A China está prestes a dar um passo ousado na defesa planetária. Ainda em 2025, o país lançará uma missão experimental para colidir deliberadamente uma nave contra um asteroide, testando a capacidade humana de alterar sua trajetória e, potencialmente, evitar futuras catástrofes. O feito tornaria o país o segundo do mundo a realizar esse tipo de manobra — e com um diferencial importante: monitorar o impacto em tempo real.
O precedente criado pela NASA

A missão da China acontece na esteira do sucesso da NASA com a operação DART, que em 26 de setembro de 2022 conseguiu desviar pela primeira vez na história um asteroide, o Dimorfo.
O projeto fazia parte do programa AIDA, desenvolvido em parceria com a Agência Espacial Europeia (ESA). Originalmente, o plano incluía o orbitador AIM para registrar o impacto, mas cortes orçamentários na Europa deixaram a NASA sozinha na empreitada. A agência americana contou apenas com o cubesat italiano LICIACube para observar o feito.
Agora, a ESA trabalha na missão Hera, que chegará ao asteroide em dezembro de 2026 para coletar dados detalhados sobre os efeitos do impacto da DART.
O plano chinês: duas naves, um alvo
A China decidiu seguir um caminho mais ambicioso. Sua missão — ainda sem nome oficial — enviará duas sondas:
- Impactadora: responsável por colidir com o asteroide;
- Observadora: equipada com sensores de alta precisão para analisar cada detalhe do choque.
O alvo escolhido é o 2020 PN1, um asteroide de órbita instável que passa a dezenas de milhões de quilômetros da Terra. A nave observadora chegará primeiro para mapear o terreno e coletar dados físicos detalhados. Pouco depois, a impactadora colidirá com o objeto em alta velocidade, enquanto telescópios terrestres e espaciais acompanharão tudo ao vivo.
O objetivo é modesto, mas extremamente desafiador: provocar uma mudança orbital de apenas 3 a 5 centímetros — suficiente para comprovar a eficácia do método.
Um desafio de precisão extrema
A missão exigirá meses de navegação e ajustes constantes de trajetória para atingir um objeto de poucos centenas de metros de diâmetro. Como explica Wu Weiren, chefe do projeto, o desafio é comparável a:
“Acertar uma mosca a dezenas de milhões de quilômetros de distância.”
Além da dificuldade de mira, há outro fator de incerteza: a composição do asteroide. Não é o mesmo colidir com uma rocha sólida que com um amontoado de detritos soltos. O impacto e a quantidade de material expelido dependem diretamente da densidade e da estrutura interna do corpo celeste.
Primeiro passo para uma defesa planetária completa
Essa missão é apenas a primeira etapa de um plano mais ambicioso. A China pretende criar um sistema completo de detecção e proteção contra ameaças espaciais.
O país já conta com uma rede de vigilância terrestre, que inclui:
- O Observatório da Montanha Púrpura;
- O projeto China Compound Eye, com radares capazes de gerar imagens de alta precisão a milhões de quilômetros.
A meta é complementar essa infraestrutura com satélites dedicados à observação e construir um catálogo de respostas rápidas para eventuais ameaças. Em 2025, inclusive, o governo chinês abriu um processo de recrutamento para astrofísicos e especialistas internacionais com o objetivo de criar sua própria força de defesa planetária.
Uma demonstração do poder espacial da China

A missão também serve como um cartão de visitas da crescente capacidade espacial chinesa. Enquanto a NASA enfrenta cortes orçamentários, o país avança com projetos de exploração do espaço profundo e acumula conquistas inéditas, como a coleta de amostras da face oculta da Lua.
Em maio de 2025, a China lançou a sonda Tianwen-2, que está a caminho do quasi-satélite Kamoʻoalewa para trazer amostras inéditas à Terra em 2027. Depois, a nave seguirá para um cometa no cinturão principal, estabelecendo um novo recorde de distância. A próxima etapa é ainda mais ousada: a missão Tianwen-3, que pode trazer as primeiras amostras de Marte antes mesmo dos Estados Unidos e da Europa.
[ Fonte: Xataka ]