Fazer exercícios regularmente continua sendo uma das recomendações mais repetidas da medicina moderna. Caminhar, correr, pedalar ou treinar algumas vezes por semana ajuda a controlar pressão arterial, reduzir diabetes, melhorar o humor e aumentar a expectativa de vida.
Mas um novo estudo publicado no British Journal of Sports Medicine sugere que talvez exista uma diferença importante entre “fazer bem à saúde” e oferecer uma proteção cardiovascular realmente intensa.
Segundo pesquisadores da Macao Polytechnic University e colaboradores internacionais, atingir uma redução expressiva no risco de infarto, AVC e outras doenças cardiovasculares pode exigir muito mais atividade física do que as recomendações tradicionais indicam hoje.
Os atuais 150 minutos por semana talvez sejam apenas o mínimo
Atualmente, organizações de saúde costumam recomendar pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada a intensa.
Esse número já está associado a diversos benefícios comprovados para o organismo.
No novo estudo, porém, os cientistas quiseram investigar algo mais específico: quanto exercício seria necessário para gerar uma redução realmente grande no risco cardiovascular.
Para isso, eles analisaram dados do UK Biobank, um dos maiores projetos de saúde populacional do mundo, que acompanha milhares de pessoas de meia-idade no Reino Unido.
O foco recaiu sobre cerca de 17 mil voluntários que utilizaram acelerômetros no pulso durante uma semana, permitindo medir objetivamente o nível real de atividade física diária.
A proteção considerada “substancial” apareceu em um nível muito alto
Ao longo de quase oito anos de acompanhamento, foram registrados aproximadamente 1.200 casos de doenças cardiovasculares entre os participantes.
Como esperado, pessoas fisicamente ativas apresentaram menor risco de problemas cardíacos.
Mas o dado que mais chamou atenção foi outro.
Segundo os pesquisadores, os tradicionais 150 minutos semanais estavam associados a uma redução relativamente modesta de 8% a 9% no risco cardiovascular.
Já uma queda considerada “substancial” — definida no estudo como pelo menos 30% de redução no risco — exigiria entre 560 e 610 minutos semanais de exercício moderado a intenso.
Isso equivale a cerca de 9 a 10 horas de atividade física por semana.
Na prática, é algo entre três e quatro vezes acima das recomendações atuais.
Pessoas menos condicionadas precisariam se exercitar ainda mais
O estudo também encontrou diferenças importantes entre indivíduos com níveis distintos de condicionamento físico.
Segundo os autores, pessoas menos condicionadas inicialmente precisariam praticar ainda mais exercícios para alcançar o mesmo nível de proteção cardiovascular observado em indivíduos já mais ativos.
Isso sugere que o organismo responde de maneira diferente dependendo do histórico físico de cada pessoa.
Os pesquisadores argumentam que futuras diretrizes talvez precisem considerar metas mais individualizadas em vez de um único valor universal para toda a população.
Nem todo especialista concorda com a interpretação do estudo
Apesar dos resultados chamativos, o trabalho possui limitações importantes.
Por ser um estudo observacional, ele consegue mostrar apenas associação — não prova diretamente que o volume maior de exercício seja a causa da redução do risco cardiovascular.
Além disso, parte da discussão gira em torno da própria definição do que seria uma redução “substancial”.
Os autores utilizaram o patamar de 30% como referência principal. Mas reduções menores também podem ser extremamente relevantes do ponto de vista clínico.
Segundo os próprios dados do estudo, cerca de 340 a 370 minutos semanais de exercício já estariam associados a uma queda de aproximadamente 20% no risco cardiovascular — um objetivo ainda elevado, mas mais realista para a maioria das pessoas.
Mesmo pequenas quantidades de exercício continuam fazendo diferença
Apesar do impacto das manchetes, os pesquisadores reforçam que os atuais 150 minutos semanais continuam sendo benéficos.
Uma redução de 8% a 9% no risco de doenças cardiovasculares ainda representa um efeito importante na saúde pública, especialmente considerando que muitas pessoas permanecem sedentárias.
Outro dado curioso do estudo mostra justamente isso: apenas 12% dos participantes do UK Biobank atingiam os níveis mais altos de atividade física associados à proteção “substancial”.
Ou seja, o novo trabalho não significa que exercícios moderados “não funcionam”. A principal conclusão é outra: quanto maior o volume de atividade física regular, maiores parecem ser os benefícios cardiovasculares acumulados ao longo do tempo.
No fim, a pesquisa reforça uma ideia que a ciência vem consolidando há anos: quando o assunto é exercício, fazer um pouco já ajuda bastante — mas fazer mais pode ajudar ainda mais.