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Ciência

Cientistas argentinos descobriram uma relação inesperada entre câncer e comportamento social nos mamíferos — e ela pode mudar a forma como entendemos a evolução da doença

Um estudo conduzido por pesquisadores da UBA e do CONICET sugere que espécies mais competitivas apresentam maiores taxas de câncer do que aquelas que vivem em grupos cooperativos. A pesquisa propõe uma hipótese provocadora: em alguns contextos evolutivos, o câncer pode ter desempenhado um papel indireto na sobrevivência das espécies.
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Tempo de leitura: 3 minutos

O câncer costuma ser visto apenas como uma doença devastadora. Mas um novo estudo argentino propõe uma pergunta muito mais desconfortável para a biologia evolutiva: e se, em determinadas espécies, o câncer também tiver exercido uma função adaptativa ao longo da evolução?

Pesquisadores da Universidad de Buenos Aires e do CONICET analisaram a relação entre comportamento social e incidência de câncer em mamíferos e encontraram um padrão surpreendente.

Segundo os resultados, publicados na revista Science Advances, espécies mais cooperativas tendem a apresentar menores taxas de câncer. Já animais mais competitivos — especialmente carnívoros solitários — registram incidência significativamente maior da doença.

A pesquisa abre uma nova linha de discussão sobre como fatores sociais e evolutivos podem influenciar diretamente a biologia do câncer.

Espécies cooperativas apresentaram menos casos de câncer

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© https://x.com/USFWS/

Para chegar às conclusões, os cientistas reuniram bancos de dados internacionais contendo informações sobre mortalidade por câncer em mamíferos, hábitos sociais, formas de reprodução e estratégias de cuidado parental.

A equipe aplicou modelos matemáticos para comparar espécies altamente competitivas com aquelas que vivem em grupos cooperativos.

Os resultados mostraram uma correlação consistente: mamíferos que compartilham cuidado com filhotes, vivem em comunidades organizadas e cooperam entre gerações tendem a registrar menor prevalência de câncer.

Já espécies marcadas por forte competição interna apresentaram taxas maiores da doença.

Entre os fatores analisados estavam tamanho das ninhadas, sistemas de criação coletiva e níveis de sociabilidade entre indivíduos.

O câncer poderia ter desempenhado um papel evolutivo?

Uma das hipóteses mais provocadoras do estudo envolve a chamada “aptidão inclusiva”, conceito da biologia evolutiva segundo o qual um indivíduo pode contribuir para o sucesso genético da espécie não apenas reproduzindo, mas também ajudando parentes mais jovens a sobreviver.

Segundo o cientista Andrés Rieznik, em contextos altamente competitivos, a mortalidade dos indivíduos mais velhos poderia acabar favorecendo os mais jovens ao reduzir disputas por recursos.

Em outras palavras: em determinadas condições evolutivas, o câncer poderia ter sido “selecionado” indiretamente por beneficiar a renovação populacional.

A ideia não significa que o câncer seja positivo ou desejável, mas sugere que a doença pode ter interagido com mecanismos evolutivos complexos ao longo de milhões de anos.

O estudo também dialoga com um famoso paradoxo da biologia

A pesquisa argentina conversa diretamente com uma questão clássica conhecida como Paradoxo de Peto.

O paradoxo tenta explicar por que animais gigantes, como elefantes e baleias, não apresentam taxas de câncer proporcionalmente maiores do que espécies pequenas, apesar de possuírem muito mais células no corpo.

O novo trabalho sugere que fatores sociais e comportamentais talvez também influenciem essa equação evolutiva.

Além disso, os pesquisadores relacionam seus resultados ao chamado “efeito Hidra”, fenômeno em que o aumento da mortalidade em indivíduos mais velhos pode favorecer a sobrevivência da população jovem.

Outro conceito citado é a “hipótese da avó”, muito discutida em estudos evolutivos humanos. A ideia propõe que indivíduos mais velhos podem aumentar a sobrevivência genética da espécie ajudando no cuidado dos descendentes, em vez de continuar competindo diretamente por reprodução.

Cooperação pode ter impacto biológico muito maior do que se imaginava

O estudo reforça uma percepção crescente na biologia moderna: comportamento social não influencia apenas organização de grupos ou sobrevivência imediata, mas também processos biológicos profundos ligados à saúde e ao envelhecimento.

Segundo os autores, compreender como cooperação, competição e estrutura social afetam o câncer pode ajudar pesquisadores a entender por que algumas espécies desenvolveram mecanismos mais eficientes de resistência tumoral do que outras.

Além disso, a pesquisa abre espaço para novas investigações sobre a interação entre ambiente, evolução e doenças degenerativas.

O câncer talvez conte uma história maior sobre a evolução da vida

A molécula “invertida” que intriga cientistas pode esconder um novo caminho contra o câncer
© https://x.com/falaciencia

O trabalho foi conduzido pelos pesquisadores Catalina Sierra, Julian Maxwell, Nicolás Flaibani, Constanza Sánchez de la Vega, Alejandra C. Ventura, Nicolás J. Lavagnino e Matías Blaustein, ligados à Faculdade de Ciências Exatas e Naturais da UBA.

Embora muitas das hipóteses ainda precisem ser aprofundadas, o estudo oferece uma visão incomum sobre o câncer: não apenas como uma doença individual, mas como um fenômeno conectado à dinâmica evolutiva das espécies.

No fim, a pesquisa sugere algo fascinante e inquietante ao mesmo tempo: talvez a maneira como os animais cooperam — ou competem — tenha moldado silenciosamente até mesmo sua vulnerabilidade biológica ao longo da história da vida na Terra.

 

[ Fonte: Infobae ]

 

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