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China cria “superrefrigerante” sem hélio e dá passo decisivo para destravar gargalo da computação quântica

Um novo material desenvolvido por cientistas chineses pode resfriar sistemas quase ao zero absoluto sem depender do escasso hélio-3. A descoberta não só desafia décadas de dependência tecnológica, como também reposiciona a disputa global por recursos estratégicos ligados à física e à computação quântica.

O hélio sempre foi um elemento discreto no cotidiano — aparece em balões, mergulho e até na famosa “voz fina”. Mas, longe do uso trivial, ele é peça-chave em algumas das tecnologias mais avançadas do mundo.

Agora, uma descoberta pode mudar esse cenário.

Pesquisadores chineses desenvolveram um material capaz de atingir temperaturas extremamente baixas sem usar hélio-3, um isótopo raro e estratégico. O avanço pode aliviar um dos maiores gargalos da ciência moderna: a refrigeração de sistemas quânticos.

O problema invisível: o hélio-3 como recurso estratégico

O Hélio
© Marra – Unsplash

Nem todo hélio é igual. O hélio-4 é relativamente abundante, mas difícil de armazenar. Já o hélio-3 é extremamente raro na Terra.

Esse isótopo é essencial para aplicações como:

  • computação quântica
  • detectores de nêutrons
  • experimentos de física de alta precisão

O problema é que sua produção depende, em grande parte, de subprodutos de programas nucleares — historicamente concentrados em países como Estados Unidos e Rússia.

Isso transforma o hélio-3 em um recurso limitado e geopoliticamente sensível.

O avanço chinês que muda o jogo

A nova solução foi apresentada em um estudo publicado na revista Nature.

Os cientistas desenvolveram uma liga metálica chamada EuCo₂Al₉, ou ECA, capaz de atingir cerca de 106 milikelvin (–273,05 °C).

Esse valor está muito próximo do zero absoluto — o limite teórico mais baixo de temperatura possível.

O mais impressionante: tudo isso sem utilizar hélio-3.

Como funciona esse “superrefrigerante”

O material utiliza um princípio chamado desmagnetização adiabática.

De forma simplificada:

  • um campo magnético é aplicado ao material
  • isso alinha seus “ímãs internos” e libera calor
  • ao retirar o campo, o material absorve calor do ambiente
  • o resultado é uma queda intensa de temperatura

Embora essa técnica não seja nova, sempre teve um problema: baixa eficiência térmica.

O diferencial do ECA está em seu comportamento incomum, descrito como um “supersólido de spin metálico”. Isso permite que ele combine duas características raras:

  • alta capacidade de absorver calor
  • excelente condução térmica

Essa combinação o coloca como um candidato a substituir sistemas tradicionais de refrigeração criogênica.

Por que isso importa para o futuro da tecnologia

Descoberta japonesa pode eliminar o maior obstáculo da computação quântica
© https://x.com/googleespanol/

Computadores quânticos supercondutores precisam operar em temperaturas inferiores a 1 Kelvin.

Hoje, isso é feito com sistemas de diluição que utilizam hélio-3 continuamente — equipamentos caros, complexos e pouco escaláveis.

Se materiais como o ECA evoluírem, será possível:

Para a China, isso representa um avanço estratégico. Atualmente, o país importa a maior parte do hélio-3 que consome.

Nem tudo está resolvido (ainda)

Apesar do avanço, ainda existem limitações importantes.

Os sistemas tradicionais mais avançados conseguem atingir temperaturas abaixo de 10 milikelvin — mais frias do que o ECA consegue atualmente.

Além disso, o material ainda está em estágio inicial. Transformá-lo em tecnologia comercial exige superar desafios como:

  • escalabilidade industrial
  • custos de produção
  • disponibilidade de materiais

Um desses materiais é o európio, uma terra rara que pode encarecer o processo — embora a China tenha vantagem global nesse setor.

Uma corrida silenciosa por controle tecnológico

O interesse nesse tipo de tecnologia não é exclusivo da China.

Nos Estados Unidos, a DARPA já lançou programas para desenvolver sistemas de refrigeração sem hélio-3, especialmente para aplicações em defesa e computação avançada.

Isso mostra que estamos diante de uma disputa estratégica global — onde o controle de recursos e tecnologias pode definir o futuro da inovação.

Um novo capítulo para a física moderna

Mais do que um avanço técnico, essa descoberta sinaliza uma mudança de paradigma.

Durante décadas, o hélio-3 foi considerado indispensável para alcançar temperaturas extremas. Agora, surge a possibilidade de contornar essa limitação.

Ainda há um longo caminho até aplicações práticas em larga escala. Mas o recado já está dado: o futuro da ciência pode depender menos de recursos raros — e mais de novas formas de engenhosidade material.

E, como acontece frequentemente na tecnologia, quem encontrar a melhor solução primeiro pode redefinir as regras do jogo.

 

[ Fonte: Xataka ]

 

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