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Ciência

O comportamento raro descoberto em roedores pode mudar o que sabemos sobre a evolução da vida em sociedade

Um estudo com roedores africanos e sul-americanos revelou pistas surpreendentes sobre como surgiram algumas das formas mais complexas de cooperação entre mamíferos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

A vida em sociedade sempre intrigou cientistas, especialmente quando envolve níveis extremos de cooperação entre indivíduos. Em insetos como abelhas e formigas, esse tipo de organização já é conhecido há décadas. Mas entre mamíferos, ele continua sendo uma raridade fascinante. Agora, uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Concepción mergulhou na história evolutiva de roedores africanos e sul-americanos para entender como surgiram sistemas sociais tão sofisticados — e os resultados desafiaram algumas ideias que pareciam consolidadas na biologia evolutiva.

A forma rara de organização social encontrada em poucos mamíferos

A pesquisa liderada pela bióloga Daniela Lazo Cancino investigou espécies conhecidas como batiérgidos e caviomorfos, grupos de roedores distribuídos entre a África subsaariana e regiões da América do Sul e Central.

O principal foco do estudo foi entender a origem da eusocialidade, uma das formas mais avançadas de organização social já observadas na natureza.

Nesse sistema, existe apenas uma fêmea reprodutora dominante — semelhante a uma rainha — enquanto os demais integrantes do grupo executam funções específicas para garantir a sobrevivência coletiva. Além disso, diferentes gerações convivem e cooperam entre si.

Esse comportamento é extremamente comum em insetos sociais, como formigas e abelhas. Porém, entre vertebrados, praticamente não existe. Até hoje, apenas dois casos conhecidos foram registrados em mamíferos: a rata-toupeira-pelada e a rata-toupeira de Damaraland.

As duas espécies vivem em túneis subterrâneos na África e pertencem à família dos batiérgidos.

O estudo buscou testar uma hipótese criada pelo biólogo evolucionista Jacobus Boomsma, segundo a qual a monogamia ao longo da vida seria um requisito essencial para o surgimento da eusocialidade.

Para isso, Daniela Lazo reconstruiu milhões de anos da história evolutiva desses roedores utilizando bases de dados genéticos e modelos filogenéticos capazes de identificar relações entre ancestrais e descendentes.

O resultado foi uma espécie de árvore genealógica gigantesca, remontando a cerca de 23 milhões de anos de evolução.

A monogamia ajudou, mas não explica tudo

As análises mostraram que a monogamia realmente esteve presente nos ancestrais das espécies eusociais. Isso reforça parcialmente a hipótese de que relacionamentos reprodutivos estáveis favorecem o surgimento de comportamentos cooperativos extremos.

No entanto, os pesquisadores perceberam algo importante: muitas outras espécies monogâmicas nunca desenvolveram eusocialidade.

Ou seja, a monogamia parece funcionar como uma condição necessária, mas insuficiente por si só para explicar o aparecimento desse nível raro de organização social.

O estudo também revelou que houve diversas transições evolutivas de espécies solitárias para formas de vida em grupo. Mesmo assim, a eusocialidade apareceu apenas em situações muito específicas e de forma independente.

Isso indica que outros fatores ecológicos e ambientais provavelmente tiveram papel decisivo nesse processo evolutivo.

Segundo os pesquisadores, essa raridade é justamente o que torna o fenômeno tão fascinante para áreas como sociobiologia e ecologia comportamental.

A descoberta também ajuda cientistas a entender melhor como sistemas cooperativos complexos podem surgir ao longo da evolução, inclusive em grupos animais muito diferentes entre si.

O clima árido pode influenciar a cooperação entre animais

O comportamento raro descoberto em roedores pode mudar o que sabemos sobre a evolução da vida em sociedade
© https://x.com/LeviKaique/

Além da monogamia, a pesquisa investigou outro possível fator associado à vida social: os ambientes áridos.

Existe uma hipótese bastante discutida na biologia evolutiva segundo a qual regiões secas e hostis favorecem a cooperação porque os recursos ficam espalhados em áreas isoladas e difíceis de acessar.

Nessas condições, viver em grupo poderia aumentar as chances de sobrevivência.

Para testar essa ideia, Daniela Lazo analisou roedores caviomorfos, grupo que inclui espécies como capivaras, chinchilas, cobaias e degus.

Os cientistas compararam dados genéticos, históricos climáticos e características ambientais ocupadas pelas espécies ao longo da evolução.

Apesar das expectativas, os resultados não encontraram uma relação forte entre aridez e surgimento de comportamento social.

Segundo os pesquisadores, outros elementos parecem exercer influência maior, como a distribuição dos alimentos disponíveis e a pressão causada por predadores.

Mesmo sem respostas definitivas, o estudo abriu novas perspectivas para entender como mamíferos desenvolveram formas tão complexas de convivência social.

Os autores destacam que futuras pesquisas precisarão combinar genética, ecologia, comportamento animal e mudanças ambientais para reconstruir de forma mais completa a evolução da cooperação entre espécies.

E quanto mais os cientistas investigam esses sistemas raros, mais percebem que a vida social dos mamíferos pode ser muito mais sofisticada — e misteriosa — do que parecia até agora.

[Fonte: Noticias UdeC]

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