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Chef paraense se recusa a fazer jantar vegano para príncipe William e defende peixes da Amazônia

O chef Saulo Jennings, referência da culinária amazônica, recusou o convite para preparar o jantar do prêmio Earthshot, oferecido pelo príncipe William, após exigirem um cardápio 100% vegano. Ele argumenta que a verdadeira sustentabilidade na Amazônia é comer o que a floresta oferece — incluindo os peixes dos rios.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Quando o convite para cozinhar para o príncipe William chegou, o chef Saulo Jennings viu a oportunidade perfeita para mostrar ao mundo o sabor da Amazônia. Mas o que seria um momento histórico virou uma polêmica global: o paraense se recusou a preparar um menu vegano para o jantar do prêmio ambiental Earthshot, marcado para o dia 5 de novembro no Rio de Janeiro.

A recusa que rodou o mundo

Chef paraense se recusa a fazer jantar vegano para príncipe William e defende peixes da Amazônia
© https://x.com/maurobonna/

Jennings, conhecido por exaltar ingredientes amazônicos em restaurantes de Belém, Santarém, São Paulo e até no Museu do Amanhã, no Rio, afirmou que não aceitaria abrir mão dos peixes da floresta — especialmente o pirarucu, símbolo da pesca sustentável na região.

“A cultura alimentar do meu povo é tudo que vem da floresta e dos rios”, disse o chef à BBC News Brasil.

Segundo ele, foi solicitado um menu 100% vegano, mas ele propôs uma versão com 80% de ingredientes vegetais e 20% de peixes amazônicos. A organização do evento recusou, e o contrato não avançou.

O Earthshot Prize, criado por William em 2020, premia projetos ambientais inovadores com 1 milhão de libras (R$ 7,1 milhões). O evento, que acontece pela primeira vez no Brasil, antecede a COP30, conferência global do clima que será realizada em Belém em 2025.

“Ser sustentável na Amazônia é comer o que ela nos dá”

Para Jennings, a sustentabilidade na região vai muito além de dietas restritivas. Ele defende que comer peixes manejados de forma responsável é parte essencial da economia e da cultura amazônica.

“Não ser vegano não significa não ser sustentável. Ser sustentável na Amazônia é respeitar o que a floresta nos dá no seu tempo”, afirma.

O chef participa de projetos de manejo do pirarucu, peixe que já foi ameaçado de extinção, mas hoje é um exemplo de pesca sustentável. As comunidades locais fazem o controle populacional e só capturam uma parte dos peixes, garantindo renda e preservação.

Segundo Jennings, mais de mil famílias vivem apenas da pesca que abastece seus restaurantes.

“Você tirar o peixe da natureza na hora certa e com respeito é o que garante a sustentabilidade”, reforça.

Príncipe William fora da polêmica

Fontes da organização do Earthshot informaram que o príncipe não participou diretamente das decisões sobre o cardápio. Desde sua criação, os jantares do prêmio servem comida vegetariana — sem carne, mas com produtos de origem animal como ovos e laticínios. Desta vez, o pedido foi por um menu vegano completo, sem qualquer ingrediente animal.

O gesto, embora bem-intencionado, acabou levantando o debate sobre a sustentabilidade cultural: até que ponto eventos internacionais podem impor suas regras alimentares sem considerar os contextos locais?

Um embate que já vinha se formando

Essa não é a primeira vez que Jennings enfrenta restrições ao uso de ingredientes amazônicos. No início das licitações para a COP30, o cardápio oficial excluía itens tradicionais como açaí, tucupi, maniçoba e sucos de frutas in natura, classificados como “de alto risco de contaminação”.

Após forte reação de chefs e do próprio Jennings, o governo federal interveio e uma errata liberou o uso dos produtos.

“Tudo na Amazônia é in natura. Mas nós temos fiscalização. Quando conversamos, tudo se resolveu”, disse o chef.

Esses episódios, segundo ele, despertaram uma espécie de alerta.

“Quando chega um pedido desses, a gente fica preocupado. Já estamos excluindo de novo nossas coisas. Acho que foi também uma forma de proteção minha.”

O chef que conquistou Londres com pirarucu

Mesmo sem o jantar do príncipe, Jennings já levou a culinária amazônica à realeza. Em 2023, durante uma cerimônia em Brasília pela coroação do rei Charles III, ele preparou uma versão amazônica do tradicional fish and chips britânico — trocando o bacalhau pelo pirarucu.

Agora, o chef espera encontrar William pessoalmente para conversar sobre o tema.

“Acho que o diálogo é o melhor caminho. A comida é onde tudo começa — é o que nos une.”

O caso de Saulo Jennings expõe uma discussão maior: sustentabilidade não é uma fórmula universal. Na Amazônia, preservar a floresta também significa valorizar quem vive dela. E, para o chef, o futuro da gastronomia global só será verdadeiramente verde quando respeitar todos os tons — inclusive o verde da floresta.

[Fonte: Correio Braziliense]

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