Tudo começa na Fazenda Bodoquena, em Miranda (MS), uma área de mais de 70 mil hectares que combina criação de gado e preservação da natureza. Foi lá que os cientistas montaram uma operação complexa para capturar uma onça-pintada e coletar material genético.
Após três dias de tentativas, a equipe conseguiu capturar um macho adulto — batizado de Leonço — que pesava 113 quilos. O procedimento envolveu anestesia, medições e coleta de sangue, sêmen, pelos e um pequeno fragmento da orelha. Em poucas horas, o animal já estava acordado e de volta à mata.
O material coletado foi levado para o laboratório do Reprocon, na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), onde os cientistas começaram o trabalho de processamento genético. Apesar de o sêmen de Leonço ter chegado sem viabilidade (morto pelo frio da noite), as células da orelha se tornaram a chave para um projeto muito mais ambicioso: a clonagem da espécie.
A genética a serviço da preservação

A clonagem de onças-pintadas é parte de uma estratégia mais ampla que busca criar um “biobanco genético”, com amostras de sangue, tecido e sêmen de centenas de indivíduos. O Reprocon já possui o maior banco de tecido de onças-pintadas do mundo, com células de mais de 60 animais — incluindo exemplares mortos em atropelamentos.
Essas amostras são armazenadas em nitrogênio líquido e podem ser usadas futuramente para gerar clones. As células da orelha, chamadas fibroblastos, funcionam como “células-mãe” capazes de originar embriões idênticos ao doador.
O processo é delicado: o núcleo de um óvulo é retirado e substituído pelo DNA de uma dessas células. Depois, uma eletrofusão — uma espécie de “choque elétrico” — faz a célula começar a se multiplicar até formar um embrião. Em seguida, o embrião pode ser implantado em uma fêmea para completar a gestação.
Em 2024, os pesquisadores já chegaram à fase de mórula, um estágio inicial do desenvolvimento embrionário, e agora trabalham para gerar o primeiro embrião-clone viável. Se tudo correr bem, o nascimento de um filhote clonado pode ocorrer ainda em 2026.
Um retrato da crise da onça-pintada no Brasil
Hoje, a onça-pintada (Panthera onca) enfrenta um cenário crítico. Estima-se que existam entre 10 e 21 mil indivíduos na Amazônia, cerca de 5 mil no Pantanal e apenas mil no Cerrado. Já na Mata Atlântica e Caatinga, a população é mínima e isolada — o que causa reprodução entre parentes, gerando deformações, abortos e perda de fertilidade.
Além da fragmentação dos habitats, conflitos com humanos e atropelamentos agravam o quadro. Somente entre 2016 e 2023, 19 onças-pintadas morreram atropeladas na BR-262 (MS). Sem políticas sólidas de conservação em cativeiro, a espécie corre risco de desaparecer de regiões inteiras.
É aí que entra a clonagem — não como substituta da preservação ambiental, mas como uma nova ferramenta de resistência genética. “Conservação não se faz com uma estratégia única”, explica Thyara de Deco-Souza, cofundadora do Reprocon. “Precisamos preservar áreas, estudar populações livres e também usar tecnologias reprodutivas para manter o material genético vivo.”
Do campo ao laboratório: ciência aplicada na prática
Além da clonagem, o Reprocon desenvolve tecnologias portáteis que tornam o trabalho de campo mais ágil. A pesquisadora Maitê Cardoso Coelho da Silva criou dispositivos microfluídicos de silicone, impressos em 3D, capazes de lavar e selecionar espermatozoides diretamente no ambiente natural. Cada peça custa cerca de US$ 15 e substitui equipamentos caros de laboratório, como centrífugas e incubadoras.
Essas ferramentas ajudam a garantir que o material coletado — sangue, sêmen ou tecido — chegue em perfeitas condições ao biobanco. Com isso, os cientistas aumentam as chances de sucesso em processos de inseminação artificial e fertilização in vitro, além da clonagem propriamente dita.
O papel do Brasil na conservação genética
O Brasil é uma das últimas fronteiras para grandes felinos no mundo, e o sucesso desse tipo de pesquisa pode redefinir a conservação da biodiversidade. O Reprocon já mantém parcerias com Argentina, Colômbia, Canadá e Estados Unidos, trocando conhecimento sobre biotecnologia e genética aplicada à fauna silvestre.
Para os pesquisadores, o avanço da clonagem não é apenas sobre recriar animais idênticos — é sobre preservar linhagens genéticas raras, que podem reequilibrar populações isoladas e impedir a extinção local. “A clonagem nunca vai salvar a onça-pintada sozinha”, ressalta Thyara. “Mas é uma forma de garantir que o material genético sobreviva até que possamos restaurar os ambientes naturais.”
Uma aposta ousada para o futuro
Se a experiência com a onça-pintada der certo, o método poderá ser aplicado a outras espécies ameaçadas, como o lobo-guará, a jaguatirica e o tamanduá-bandeira. O Brasil, que concentra uma das maiores biodiversidades do planeta, também carrega a responsabilidade de inovar na conservação ambiental.
O trabalho do Reprocon mostra que ciência e esperança podem andar lado a lado. E que, mesmo diante da destruição ambiental, a tecnologia pode dar à natureza uma segunda chance — talvez a mais importante de todas.
[Fonte: UOL]