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Ciência

A formação dos planetas pode ser muito mais caótica do que imaginávamos

Um sistema descoberto a pouco mais de 100 anos-luz da Terra está intrigando astrônomos do mundo inteiro. A organização de seus planetas parece contrariar aquilo que a ciência acreditava entender sobre a formação planetária.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Durante décadas, os cientistas acreditaram que os sistemas planetários seguiam uma lógica relativamente previsível. Mundos rochosos próximos da estrela. Gigantes gasosos mais distantes. O próprio Sistema Solar ajudou a consolidar essa ideia como uma espécie de padrão cósmico. Mas uma nova descoberta acaba de colocar essa visão em xeque. E o mais desconcertante é que o universo parece ter ignorado justamente uma das regras que pareciam mais sólidas na astronomia moderna.

Um sistema planetário que parece ter sido montado “fora de ordem”

A estrela responsável pela confusão atende pelo nome de LHS 1903, uma anã vermelha localizada a pouco mais de 100 anos-luz da Terra. Em um primeiro momento, ela parecia apenas mais uma entre milhares de estrelas analisadas pelos telescópios modernos. Só que, ao observar a distribuição de seus planetas, os astrônomos perceberam algo bastante estranho.

O sistema possui pelo menos quatro mundos conhecidos. E o problema não está exatamente na quantidade, mas na forma como eles aparecem organizados ao redor da estrela.

Segundo os modelos tradicionais, planetas rochosos costumam surgir mais perto da estrela porque as temperaturas elevadas dificultam a permanência de grandes quantidades de gás. Já nas regiões mais distantes, onde o ambiente é mais frio, o gás consegue se acumular e formar gigantes gasosos semelhantes a Netuno, Saturno ou Júpiter.

Mas em LHS 1903 a sequência parece quebrada.

Os pesquisadores encontraram um planeta rochoso na região interna do sistema, dois sub-Netunos logo depois e, por fim, outro planeta que também aparenta ser rochoso — justamente em uma área onde seria esperado encontrar um gigante gasoso.

E é esse último mundo que começou a gerar desconforto entre os cientistas.

Porque, segundo o que entendemos atualmente sobre formação planetária, ele simplesmente não deveria estar ali.

Formação Dos Planetas1
© ESA

A descoberta pode obrigar os cientistas a rever parte dos modelos atuais

O estudo, publicado na revista Science, sugere que talvez a formação dos planetas seja muito mais complexa do que parecia. A principal hipótese levantada pelos pesquisadores envolve o fator tempo.

Segundo essa ideia, os planetas do sistema não teriam surgido exatamente nas mesmas condições. Quando o planeta mais distante começou a se formar, o disco de gás ao redor da estrela talvez já estivesse praticamente dissipado. Sem material suficiente para criar um gigante gasoso, o mundo acabou se tornando um planeta rochoso mesmo estando longe da estrela.

Essa possibilidade muda bastante o cenário.

Até agora, muitos modelos davam enorme importância apenas à distância entre o planeta e sua estrela. Mas LHS 1903 sugere que o momento exato da formação também pode ser decisivo. Em outras palavras: não basta saber onde um planeta nasce. É preciso entender quando ele nasce.

E isso complica bastante as coisas.

Porque significa que dois mundos localizados em regiões parecidas podem acabar completamente diferentes dependendo da evolução temporal do sistema.

O sistema foi revelado após anos de observações combinadas

A descoberta não aconteceu de uma única vez. O trabalho envolveu diferentes telescópios espaciais e observatórios terrestres ao longo de vários anos.

Os primeiros sinais apareceram em 2019 graças ao satélite TESS, da NASA, especializado na busca por exoplanetas através do método de trânsito — quando um planeta passa na frente da estrela e provoca pequenas variações em seu brilho.

Depois disso, observações feitas a partir da Terra ajudaram a confirmar parte do sistema, incluindo dados obtidos pelo telescópio SAINT-EX, instalado no México. Mais tarde, o satélite europeu Cheops forneceu evidências adicionais que permitiram identificar um quarto planeta.

O resultado final foi um sistema planetário que hoje se tornou uma espécie de quebra-cabeça cósmico.

E talvez essa seja justamente a parte mais fascinante da descoberta.

Na astronomia, os casos mais importantes nem sempre são aqueles que confirmam teorias. Muitas vezes, são os que criam problemas para elas.

LHS 1903 parece ser exatamente esse tipo de descoberta.

Um lembrete de que o universo não foi construído para obedecer nossos modelos matemáticos. E de que aquilo que chamamos de “regra” pode ser apenas uma tendência estatística esperando pela próxima exceção.

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