A história do planeta Terra é marcada por mudanças climáticas profundas e, às vezes, difíceis de imaginar. Em diferentes períodos geológicos, o planeta já foi dominado por intensa atividade vulcânica, grandes inundações e transformações ambientais radicais. Entre esses episódios extremos, um dos mais intrigantes para os cientistas é a chamada “Terra Bola de Neve”, um período em que a superfície do planeta pode ter congelado quase completamente. Agora, um novo estudo aponta um elemento inesperado que pode ter contribuído para esse congelamento global.
O enigma da Terra Bola de Neve

O fenômeno conhecido como Terra Bola de Neve ocorreu há cerca de 700 milhões de anos e é considerado um dos eventos climáticos mais extremos da história do planeta.
Durante esse período, evidências geológicas indicam que grandes áreas da Terra ficaram cobertas por gelo, possivelmente até regiões próximas ao Equador. Esse cenário levanta uma pergunta que intriga cientistas há décadas: como o planeta conseguiu atingir um nível de congelamento tão amplo?
Uma nova pesquisa pré-publicada por cientistas da Universidade Glacial da Noruega propõe que o sal marinho pode ter desempenhado um papel importante nesse processo.
Os pesquisadores investigam principalmente o mecanismo que permitiu que o resfriamento global se mantivesse por tanto tempo.
Uma hipótese frequentemente considerada no passado sugeria que o Sol poderia ter emitido menos energia durante aquele período. No entanto, essa explicação é considerada improvável por muitos especialistas.
Por isso, os cientistas passaram a investigar fatores internos do próprio sistema climático da Terra.
O papel inesperado dos cristais de sal
Segundo os pesquisadores Per Jakobsen, Martin Rypdal e o estudante Aksel Samuelsberg, o comportamento do gelo marinho pode ter desencadeado um processo de resfriamento progressivo.
Quando as temperaturas caem e o gelo começa a se formar nos oceanos, ocorre um fenômeno conhecido como precipitação de sal. Nesse processo, o sal dissolvido na água do mar é expulso do gelo que se forma.
Esse sal se acumula na superfície ou em depósitos próximos, formando cristais.
O detalhe importante é que esses cristais de sal possuem uma propriedade crucial: eles refletem a luz solar de forma extremamente eficiente.
Em alguns casos, podem refletir ainda mais luz do que neve ou gelo.
Essa característica aumenta o chamado efeito de albedo, que ocorre quando superfícies claras refletem grande parte da radiação solar de volta para o espaço.
Quanto maior a reflexão da luz solar, menor é a quantidade de energia absorvida pela superfície da Terra.
Isso significa menos aquecimento — e, consequentemente, temperaturas mais baixas.
Um ciclo de resfriamento que se reforça
De acordo com o estudo, o processo pode ter criado um ciclo climático que se reforçava continuamente.
Primeiro, a expansão do gelo marinho aumentava a reflexão da luz solar.
Isso provocava uma queda adicional nas temperaturas globais.
Com o resfriamento, mais gelo se formava, liberando ainda mais sal na superfície.
Esses depósitos de sal altamente refletivos ampliavam o efeito de reflexão da luz solar, acelerando ainda mais o resfriamento do planeta.
Segundo os pesquisadores, esse mecanismo pode ter ajudado a manter o planeta congelado por longos períodos.
Outro fator importante observado no estudo envolve o comportamento do gelo durante esse período.
Os cientistas indicam que parte do gelo da Terra Bola de Neve estava se transformando diretamente em vapor, um processo conhecido como sublimação.
Nesse cenário, a quantidade de gelo perdida não era totalmente compensada por novas precipitações de neve ou chuva.
Essa dinâmica poderia ter contribuído para mudanças adicionais no equilíbrio climático global.
O que ainda permanece desconhecido
Apesar das novas pistas oferecidas pelo estudo, muitas perguntas sobre a Terra Bola de Neve continuam sem resposta.
Os pesquisadores reconhecem que ainda não é possível determinar por quanto tempo os depósitos de sal permaneceram ativos durante esse período.
Também não se sabe exatamente qual foi a extensão geográfica dessas formações ou o impacto total que tiveram sobre o clima global.
Mesmo assim, os cientistas consideram altamente provável que esses depósitos tenham existido.
Se confirmada por pesquisas futuras, essa hipótese pode ajudar a explicar como o planeta conseguiu atingir níveis tão extremos de resfriamento.
O estudo reforça a ideia de que mudanças aparentemente pequenas em processos naturais — como a formação de cristais de sal — podem desencadear transformações climáticas gigantescas.
Entender esses mecanismos não é importante apenas para reconstruir o passado da Terra.
Também pode oferecer pistas valiosas sobre como o clima do planeta reage a diferentes fatores ambientais ao longo do tempo.
[Fonte: Correio Braziliense]