Pular para o conteúdo
Ciência

CAR-T no Brasil: a terapia que reprograma o sistema imune contra o câncer avança e pode ampliar o acesso até 2030

O Brasil acelera o desenvolvimento da terapia CAR-T, que transforma células do próprio paciente em armas contra o câncer. Com produção nacional e integração ao SUS, pesquisadores buscam reduzir custos e ampliar o acesso — enquanto resultados iniciais já indicam respostas promissoras.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

 A luta contra o câncer ganhou um novo capítulo com as terapias celulares. Entre elas, a CAR-T desponta como uma das mais inovadoras da medicina moderna. No Brasil, centros de pesquisa avançam na adaptação dessa tecnologia para a realidade local, com o objetivo de torná-la mais acessível. A combinação entre ciência, sistema público e produção nacional pode transformar o país em referência na América Latina.

O que é a terapia CAR-T e como ela funciona

Coração Das Células
© FreePik

A terapia CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell) é um tratamento que utiliza células de defesa do próprio paciente para combater o câncer.

O processo funciona em etapas:

  • Coleta das células T do paciente
  • Modificação genética em laboratório
  • Expansão dessas células
  • Reinfusão no organismo

Após esse processo, as células passam a reconhecer e atacar especificamente as células tumorais.

É uma abordagem altamente personalizada e considerada um dos avanços mais promissores da oncologia.

O desafio: custo e tempo

Apesar do potencial, a terapia CAR-T enfrenta obstáculos importantes. Nos modelos tradicionais, as células precisam ser enviadas para o exterior para processamento.

Isso encarece o tratamento e aumenta o tempo entre coleta e aplicação — que pode chegar a até 50 dias. Para pacientes com câncer agressivo, esse intervalo pode comprometer o sucesso da terapia.

O avanço brasileiro: produção local

Nesse cenário, o Brasil começa a mudar o jogo.

O Hospital Israelita Albert Einstein lidera um dos projetos mais avançados do país, com foco na produção nacional da terapia.

O estudo clínico CARTHIAE, aprovado pela Anvisa, utiliza o modelo “point-of-care”. Isso significa que todo o processo — da coleta à reinfusão — ocorre dentro da própria instituição.

O resultado é uma redução significativa no tempo: cerca de 12 dias entre a retirada e a aplicação das células.

Resultados iniciais animadores

Nova quimioterapia é 20 mil vezes mais potente contra o câncer
© Pexels

Até agora, o estudo tratou pacientes com doenças como linfomas e leucemias.

Os dados preliminares indicam uma taxa de resposta de cerca de 80%, com efeitos colaterais semelhantes aos observados em tratamentos internacionais.

A rapidez no processamento é apontada como um dos principais diferenciais clínicos, especialmente em casos de progressão rápida da doença.

Integração com o SUS

Um dos pontos mais importantes do avanço brasileiro é a conexão com o sistema público de saúde.

O projeto faz parte do Proadi-SUS, iniciativa do Ministério da Saúde que reúne hospitais de excelência para desenvolver tecnologias estratégicas.

A ideia é que, no futuro, a terapia CAR-T esteja disponível tanto para pacientes do sistema público quanto privado, com custos reduzidos.

Um ecossistema em construção

O desenvolvimento da CAR-T no Brasil não se limita a uma única instituição. Diversos centros participam dessa construção:

  • Universidade de São Paulo, com estudos clínicos e casos pioneiros
  • Instituto Butantan, em parceria internacional
  • Fiocruz e INCA, focados em vetores virais
  • Universidade Federal do Ceará, com pesquisas em andamento

Essa colaboração fortalece a base científica e acelera o desenvolvimento da tecnologia no país.

Novas aplicações além do câncer

Embora o foco atual seja o tratamento de cânceres hematológicos, a CAR-T pode ir além.

Pesquisas em andamento exploram seu uso em:

  • Mieloma múltiplo
  • Tumores sólidos, como câncer de pulmão
  • Doenças autoimunes, como miastenia gravis

Esses estudos ampliam o potencial da tecnologia e indicam um futuro com aplicações ainda mais diversas.

O futuro da CAR-T no Brasil

No cenário internacional, já existem estudos que sugerem remissões duradouras em até 80% dos pacientes após cinco anos.

A expectativa é que resultados semelhantes possam ser alcançados no Brasil até 2030, especialmente com o uso precoce da terapia ou em combinação com outros tratamentos.

Um passo rumo à autonomia tecnológica

O avanço da CAR-T no Brasil vai além da medicina. Ele representa um movimento estratégico de desenvolvimento científico e soberania tecnológica.

Com produção local, integração ao SUS e colaboração entre instituições, o país começa a construir uma base sólida para terapias avançadas.

Se esse caminho se consolidar, o Brasil pode deixar de ser apenas consumidor de tecnologia médica — e passar a ser protagonista na sua criação e aplicação.

 

[ Fonte: The Conversation ]

 

Partilhe este artigo

Artigos relacionados