Durante décadas, a computação foi construída com silício, metais raros e toneladas de resíduos tóxicos. Agora, uma descoberta inesperada pode mudar esse paradigma. Pesquisadores da Universidade Estadual de Ohio criaram chips biodegradáveis usando organismos vivos. Eles não queriam apenas inovar: queriam provar que é possível fazer tecnologia sustentável, barata e inspirada na própria natureza. E o resultado acende a possibilidade de uma revolução ecológica na computação neuromórfica.
Quando a natureza encontra os circuitos
O grupo conseguiu fabricar memristores — componentes capazes de “lembrar” sua resistência elétrica — usando micélio de shiitake. Na prática, funcionam como pequenas sinapses artificiais e podem armazenar dados de forma semelhante ao cérebro humano.
A grande diferença? Esses memristores são totalmente biodegradáveis. Enquanto a indústria eletrônica tradicional depende de extração mineral e processos poluentes, o micélio cresce em laboratório, é barato e se decompõe sem dano ambiental.
A pesquisa, publicada em PLOS One, foi realizada por John LaRocco, Qudsia Tahmina, Ruben Petreaca, John Simonis e Justin Hill, com apoio do Instituto de Pesquisa Honda.
O problema dos chips convencionais
A computação neuromórfica precisa de memristores para imitar o aprendizado biológico. Mas fabricar esses dispositivos exige metais raros e químicos tóxicos, limitando o avanço da área.
O micélio ofereceu uma alternativa inesperada. Além de forte, flexível e resistente à radiação, sua estrutura se parece com redes neurais naturais — e isso chamou a atenção dos pesquisadores. Se os chips pudessem crescer como organismos, poderiam ser produzidos com muito mais sustentabilidade.

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O processo começou cultivando nove amostras de shiitake em placas de Petri. Quando o micélio tomou toda a superfície, foi seco ao sol por uma semana e reidratado com água desionizada para recuperar a condutividade elétrica.
As amostras foram conectadas a um circuito especialmente projetado para medições. Cada região do micélio respondeu a voltagens de forma diferente, criando estados elétricos que podiam ser gravados e recuperados — exatamente o comportamento de um memristor.
Os resultados impressionaram: velocidade de comutação de 5.850 Hz e 90% de precisão. Ainda não competem com os chips mais avançados do mundo, mas provaram ser estáveis mesmo após ciclos repetidos de desidratação e reidratação.
Uma tecnologia que pode crescer
Os pesquisadores notaram que, quando o desempenho caía com voltagens mais altas, bastava adicionar mais micélio ao circuito para recuperar a eficiência. Isso abre caminho para escalar o sistema e criar redes biológicas interligadas.
Para LaRocco, o potencial é enorme: “A computação baseada em fungos pode ir de um punhado de terra e alguns fios até uma fábrica de cultivo”.
Chips de micélio podem ser usados em sensores, robôs e dispositivos inteligentes capazes de operar em ambientes extremos — até fora da Terra.
A computação sustentável do futuro pode não ser feita apenas de metal e silício. Pode ser viva.