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Tecnologia

Carros que dirigem quase sozinhos: por que a Europa ainda não chegou a um acordo com a Tesla?

A Tesla intensificou sua campanha para expandir uma tecnologia de direção assistida na Europa. Entretanto, questionamentos sobre segurança e pressões regulatórias estão complicando seus planos.
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Tempo de leitura: 5 minutos

Imagine entrar em um carro, escolher o destino e deixar que a tecnologia controle o volante, acelere, freie e faça conversões durante o percurso. Essa é a experiência que a Tesla pretende oferecer a milhões de motoristas europeus. Mas, enquanto a empresa de Elon Musk tenta acelerar a expansão de seu sistema de direção assistida, uma disputa envolvendo reguladores, pesquisadores e autoridades de trânsito levanta dúvidas sobre os limites dessa tecnologia.

A ofensiva da Tesla para conquistar as estradas europeias

A Tesla está intensificando seus esforços para obter autorização para o Full Self-Driving (FSD), seu sistema avançado de assistência à direção, em todos os 27 países da União Europeia.

A tecnologia permite que veículos realizem diversas manobras automaticamente, incluindo mudanças de faixa, conversões, controle de velocidade e navegação por ruas urbanas. Apesar do nome, que significa direção totalmente autônoma, o sistema exige supervisão constante do motorista.

Segundo uma investigação publicada pela Reuters em outubro de 2026, a fabricante adotou uma estratégia que combina negociações diretas com autoridades, apresentação de estudos próprios e mobilização de consumidores nas redes sociais.

O objetivo é convencer os reguladores de que a tecnologia pode melhorar a segurança viária e reduzir acidentes.

A empresa já conquistou autorizações nacionais em diferentes países europeus, incluindo Holanda, Bélgica e República Tcheca. Entretanto, essas decisões não representam uma liberação automática para todo o continente.

A aprovação europeia depende de um procedimento regulatório específico, no qual os Estados-membros precisam avaliar se a tecnologia atende aos requisitos de segurança.

E é justamente nesse processo que surgiram as principais controvérsias.

Uma investigação revelou pressões sobre os reguladores

Carros que dirigem quase sozinhos: por que a Europa ainda não chegou a um acordo com a Tesla?
© Pexels

A Holanda tornou-se uma peça fundamental na estratégia da Tesla ao conceder uma autorização provisória para o sistema em abril de 2026.

A decisão abriu caminho para que outros países analisassem a possibilidade de permitir o funcionamento do FSD em seus territórios.

Entretanto, uma investigação da Reuters revelou correspondências nas quais a Tesla pressionava o órgão regulador holandês RDW para modificar aspectos do processo de avaliação.

Segundo a reportagem, a fabricante tentou influenciar os critérios utilizados nos testes e reduzir determinadas exigências técnicas.

Especialistas em regulamentação de veículos autônomos consultados pela agência demonstraram preocupação com a proximidade entre a empresa e o órgão responsável pela fiscalização.

O RDW rejeitou as críticas e afirmou que suas avaliações são conduzidas de maneira objetiva e independente.

O regulador também explicou que o diálogo com fabricantes faz parte dos procedimentos habituais de homologação e não compromete a análise de segurança.

Mesmo assim, o episódio ampliou o debate sobre a influência das empresas de tecnologia nas decisões relacionadas à segurança pública.

Os números de segurança apresentados pela Tesla estão sob questionamento

Outro ponto controverso envolve os estudos utilizados pela fabricante para demonstrar os benefícios do Full Self-Driving.

A Tesla afirma que seu sistema pode reduzir significativamente a ocorrência de colisões. Entretanto, pesquisadores independentes questionam a metodologia empregada para sustentar essas conclusões.

Sete especialistas em segurança viária consultados pela Reuters identificaram limitações importantes nos dados apresentados.

Entre os problemas apontados está a utilização de indicadores indiretos, como frenagens bruscas e acionamentos de buzina, em vez de resultados diretamente relacionados à ocorrência de acidentes.

Além disso, parte das avaliações envolveu motoristas profissionais, cujos comportamentos podem não representar adequadamente os usuários comuns.

Essas limitações dificultam determinar se o sistema realmente proporciona os benefícios anunciados em condições variadas de trânsito.

Na página oficial do Full Self-Driving, a própria Tesla esclarece que os recursos atualmente disponíveis exigem supervisão ativa e não transformam o veículo em um automóvel totalmente autônomo.

Isso significa que o motorista continua responsável por acompanhar a estrada e intervir sempre que necessário.

Um recurso específico está dividindo os países europeus

Além das divergências sobre os estudos de segurança, existe uma questão técnica que vem dificultando a aprovação continental.

O sistema da Tesla pode permitir que veículos ultrapassem determinados limites de velocidade em até 10%, dependendo das configurações e condições de utilização.

Essa possibilidade provocou objeções de autoridades de países como França e Suécia.

Os críticos argumentam que permitir velocidades superiores às estabelecidas pode criar riscos adicionais e contrariar políticas destinadas à redução de acidentes.

Por outro lado, representantes favoráveis à tecnologia defendem uma análise mais ampla de seu comportamento nas condições reais de circulação.

A Alemanha passou a apoiar uma aceleração do processo de aprovação, embora ainda existam discussões sobre responsabilidade legal e requisitos técnicos.

Diante dessas divergências, a votação que poderia ampliar a autorização para toda a União Europeia foi adiada.

A expectativa é que uma decisão seja considerada somente a partir de dezembro de 2026, sem garantia de aprovação nessa data.

Por que a aprovação é tão importante para Elon Musk?

A disputa regulatória também possui uma dimensão comercial.

A Tesla enfrenta concorrência crescente no mercado europeu de veículos elétricos, especialmente de fabricantes chinesas que vêm ampliando sua presença internacional.

Nesse cenário, o Full Self-Driving representa uma oportunidade de diferenciar os automóveis da marca e ampliar receitas por meio de serviços digitais.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a tecnologia é oferecida por assinatura mensal, criando uma fonte de receita adicional para a fabricante.

A empresa também aposta na inteligência artificial e na automação como pilares de seus negócios futuros.

Entretanto, a expansão dessas tecnologias depende não apenas de avanços técnicos, mas também da confiança dos consumidores e da aprovação das autoridades.

A controvérsia europeia evidencia uma questão que ultrapassa os interesses da Tesla: como permitir a evolução dos sistemas de direção automatizada sem comprometer os padrões de segurança?

Para os motoristas, a distinção permanece fundamental. Um veículo capaz de executar várias tarefas sozinho ainda não é necessariamente capaz de dirigir sem supervisão humana.

Enquanto essa diferença existir, a responsabilidade de quem está ao volante continuará sendo parte central do debate.

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