros quadrados no Estado. Já a Amazon anunciou recentemente a chegada do Amazon Flex ao Brasil — uma plataforma que permite entregas diretas por motoristas cadastrados.

Para o professor Moisés Waismann, coordenador do Observatório Unilasalle: Trabalho, Gestão e Políticas Públicas, o avanço das entregas é resultado de transformações no consumo e na mobilidade. Ele destaca que, após a pandemia e enchentes recentes, a população passou a consumir mais via aplicativos, modificando o fluxo urbano e a dinâmica do trabalho.

Uma nova rotina com mais autonomia

Ytalo Schaidhauer, de 29 anos, também deixou o transporte de passageiros para se dedicar às entregas, principalmente em Guaíba e arredores. Segundo ele, além do ganho financeiro, o novo trabalho proporciona menos estresse e maior controle sobre horários e trajetos. Ao evitar congestionamentos e atuar em bairros mais tranquilos, Ytalo consegue alcançar rendimentos maiores com menor desgaste físico e do veículo.

Ele compara: com R$ 50 de combustível, conseguia gerar entre R$ 150 e R$ 200 com passageiros, rodando mais de 100 quilômetros. Hoje, com o mesmo valor de combustível, fatura até R$ 300, percorrendo apenas 20 a 30 quilômetros.

Karoline Marques Acosta, de 40 anos, também trocou de ramo no fim de 2024. Mãe de uma menina de nove anos, ela viu nas entregas uma oportunidade de organizar melhor seu tempo e participar mais ativamente da vida da filha. Moradora de Canoas, ela relata que hoje consegue acompanhar a rotina da filha e ainda manter um rendimento estável.

Apesar da migração, nenhum dos profissionais entrevistados abandonou completamente as plataformas de transporte de passageiros. As corridas ainda servem como complemento para cobrir gastos imediatos, como combustível, já que o pagamento das entregas costuma ocorrer em datas fixas.

Sustentabilidade e riscos no longo prazo

O professor Waismann avalia que, em um primeiro momento, a expansão do setor de entregas tem impacto positivo na economia, ao movimentar mais dinheiro e gerar oportunidades. No entanto, ele alerta para os riscos de saturação e precarização desse mercado a médio e longo prazo, como já ocorreu com o transporte por aplicativo.

Segundo ele, o modelo atual depende de profissionais registrados como MEI, o que oferece alguma segurança jurídica, mas ainda carece de políticas de proteção mais robustas. Ele cita o exemplo do transporte por aplicativo, que há poucos anos era uma oportunidade promissora e hoje já apresenta sinais de esgotamento e queda de rentabilidade para muitos motoristas.

Carina Trindade, do Simtrapli-RS, destaca que, apesar dos ganhos iniciais e da organização aparente, o modelo precisa de atenção. Ela aponta que a formalização via MEI é um avanço, mas não impede a precarização de longo prazo se não houver políticas públicas e atuação sindical para equilibrar as relações entre trabalhadores e plataformas.

Um setor em transformação acelerada

A reportagem procurou Amazon, Shopee e Mercado Livre para obter dados sobre o crescimento do número de motoristas parceiros em nível estadual e nacional. Até o momento, apenas a Shopee respondeu, informando que conta com cerca de 45 mil parceiros em todo o Brasil, mas não revelou números específicos do Rio Grande do Sul.

O que se desenha é um novo ciclo de transição no trabalho digital: a troca do passageiro pelo pacote, do trajeto imprevisível pela rota planejada, da insegurança diária por metas mais previsíveis. Essa mudança revela não apenas uma nova realidade econômica, mas também uma busca cada vez maior por autonomia, dignidade e equilíbrio em um mundo em constante movimento.

[Fonte: GZH]

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