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Ciência

Cientistas descobrem que cães também podem ficar “viciados” em seus brinquedos favoritos

Seu cachorro não larga a bolinha nem por um segundo? A ciência acaba de confirmar que isso pode ser mais do que entusiasmo. Um novo estudo revela que alguns cães desenvolvem comportamentos semelhantes à dependência, demonstrando ansiedade, agitação e até recusa de recompensas quando afastados de seus brinquedos preferidos.
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Tempo de leitura: 3 minutos

Cães e humanos compartilham muito mais do que laços afetivos — até mesmo certos comportamentos compulsivos. Um novo estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Medicina Veterinária de Viena descobriu que alguns cães podem desenvolver comportamentos de dependência em relação aos seus brinquedos. A pesquisa lança luz sobre como a motivação, a recompensa e a frustração funcionam no cérebro canino, aproximando o comportamento animal dos mecanismos da adição humana.

“Viciados em bolinhas”

A autora principal do estudo, Stefanie Riemer, explica que muitos tutores chamam seus cães de “ball junkies” — ou “viciados em bola” — pela fixação em brinquedos. Mas até agora não havia comprovação científica de que esse apego poderia se assemelhar à dependência observada em humanos.
“Ser altamente motivado não significa ser viciado”, ressalta Riemer. “Queríamos entender se esse comportamento poderia ser classificado como adição real, segundo critérios clínicos.”

O experimento

Os pesquisadores analisaram 105 cães, em sua maioria das raças Malinois, Border Collie e Labrador Retriever — conhecidas por sua energia e alta resposta a estímulos. Todos eram considerados “motivados por brinquedos” por seus tutores.
Durante os testes, foram usados objetos que cada cachorro mais amava, incluindo o próprio brinquedo trazido de casa. O objetivo era medir reações comportamentais e fisiológicas quando o item era apresentado, escondido ou retirado.

Quando o brinquedo vira obsessão

Os resultados, publicados na revista Scientific Reports, mostraram que cerca de um terço dos cães exibiu comportamentos de vício. Entre eles: fixação visual intensa no brinquedo, recusa em brincar de outra forma com o tutor e até rejeição de petiscos oferecidos como distração.
Segundo Riemer, “alguns cães estavam tão focados que ignoravam completamente outras recompensas. Mesmo quando o brinquedo estava fora de alcance, continuavam tentando interagir com ele.”
O comportamento mais extremo foi observado quando os brinquedos eram removidos por completo: certos cães demoraram até 15 minutos para se acalmar, com frequência cardíaca elevada e sinais de frustração intensa. “Essas reações se encaixam nos critérios de motivação excessiva e disfuncional — muito semelhantes aos da dependência humana”, explica a pesquisadora.

Nem todo amor é vício

Apesar da semelhança, os cientistas alertam que o estudo deve ser interpretado com cautela. Medir dependência em animais é complexo, e os casos observados não representam todos os cães. A equipe também identificou indícios de que comportamentos obsessivos podem surgir ainda nos filhotes, sendo possivelmente influenciados por fatores genéticos ou de criação.
Um próximo estudo vai investigar se certas raças, especialmente cães de trabalho, têm maior predisposição ao comportamento compulsivo por brinquedos.

O limite entre diversão e fixação

Para os tutores, o recado é claro: brincar faz bem — desde que haja equilíbrio. “A maioria dos cães chamados de ‘viciados em bola’ são apenas muito motivados e conseguem parar de brincar sem problemas”, diz Riemer. “Mas para os casos extremos, é importante introduzir pausas e diversificar os estímulos.”
Ela recomenda alternar brinquedos, estimular atividades mentais e permitir que o cão aprenda a relaxar longe de objetos de recompensa.

O próximo passo da pesquisa

Riemer agora pretende investigar possíveis paralelos entre o vício e o TDAH canino. Alguns padrões de atenção e impulsividade observados nesses cães lembram comportamentos de transtorno de déficit de atenção em humanos. “Os cães podem se tornar um modelo valioso para entender melhor o TDAH”, conclui.
No fim das contas, o estudo reforça uma verdade conhecida por quem convive com cães: o amor por uma simples bolinha pode revelar muito sobre como funciona — e sente — o cérebro dos nossos melhores amigos.

 

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