Pular para o conteúdo
Ciência

Cientistas transformam baratas em ciborgues capazes de respirar debaixo d’água para missões de resgate

Pesquisadores desenvolveram um sistema que permite a baratas permanecerem submersas por horas, abrindo caminho para operações de busca em áreas onde robôs tradicionais ainda encontram dificuldades.
Por

Tempo de leitura: 3 minutos

As baratas costumam estar entre os animais menos queridos do planeta, mas isso pode mudar no futuro. Pesquisadores do Japão e de Singapura desenvolveram uma tecnologia que transforma esses insetos em ciborgues anfíbios, capazes de respirar debaixo d’água por várias horas. O objetivo não é criar uma curiosidade científica, mas uma ferramenta para missões de resgate em locais onde equipamentos convencionais simplesmente não conseguem chegar.

Um pequeno equipamento faz as baratas respirarem sob a água

Cientistas transformam baratas em ciborgues capazes de respirar debaixo d'água para missões de resgate
© Unsplash

O projeto foi desenvolvido por pesquisadores da Universidade Tecnológica de Nanyang (NTU), em Singapura, em parceria com a Universidade de Waseda, no Japão.

A ideia consiste em equipar baratas com um dispositivo extremamente leve, produzido por impressão 3D, que funciona como um sistema portátil de fornecimento de oxigênio.

Até agora, uma das maiores limitações dos insetos ciborgues era justamente a respiração.

As baratas utilizam espiráculos, pequenas aberturas espalhadas pelo corpo que levam oxigênio para uma rede interna de tubos.

Quando permanecem submersas, esse sistema deixa de funcionar, impossibilitando sua utilização em ambientes alagados.

Para superar essa limitação, os cientistas criaram um equipamento semelhante a um minúsculo cilindro de mergulho.

Dentro dele existe um reservatório contendo uma esponja revestida com dióxido de manganês.

Ao entrar em contato com uma solução diluída de peróxido de hidrogênio, ocorre uma reação química que libera oxigênio gradualmente.

Esse oxigênio percorre pequenos tubos de silicone conectados diretamente aos espiráculos do inseto, permitindo que ele continue respirando mesmo completamente submerso.

Baratas continuam rápidas mesmo debaixo d’água

O equipamento mede cerca de 10 milímetros de comprimento e foi projetado para interferir o mínimo possível na movimentação natural do animal.

Os testes utilizaram baratas-sibilantes-de-Madagascar, escolhidas pelo grande porte, resistência física e ausência de asas.

Segundo os pesquisadores, os insetos permaneceram ativos por até três horas debaixo d’água.

Além disso, continuaram se deslocando com velocidades apenas ligeiramente inferiores às registradas em terra firme.

Essa característica é considerada fundamental para futuras aplicações em ambientes complexos, onde agilidade e capacidade de superar obstáculos fazem toda a diferença.

Insetos ciborgues já vêm sendo usados há alguns anos

Embora o novo sistema tenha chamado atenção, o conceito de insetos ciborgues não é exatamente novidade.

Há mais de uma década, pesquisadores trabalham no desenvolvimento de animais equipados com pequenos componentes eletrônicos capazes de orientar seus movimentos remotamente.

Normalmente, eletrodos são implantados em regiões específicas do sistema nervoso ou dos órgãos sensoriais.

Com isso, os cientistas conseguem direcionar parcialmente o deslocamento dos insetos enquanto aproveitam sua musculatura e sua capacidade natural de locomoção.

Essa estratégia apresenta uma vantagem importante sobre robôs tradicionais.

Como utilizam o próprio organismo do animal, os insetos consomem muito menos energia e conseguem atravessar espaços extremamente estreitos e irregulares.

Relatos citados pelos pesquisadores indicam que baratas equipadas com câmeras infravermelhas já participaram de operações de busca após o terremoto que atingiu Mianmar em 2025.

As imagens coletadas foram analisadas por algoritmos de inteligência artificial para auxiliar na identificação de possíveis sobreviventes entre os escombros.

A tecnologia pode chegar até missões em Marte

Os pesquisadores acreditam que esse é apenas o primeiro passo.

Segundo Hirotaka Sato, um dos responsáveis pelo estudo, versões futuras poderão funcionar como uma espécie de traje espacial para insetos ciborgues.

A proposta inclui aplicações em ambientes extremamente hostis, como cavernas, áreas contaminadas e até missões de exploração em Marte.

O estudo, publicado na revista Nature Communications, também sugere que a tecnologia poderá ser adaptada para outros insetos com sistemas respiratórios semelhantes, incluindo besouros e gafanhotos.

Apesar dos resultados promissores, os próprios autores ressaltam que os experimentos ainda ocorreram em condições controladas e com poucos centímetros de profundidade.

Antes que a tecnologia seja utilizada em operações reais de resgate, serão necessários novos testes para aumentar sua autonomia, resistência e segurança.

Mesmo assim, a pesquisa mostra como organismos vivos e engenharia podem trabalhar juntos para criar soluções que, até poucos anos atrás, pareciam pertencer apenas à ficção científica.

[Fonte: El tiempo]

Partilhe este artigo

Artigos relacionados