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Ciência

Centenas de missões espaciais aconteceram, mas ninguém estudou este detalhe da saúde feminina

Centenas de missões espaciais ajudaram a desvendar inúmeros mistérios do corpo humano. Ainda assim, uma questão básica sobre a saúde feminina só agora começará a ser investigada.
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Tempo de leitura: 4 minutos

A exploração espacial revolucionou o conhecimento sobre o funcionamento do organismo humano em ambientes extremos. Cientistas já estudaram os efeitos da microgravidade sobre ossos, músculos, coração e até o cérebro. Porém, existe um aspecto da saúde feminina que permaneceu praticamente ignorado desde o início da corrida espacial. Agora, uma nova missão pretende preencher essa lacuna histórica e pode mudar a forma como futuras astronautas serão preparadas para viagens de longa duração.

Uma pergunta ignorada durante décadas começa a ganhar atenção

Desde que a primeira mulher viajou ao espaço, em 1963, mais de uma centena de astronautas já participaram de missões orbitais e suborbitais. Apesar desse histórico, nunca foi realizado um estudo desenvolvido especificamente para entender como a microgravidade influencia o ciclo menstrual.

Essa ausência chama a atenção porque a medicina espacial evoluiu significativamente nas últimas décadas. Hoje, pesquisadores conhecem com bastante precisão os impactos da falta de gravidade sobre a massa muscular, a densidade óssea, o sistema cardiovascular, o sono e diversos outros processos fisiológicos. No entanto, quando o assunto é saúde menstrual, as informações disponíveis continuam extremamente limitadas.

Grande parte do conhecimento atual vem de relatos individuais feitos por astronautas ao longo dos anos, e não de pesquisas planejadas para responder questões científicas específicas. Embora várias mulheres tenham menstruado normalmente durante missões espaciais, esse número ainda é pequeno demais para permitir conclusões definitivas.

É justamente essa lacuna que motivou a criação da missão Operation Period-01, prevista para acontecer em 2027. O projeto reunirá as pesquisadoras Manju Bangalore e Priya Abiram em um voo suborbital realizado em parceria com a Virgin Galactic e o laboratório Redshift.

O objetivo é simples, mas extremamente importante: observar, pela primeira vez, como o ciclo menstrual responde em condições reais de microgravidade. Antes da missão, parte da pesquisa já foi realizada em laboratório utilizando simulações, mas os cientistas acreditam que somente um voo espacial poderá fornecer dados capazes de validar esses modelos.

Uma das principais dúvidas envolve a forma como os fluidos corporais se comportam fora da gravidade terrestre. Como a microgravidade altera significativamente a distribuição de líquidos pelo organismo, os pesquisadores querem descobrir se isso também interfere no fluxo menstrual ou em outros processos relacionados ao ciclo hormonal.

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© Magnific

O estudo pode transformar futuras missões espaciais

Embora a fase de microgravidade durante um voo suborbital dure apenas alguns minutos, os pesquisadores acreditam que esse período será suficiente para registrar informações inéditas sobre o funcionamento do organismo feminino.

Os resultados poderão contribuir diretamente para o planejamento de futuras missões de longa duração, especialmente aquelas destinadas à Lua e, futuramente, a Marte. Em viagens que podem durar meses ou até anos, compreender todos os aspectos da saúde da tripulação deixa de ser um detalhe e passa a ser um fator essencial para a segurança da missão.

A pesquisa também ajuda a desfazer antigos mitos que acompanharam as primeiras astronautas. Durante as décadas de 1970 e 1980, alguns especialistas chegaram a levantar hipóteses sem comprovação científica, sugerindo que a ausência de gravidade poderia provocar complicações relacionadas ao fluxo menstrual. Com o passar dos anos, essas preocupações perderam força justamente por falta de evidências que as sustentassem.

Outro episódio marcante aconteceu em 1983, quando a astronauta Sally Ride foi questionada sobre quantos absorventes seriam necessários para uma missão de apenas uma semana. O episódio se tornou um símbolo do desconhecimento existente na época sobre as necessidades específicas das mulheres no espaço.

Hoje, muitas astronautas optam por utilizar métodos hormonais para suspender temporariamente a menstruação durante as missões. Essa escolha costuma facilitar aspectos operacionais, incluindo o funcionamento dos sistemas de reciclagem de água das espaçonaves, embora a menstruação em si não represente um impedimento para realizar atividades espaciais.

Os benefícios podem chegar muito além da exploração espacial

Os pesquisadores esperam que os resultados da Operation Period-01 ofereçam informações suficientes para que futuras astronautas possam decidir, de maneira mais consciente, qual estratégia desejam adotar durante uma missão espacial.

Mas o impacto do estudo pode ultrapassar os limites da exploração espacial. Entender como o organismo feminino reage em condições extremas também pode fornecer novas pistas para pesquisas relacionadas à endometriose, à síndrome dos ovários policísticos e a outras condições ginecológicas que ainda apresentam muitas perguntas sem resposta.

Além disso, a missão representa um avanço importante na inclusão da saúde feminina dentro da medicina espacial, uma área que historicamente concentrou boa parte de seus estudos em dados obtidos com homens.

Mais de seis décadas após a histórica viagem de Valentina Tereshkova, a exploração espacial continua revelando novos conhecimentos sobre o corpo humano. Desta vez, porém, a descoberta não depende de uma nova tecnologia ou de um planeta distante, mas de responder uma pergunta que deveria ter sido feita muito antes.

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