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Ciência

Encontraram um novo pinguim na Antártida após um século de buscas — e ele revela como algumas aves evoluíram para sobreviver em um dos ambientes mais extremos da Terra

Uma equipe internacional identificou oficialmente uma nova espécie de pinguim na Antártida pela primeira vez em mais de 100 anos. O animal, escondido dentro do grupo dos pinguins-gentoo, carrega adaptações genéticas impressionantes que ajudam a explicar como essas aves conseguiram colonizar regiões isoladas e hostis do planeta.
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Durante décadas, cientistas suspeitaram que os chamados pinguins-papua talvez não fossem todos iguais. As diferenças físicas eram sutis, mas havia algo estranho na forma como algumas populações se comportavam, se alimentavam e sobreviviam em ambientes radicalmente distintos. Agora, um estudo internacional finalmente confirmou a suspeita: existe uma nova espécie de pinguim vivendo nas ilhas Kerguelen, no sul do oceano Índico.

Batizado de Pygoscelis kerguelensis, o animal se tornou a primeira espécie de pinguim descoberta na região antártica em cerca de um século. A pesquisa foi conduzida por cientistas do Chile, Brasil e Estados Unidos e publicada na revista científica Nature Communications Biology.

A descoberta também reorganiza completamente a árvore genealógica dos chamados pinguins-gentoo, um grupo que até então era tratado como uma única espécie espalhada pelo hemisfério sul.

O que parecia uma única espécie escondia quatro linhagens diferentes

Durante muito tempo, os pinguins-gentoo foram classificados apenas como Pygoscelis papua. O problema é que essas aves vivem distribuídas em ilhas extremamente afastadas umas das outras, enfrentando temperaturas, alimentação e condições oceânicas muito diferentes.

Para investigar melhor essas populações, os pesquisadores sequenciaram o genoma completo de 64 indivíduos e compararam características físicas, hábitos alimentares, reprodução e comportamento em dez colônias espalhadas por ilhas próximas ao continente antártico.

Os resultados mostraram que os chamados “pinguins-papua” são, na verdade, quatro espécies geneticamente distintas.

Além do recém-identificado Pygoscelis kerguelensis, os cientistas também diferenciaram o Pygoscelis ellsworthi, encontrado em áreas mais extremas da Antártida; o Pygoscelis taeniata, presente em ilhas subantárticas de águas relativamente mais quentes; e o já conhecido Pygoscelis papua, distribuído principalmente pelas Ilhas Malvinas.

Genes adaptados para enfrentar frio extremo, gordura e longas caçadas

O estudo revelou algo ainda mais fascinante: cada espécie desenvolveu adaptações genéticas específicas para sobreviver em seu próprio ambiente.

O Pygoscelis ellsworthi, por exemplo, que vive em regiões antárticas mais severas, apresentou genes ligados à produção de calor corporal, armazenamento de gordura e metabolismo de lipídios — mecanismos essenciais para enfrentar temperaturas congelantes e longos períodos sem alimento.

Já o Pygoscelis taeniata, encontrado em águas mais quentes e salgadas próximas às ilhas Crozet, Marion e Macquarie, mostrou adaptações diferentes, associadas ao ambiente oceânico menos extremo.

Enquanto isso, o Pygoscelis papua, presente na América do Sul, possui genes ligados à digestão, contração cardíaca e atividade muscular intensa. Segundo os pesquisadores, isso ajuda essas aves a permanecerem longos períodos nadando e mergulhando em busca de alimento.

O isolamento das ilhas ajudou a criar novas espécies

Os cientistas acreditam que o principal motor dessa diferenciação foi o isolamento geográfico.

Os pinguins costumam retornar sempre aos mesmos locais para se reproduzir e raramente se afastam muito de suas colônias. Como cada população ficou presa durante milhares de anos em ilhas diferentes, elas acabaram evoluindo separadamente.

Esse processo é conhecido como especiação: quando uma espécie original se divide gradualmente em novas linhagens geneticamente distintas.

Segundo a pesquisadora chilena Daly Noll, autora principal do estudo e integrante da Universidade Andrés Bello e da Universidade do Chile, o caso dos pinguins-gentoo é um exemplo raro e extremamente valioso de evolução em ambientes extremos.

A nova espécie já nasce ameaçada pelas mudanças climáticas

Apesar da descoberta animadora, os cientistas alertam que essas aves enfrentam ameaças crescentes.

Juliana Vianna, bióloga brasileira radicada no Chile e uma das autoras do estudo, explicou que todas as espécies identificadas sofrem impactos diretos das mudanças climáticas e do aquecimento dos oceanos.

Entre os principais riscos estão a perda de habitat causada pelo derretimento do gelo, a chegada de espécies invasoras e a expansão da pesca comercial em áreas onde os pinguins encontram alimento.

A descoberta do Pygoscelis kerguelensis mostra que ainda existem segredos escondidos até mesmo em alguns dos ambientes mais estudados do planeta. Mas também serve como lembrete de que muitas dessas espécies podem estar ameaçadas antes mesmo de serem plenamente compreendidas pela ciência.

 

[ Fonte: El Litoral ]

 

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