O câncer costuma ser visto apenas como uma doença devastadora. Mas um novo estudo argentino propõe uma pergunta muito mais desconfortável para a biologia evolutiva: e se, em determinadas espécies, o câncer também tiver exercido uma função adaptativa ao longo da evolução?
Pesquisadores da Universidad de Buenos Aires e do CONICET analisaram a relação entre comportamento social e incidência de câncer em mamíferos e encontraram um padrão surpreendente.
Segundo os resultados, publicados na revista Science Advances, espécies mais cooperativas tendem a apresentar menores taxas de câncer. Já animais mais competitivos — especialmente carnívoros solitários — registram incidência significativamente maior da doença.
A pesquisa abre uma nova linha de discussão sobre como fatores sociais e evolutivos podem influenciar diretamente a biologia do câncer.
Espécies cooperativas apresentaram menos casos de câncer

Para chegar às conclusões, os cientistas reuniram bancos de dados internacionais contendo informações sobre mortalidade por câncer em mamíferos, hábitos sociais, formas de reprodução e estratégias de cuidado parental.
A equipe aplicou modelos matemáticos para comparar espécies altamente competitivas com aquelas que vivem em grupos cooperativos.
Os resultados mostraram uma correlação consistente: mamíferos que compartilham cuidado com filhotes, vivem em comunidades organizadas e cooperam entre gerações tendem a registrar menor prevalência de câncer.
Já espécies marcadas por forte competição interna apresentaram taxas maiores da doença.
Entre os fatores analisados estavam tamanho das ninhadas, sistemas de criação coletiva e níveis de sociabilidade entre indivíduos.
O câncer poderia ter desempenhado um papel evolutivo?
Uma das hipóteses mais provocadoras do estudo envolve a chamada “aptidão inclusiva”, conceito da biologia evolutiva segundo o qual um indivíduo pode contribuir para o sucesso genético da espécie não apenas reproduzindo, mas também ajudando parentes mais jovens a sobreviver.
Segundo o cientista Andrés Rieznik, em contextos altamente competitivos, a mortalidade dos indivíduos mais velhos poderia acabar favorecendo os mais jovens ao reduzir disputas por recursos.
Em outras palavras: em determinadas condições evolutivas, o câncer poderia ter sido “selecionado” indiretamente por beneficiar a renovação populacional.
A ideia não significa que o câncer seja positivo ou desejável, mas sugere que a doença pode ter interagido com mecanismos evolutivos complexos ao longo de milhões de anos.
O estudo também dialoga com um famoso paradoxo da biologia
A pesquisa argentina conversa diretamente com uma questão clássica conhecida como Paradoxo de Peto.
O paradoxo tenta explicar por que animais gigantes, como elefantes e baleias, não apresentam taxas de câncer proporcionalmente maiores do que espécies pequenas, apesar de possuírem muito mais células no corpo.
O novo trabalho sugere que fatores sociais e comportamentais talvez também influenciem essa equação evolutiva.
Além disso, os pesquisadores relacionam seus resultados ao chamado “efeito Hidra”, fenômeno em que o aumento da mortalidade em indivíduos mais velhos pode favorecer a sobrevivência da população jovem.
Outro conceito citado é a “hipótese da avó”, muito discutida em estudos evolutivos humanos. A ideia propõe que indivíduos mais velhos podem aumentar a sobrevivência genética da espécie ajudando no cuidado dos descendentes, em vez de continuar competindo diretamente por reprodução.
Cooperação pode ter impacto biológico muito maior do que se imaginava
O estudo reforça uma percepção crescente na biologia moderna: comportamento social não influencia apenas organização de grupos ou sobrevivência imediata, mas também processos biológicos profundos ligados à saúde e ao envelhecimento.
Segundo os autores, compreender como cooperação, competição e estrutura social afetam o câncer pode ajudar pesquisadores a entender por que algumas espécies desenvolveram mecanismos mais eficientes de resistência tumoral do que outras.
Além disso, a pesquisa abre espaço para novas investigações sobre a interação entre ambiente, evolução e doenças degenerativas.
O câncer talvez conte uma história maior sobre a evolução da vida

O trabalho foi conduzido pelos pesquisadores Catalina Sierra, Julian Maxwell, Nicolás Flaibani, Constanza Sánchez de la Vega, Alejandra C. Ventura, Nicolás J. Lavagnino e Matías Blaustein, ligados à Faculdade de Ciências Exatas e Naturais da UBA.
Embora muitas das hipóteses ainda precisem ser aprofundadas, o estudo oferece uma visão incomum sobre o câncer: não apenas como uma doença individual, mas como um fenômeno conectado à dinâmica evolutiva das espécies.
No fim, a pesquisa sugere algo fascinante e inquietante ao mesmo tempo: talvez a maneira como os animais cooperam — ou competem — tenha moldado silenciosamente até mesmo sua vulnerabilidade biológica ao longo da história da vida na Terra.
[ Fonte: Infobae ]